Vladimir Guerrero dentro de um campo de beisebol era sinônimo de paixão. Você poderia perfeitamente amá-lo por um minuto e odiá-lo por outro. Em determinados at bats, ele parecia um juvenil de 15 anos: swing em bolas fora da zona de strike, completamente irrebatíveis e/ou tentativa de defesas miraculosas no campo externo que terminava em rebatida tripla do adversário quando na verdade deveria ser apenas simples (ou eliminação). Em outros at bats, ele era genial. Um jogador que conseguia rebater qualquer tipo de lançamento, decisivo em momentos importantes e que levantava qualquer americano rabugento do sofá com uma defesa brilhante no campo externo. Vlad praticava beisebol com esse fogo, e por isso, no fim do dia, era amado por todos.

Vlad entrou em para o Hall da Fama na semana passada com 92% dos votos e sua entrada no Salão imortal foi muito mais do que uma qualquer. Ele tornou-se o primeiro jogador do Los Angeles Angels a chegar em Cooperstown com o boné angelino. Um dos primeiros dominicanos a chegar lá e o último que atuou pelo Montreal Expos. Como não poderia ter sido diferente, ele foi recebido na sua terra natal como um verdadeiro herói. Um cidadão que saiu da pobreza em uma infância sem eletricidade e água corrente, de um lugar sem nenhuma estrutura para ser reconhecido por todo mundo beisebolístico.

O jeito latino que combinou com o time certo

Vlad teve as suas raízes preservadas durante toda carreira, e talvez muito disso tenha a ver pelo fato de que ele foi para o time certo logo no início. Durante toda trajetória do Montreal Expos, a franquia canadense foi a que mais se identificava com jogadores estrangeiros. Um time multicultural, uma torcida franco-canadense e que tinha um espírito bem mais acesso no jeito de celebrar e torcer do que qualquer outra torcida da MLB e valores que faziam com que qualquer estrangeiro sentisse bem por lá.

Vlad teve uma infância muito difícil, sem água corrente e luz elétrica. As coisas eram feias. Um furacão uma vez tirou o teto de sua família, deixando nada além de uma sala que não foi atingida pela enchente. Ali, sete pessoas da família viveram, compartilhando duas camas. Por algum tempo, todo alimento foi açúcar e leite que chegavam dos helicópteros de resgaste. Vlad lembra disso tudo. Duas décadas depois, ele ainda sente o gosto daquilo e lembra disso toda vez que não sente vontade de treinar além do necessário — conta Dan Le Betard, jornalista da ESPN americana.

Quando Vlad subiu ao time principal, em 1996, ele era um garoto com muita vida que tinha apenas 21 anos. Mostrava muito potencial, assim como o seu filho, Vlad Guerrero Jr., que hoje é um dos principais prospectos da liga. Só que, quando chegou às Majors, ninguém tentou moldá-lo. Moises Alou, treinador da equipe da época, tinha um mantra que espalhava no vestiário o tempo todo durante os primeiros anos de Vlad: “Deixe-o sozinho”.

Em poucos anos, Vlad tornou-se o principal ídolo dos Expos (AP)

Alou foi um dos primeiros que entenderam o jeito de Vlad. Ele era totalmente diferente dos americanos, que são um pouco “robotizados” e metódicos no que fazem dentro do campo de beisebol. Pelo contrário, a estrela da República Dominicana não dispensava uma cerveja depois do vestiário quando o time ganhava e algumas vezes realizava decisões duvidosas dentro de campo. Ao invés de domá-lo, Alou deixou com que ele se sentisse confortável dentro de campo e cultivasse o seu estilo de jogo alegre e algumas vezes “irresponsável” funcionar.

Talvez se Guerrero tivesse ido para outra organização no início da carreira, como o Oakland Athletics, ele teria sua personalidade excêntrica dentro de campo “travada”. Quando ele saiu dos Expos, em 2004, já era um jogador consolidado e fantástico, então nenhum manager ou franquia ousaria a tentar mudar as características dele.

Vlad teve grandes temporadas com a camisa 27 dos Expos, mesmo a equipe não tendo chances reais de pós-temporada. Ele era um dos poucos motivos que a torcida dos canadenses tinha para ir ao estádio — após a greve de 1994, a torcida dos Expos tomou um “ranço” enorme da MLB e os principais jogadores da equipe saíram. Entre 1998 a 2004, ele rebateu 32,6%/39,5%/60,0% com média de 37 home runs e 110 corridas impulsionadas por temporada.

Uma importância que transcende os números

Os números podem ser cruéis com Vlad, mas mesmo assim isso não foi problema para ele entrar no Hall da Fama — e nem deveria ser, claro. A sua importância como um jogador carismático, que muito antes de Bryce Harper fazia o jogo ser divertido, era algo que cativava a todos. Como esquecer do swing na terra em uma bola que tornou-se rebatida válida? Esse era Vlad. Não tinha como você contê-lo, para o “bem” ou para o “mal”. Se ele estivesse num dia inspirado, a cerveja era garantida pós-jogo e a vitória também.

Há alguns exemplos que mostram como os votantes da BBWWA deixaram os números um poucos de lado para analisar a carreira de Vlad, e isso reforça a importância folclórica que ele tem para o beisebol. Jeff Kent, que passou longe de ser introduzido no Hall, teve mais corridas impulsionadas do que ele. Larry Walker e Garry Sheffield, contemporâneos que não foram introduzidos ao Hall e que jogaram na mesma posição, tiveram carreira mais produtivas do que o dominicano. Além disso, em pós-temporada, ele simplesmente desaparecia: 26,3% com dois home runs em 44 jogos.

Em JAWS entre jogadores de campo direito, estatística que mede o quanto de produtividade o jogador teve para entrar no Hall, Guerrero ocupa a 21ª colocação com 50,2, bem atrás da média para atletas que entram em Cooperstown — 58,1.

Um jogador que orgulha de suas origens

Como vários outros jovens da República Dominicana nos anos 1980, Vlad muitas vezes jogava de maneira improvisada com os amigos nas ruas ou no quintal de casa. Um desses jogos era chamado de “La Plaquita”, que consistia em uma placa colocada atrás do home plate imaginário que o arremessador tinha que conseguir derrubá-la com a bola. O rebatedor, assim, tinha que defender essa placa e não deixar com que a bola do arremessador batesse na placa.

Esse jogo era muito parecido com o críquete, só que com regras mais fáceis. Vlad conta que jogar esse tipo de brincadeira quando criança o ajudou a tornar-se um rebatedor mais completo e que não tivesse receio de colocar o bastão na bola — independente de onde a bola fosse localizada. “La Plaquita”, portanto, é a explicação para tantas bolas rebatidas de maneira imaginável por parte de Vlad.

O talento e o ídolo

Dentro de campo, quando Vlad estava em ótimo momento, o que mais impressionava era sua capacidade de conseguir produzir de maneiras diferentes. Ele tinha uma habilidade espetacular com o bastão nas mãos, e mesmo quando não conseguia rebatidas de força, chegava em base através do contato com a bola. Não era o jogador mais consistente de todos, mas sempre tinha alguns períodos brilhantes ao longo do tempo que garantiam os grandes contratos.

De um menino pobre que não tinha nem eletricidade em casa, Vlad, além de todo xodó e sucesso, conseguiu estabelecer um padrão de vida que ele jamais imaginava para sua família. Durante as 16 temporadas nas Majors, ele colocou no bolso US$ 125 milhões, tornando-se um dos jogadores latinos mais bem pagos de todos os tempos. De acordo com o site Celebrity Net Worth, atualmente ele tem um patrimônio de US$ 60 milhões.

Vlad nos tempos de Angels (ESPN)

Agora, aos 42 anos e reconhecido como um herói na República Dominicana e em todos os países vizinhos, Vlad é um exemplo de um jogador que pode sair da sua ilha, manter sua identidade, ir para os Estados Unidos mesmo sem sequer saber falar inglês e dominar o mundo do beisebol. Ele, Pedro Martinez, David Ortiz e tantos outros jogadores tornaram-se verdadeiros exemplos de vida que vão além do esporte.


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