Uma vez RA Dickey disse que o problema da massificação dos números do beisebol e da generalização das estatísticas é que os jogadores são lembrados como números, e não pelas emoções que eles proporcionaram para milhões de pessoas ao redor do mundo. De uma certa forma, isso é verdade.

Há prós e contras disso. O lado positivo é que, mais do que em qualquer outro esporte na face da Terra, temos a habilidade de nós, meros mortais e espectadores do beisebol, termos a noção precisa do quão bom (ou ruim) tal jogador foi — independente do ano ou da era. Nós, fãs da MLB, precisamos valorizar essa vantagem.

O contra, claro, é o que Dickey afirma. Quando queremos olhar a trajetória de jogadores que não pudemos assistir por incompatibilidade de gerações, como por exemplo (aleatório) Bob Feller, analisamos os números no Fangraphs ou Baseball Reference primeiro antes de ler sobre histórias e feitos de determinado jogador. Tudo fica mais frio.

Mas há jogadores que escapam dessa armadilha dos números que muitas vezes “caímos” sem perceber. Da nossa geração smartphone, lembramos de Chris Carpenter como um jogador espetacular em pós-temporada e não pelos números. Quando lemos ou ouvimos o nome de Paul Konerko, temos a convicção certa e instantânea de que ele é um dos melhores primeira base da história. E quando Mariano Rivera aparece na tela, nada pode nos convencer ao contrário de que não houve ou haverá fechador mais espetacular do que ele.

Nesse rol, podemos incluir Justin Verlander. Ele ainda tem muita história para escrever no seu livro, é claro, são pelo menos mais dois anos inteiros de contrato garantido com o Houston e ainda está bem fisicamente no auge de seus 34 anos. Mas muito do que Verlander fez no campo de beisebol numa carreira de 13 temporadas já deixou um vasto rastro de emoções que de alguma maneira sentimos por algumas atuações inesquecíveis.

Verlander é sinônimo de raça, vontade e um espírito vencedor raro. Um jogador com características antigas, a personificação de workhorse — aquele jogador que chega na oitava entrada arremessando a 100 milhas e que passa 200 entradas por ano sorrindo. Mais do que isso, ele foi a alma de uma geração extremamente competente que chegou a duas World Series e que, dentro de campo, liderou uma equipe muito talentosa.

Miguel Cabrera e Verlander. Os Tigers tiveram, por uma década, um par de jogadores que já estão certos no Hall da Fama se a carreira deles terminar hoje (batendo na madeira, óbvio). Por aquelas injustiças do esporte — e também pela incompetência da diretoria dos Tigers — eles não tiveram a sorte necessária para vencer tudo em outubro e nem o elenco coadjuvante ideal em alguns momentos.

Cabrera (dir.) protagonizou junto com Verlander uma equipe que em 2013 parecia imbatível (Getty Images)

Os números são estonteantes

Agora, finalmente nos números, Verlander encerra sua trajetória nos Tigers de forma brilhante. Talvez o maior arremessador destro dos últimos 15 anos — desculpa, Roy Halladay. Em 2011, o ace de Detroit colocou uma das temporadas mais assustadoras de todos os tempos: ERA de 2,40, 251 entradas e 250 strikeouts. MVP, Cy Young e Triple Crown. Tudo que um starter pode querer, em termos individuais, ele conseguiu. Teve até no-hitter.

Não foi só aquele 2011 que ficará para sempre marcado na história. Entre 2007 a 2013, ele completou pelo menos 200 entradas em todos os anos, foi para o All-Star Game cinco vezes, ficou entre os cinco melhores na votação para Cy Young quatro vezes e compilou ERA de 3,35. Um período em que todos sabiam que enfrentar Verlander era sinônimo de poucas corridas e certeza de que ele estaria com uma bola rápida fulminante cortando a zona de strike e chegando inteiro na oitava entrada.

Talvez o Verlander no auge foi o último arremessador à moda antiga, ou seja, estilo Roger Clemens e Nolan Ryan. Muito por causa da mentalidade do ex-treinador dos Tigers Jim Leyland, é claro, que não ligava para pitch count ou desgaste de entradas no ano. Era muito raro Verlander sair antes da sexta entrada.

Memórias inesquecíveis

Além disso, grandes memórias individuais, claro, ele proporcionou aos torcedores dos Tigers e aos fãs do beisebol em si. A pós-temporada de 2013, contra o Oakland Athletics, foi uma obra de arte. Em duas partidas, não cedeu sequer uma corrida. No jogo cinco, decisivo e fora de casa contra um Sonny Gray em ascensão, Verlander foi memorável com oito entradas e 10 strikeouts para mandar os Tigers à final da Liga Americana.

Em 2012, uma situação também muito parecida. Casa dos Athletics, fora de casa, jogo cinco da ALDS, vida ou morte. Ele colocou nove entradas em um shutout de 11 strikeouts. Além disso, ele chegou a eliminar os primeiros 16 rebatedores dos californianos. O no-hitter só foi quebrado após 6,2 entradas. Uma das atuações mais brilhantes de todos os tempos em outubro.

Além das atuações em outubro, também é louvável lembrar da temporada de reviravolta que Verlander fez no ano passado. Quando todos apontavam um fim de carreira para o destro, que já não era mais o mesmo após 2013, ele reinventou seu jogo com mais qualidade de efeito nos arremessos e mostrou para os críticos de outrora que ele não jogava bem só por causa do físico diferenciado.

Com 10,0 strikeouts por nove entradas e ERA de 3,04, lembrou o velho Verlander dos tempos áureos e por uma injustiça do beisebol não ficou com o segundo Cy Young da carreira quando perdeu para Rick Porcello, do Boston Red Sox, na votação final.

E ele, mesmo jogando em outro time, vai proporcionar outro momento especial para os torcedores dos Tigers. Da próxima vez que o Houston Astros jogar no Comerica Park e Verlander estiver no montinho, pode ter certeza que a torcida de Detroit vai aplaudir de pé e homenagear o ace com minutos de gratidão.

Legado intocável

Verlander deixa um legado sem precedente nos Tigers. Um jogador amado pela torcida e pela imprensa, que só saiu do time por uma reformulação no elenco — caso a equipe ainda brigasse por playoffs, ele não teria sido negociado. Longe de brigas por dinheiro na off-season ou indo para o maior rival.

Poucos jogadores foram tão queridos na história de Detroit como Verlander (AP)

Você pode argumentar que Hal Newhouser foi o maior arremessador da história dos Tigers, mas eu educadamente discordaria disso. Ele teve uma carreira espetacular por 15 temporadas em Detroit, mas teve o auge durante o período da Segunda Guerra e nos dois anos seguintes — período mais fraco tecnicamente da história da MLB, uma época em que vários jogadores se alistaram para a Guerra.

O que Verlander fez para os Tigers durante 13 temporadas é algo ímpar na história da franquia. Que ele tenha sua camisa aposentada, estátua no Comerica Park e que esteja com o boné dos Tigers quando entrar para o Hall da Fama.

Justin tem sido sinônimo de consistência na trajetória de sua carreira, e um pilar do beisebol para a cidade de Detroit. Ele é alguém que eu acredito que entre logo de cara no Hall da Fama. Nós desejamos todo melhor para Justin na sua nova trajetória na carreira. — Al Avila, gerente geral dos Tigers.

Agora, em Houston, em uma cidade se reconstruindo após o furacão em uma franquia que teve seu ídolo como grande jogador (Nolan Ryan), ele vai ter a chance de conquistar o primeiro título da carreira e participando disso como um jogador relevante. Uma história perfeita que logo pode ser concretizada.


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About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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