Os esportes americanos giram ao redor de uma cultura vencedora que não é vista em nenhum outro lugar do mundo. A mentalidade de vencer e fazer de tudo para tal, dentro dos limites éticos (se é que existe isso), é algo que o jogador é ensinado desde criança. Para uma criança que pratica beisebol, quando ele ainda nem sabe falar direito os pais já mostram que o melhor caminho de ser bem-sucedido é vencendo.

Talvez isso é até uma metáfora para o estilo de vida americano. Você precisa vencer todos os dias e na maioria dos momentos, e para isso é necessário ser bom no que trabalha. Faça isso e, automaticamente, você será recompensado financeiramente e bem visto na sociedade.

Na MLB, a World Series representa o pote de ouro final para a maioria dos jogadores e, consequentemente, para todos os gerente gerais e donos das equipes. Vença um título e automaticamente seu valor será inflado no mercado de transferências — isso serve do treinador ao roupeiro.

Como nós sabemos, no entanto, só há um título disponível por ano. Enquanto a franquia X vence o campeonato, outras 29 ficam chupando dedo e quebrando a cabeça por noites intermináveis no caminho de tentar conquistar no ano seguinte. Competitividade que, aliás, é a chave para o beisebol ou qualquer outro esporte americano ser tão bom.

Vencer é bom, maravilhoso e traz o orgasmo esportivo que todo jogador/diretor/qualquer-coisa-relacionada-ao-time pode ter. Mas para tal, é preciso sacrificar muitas coisas. Dinheiro, algumas vezes futuro da franquia e a incerteza, nesse processo todo, de que todo esforço pode ir pro ralo — basta ver o Oakland Athletics de 2014, por exemplo.

Além disso, a pós-temporada do beisebol é pra lá de traiçoeira. Você pode ter o melhor time do mundo, maior folha salarial da liga e um dos mais impressionantes da história, mas em outubro a amostragem de jogos é muito pequena. É preciso apostar a ficha em rodadas curtas de melhor de cinco jogos, e para outras equipes é necessário decidir o futuro em apenas nove entradas no Wild Card. Para “piorar”, equipes azarões muitas vezes correm por fora, pegam moral na hora certa e conseguem destronar grandes favoritos.

Você pode ganhar a World Series como o St Louis Cardinals de 2006, que venceu 82 jogos na temporada regular e perdeu 80. Só que na finalíssima daquele ano, destroçou o Detroit Tigers numa varrida categórica por quatro a zero. Ou pode ser o Seattle Mariners de 2001, que bateu recordes atrás de recordes, venceu 116 vezes na campanha regular e nem sequer chegou ao Fall Classic.

“No beisebol, quando chega em outubro, não há certeza de nada. Você cruza os dedos e espera que tudo dê certo”, disse uma vez John Mozeliak, gerente geral dos Cardinals.

Agora pare pra pensar e veja como é difícil a vida de um gerente geral. Por um lado, você tem a pressão de vencer e a certeza da satisfação que isso trará caso vença o título. Por outro, você sabe que ter o melhor time do mundo, estrelas e a campanha mais espetacular da pós-temporada não traduz necessariamente em título.

Com tudo isso na mesa, a neura por montar a melhor equipe possível para chegar em outubro compensa todo esforço e sacrifício para chegar lá? Para conseguir essa resposta, nada melhor do que voltar aos últimos 10 anos para isso.

Quando times foram obcecados pelo anel

Há dois exemplos claros e nítidos que chegam à nossa mente no passado recente, que são o Milwaukee Brewers do início da década e o Oakland Athletics de 2014. E são duas franquias que têm muito em comum.

Brewers e A’s são consideradas franquias “pobres”. Na free agency, na maioria das vezes eles não conseguem competir contra grandes mercados — o que é irônico no caso de Oakland, que teoricamente é um big market, mas a diretoria simplesmente não coloca dinheiro na equipe.

Brewers

Você pode conhecer a história recente detalhada dos Brewers nesse texto, mas é preciso contextualizá-la aqui. Em 2008, o time finalmente saiu da lama após duas décadas sem uma equipe que brigasse por título — algo parecido aconteceu com o Pittsburgh Pirates e Kansas City Royals. Portanto, o time foi com tudo no mercado da deadline daquele ano, contratando, até então, um dos melhores arremessadores do mundo em CC Sabathia.

CC Sabathia ficou apenas quatro meses nos Brewers (AP)

O título não veio naquela vez, mas os Brewers seguiram sacrificando a categoria de base a troco de veteranos por mais alguns anos. Eles chegaram a ter Zack Greinke como ace da rotação, por exemplo, e esticaram contrato de medalhões por mais tempo do que deveria.

Quando a janela de competitividade dos Brewers fechou, e isso aconteceu em 2012 (portanto, foram quatro anos brigando ferozmente por playoffs), a equipe entrou em um processo natural de reconstrução. Mas não foi algo natural, visto que entre 2013 a 2015 o time teve uma das piores categorias de base da liga — que foi um efeito direto do staff ter abrido mão de ótimos prospectos como Alcides Escobar, Lorenzo Cain e outros em retorno de veteranos.

É compreensível no caso dos Brewers, que ainda é uma franquia sem sucesso e que viu, a partir de 2008, a chance de finalmente sair da draga para chegar à glória. Não deu certo, mas mesmo naquele mercado minúsculo eles não hesitaram em buscar o título. Talvez se a diretoria tivesse mesclado aquela atitude agressiva no mercado e não queimasse os prospectos (como os Pirates estão fazendo agora), o time estaria em uma situação bem melhor agora — talvez até de volta ao status de 2008.

A’s

O caso dos Athletics é bem parecido com o que os Brewers viveram, mas há alguns aspectos diferentes, pois essa franquia teve uma porção de sucesso nos últimos 15 anos e Billy Beane teve a oportunidade de acionar o modo full contender em outras oportunidades — mas só o fez, efetivamente, em 2014, sabendo de todas as consequências.

Beane é um cara super competitivo, que mais do que qualquer outro GM, odeia perder. Em 2012 e 2013, os A’s tiveram um grande time que conquistou 94 e 96 vitórias na temporada regular, respectivamente. E Beane montou aquele time como uma obra de arte. Josh Donaldson despontou como uma das principais estrelas do beisebol, Josh Reddick tornou-se um All-Star e o elenco foi feito com uma folha salarial minúscula. Tudo isso sem destruir a categoria de base, algo que Milwaukee fez.

Reddick (dir.) e Donaldson (esq.) foram moldados nas minors dos A’s (Getty Images)

Só que nos playoffs de 2012 e 2013, os A’s sentiram falta de algo. Talvez outro arremessador de elite além de Sonny Gray, ou um rebatedor a mais para dar proteção a Donaldson no lineup. Dessa maneira, Beane viu a oportunidade de ir com tudo na deadline de 2014 atrás de veteranos que poderiam complementar a equipe. Assim, vieram três abridores de muito respeito em Jon Lester, Jeff Samardzija e Jason Hammel. Em troca, pela primeira vez na administração Beane, a categoria de base foi desmantelada — entre os que foram embora estava Addison Russell, futuro shortstop All-Star do time.

Beane fez tudo que estava a seu alcance para deixar aquele A’s como um time campeão. Só que os playoffs são extremamente traiçoeiros, e eles sucumbiram ao Kansas City Royals em um fatídico jogo do Wild Card. Todo aquele esforço da diretoria em sacrificar o futuro pelo presente foi embora quando Salvador Perez conseguiu uma rebatida decisiva no Kauffman Stadium.

Desde então, Oakland não conseguiu recompor a categoria de base. Donaldson foi trocado, Lester, Samardzija e Hammel foram embora — pois o time não teve como renovar com eles na free agency — e a equipe amarga um record total de 192-258 e longe de qualquer hipótese de playoffs desde então.

Claro que você pode pensar “É fácil falar agora que tudo errado nos últimos dois anos e meio, e que se Oakland tivesse sido campeão em 2014 nada dessa conversa estaria acontecendo”, de fato, mas Beane sabia das consequências e riscos daquelas negociações e o que isso traria para o futuro da equipe. Ele até mesmo disse na época:

Sei que estamos sacrificando nosso futuro, mas já passou da hora de conquistarmos um título. Agora é a hora perfeita para isso. — Beane, em entrevista ao Oakland Journal em setembro de 2014.

Blue Jays

Mais um exemplo claro de uma franquia que abre mão do futuro para pensar no presente. No caso dos Blue Jays, mais uma equipe sem tanto poder de fogo como Boston Red Sox ou New York Yankees, tudo começa em 2013. Naquele ano, eles contrataram o então Cy Young R.A. Dickey para liderar a rotação. Só que, em retorno, os canadenses tiveram que enviar ao New York Mets prospectos como Noah Syndergaard e Travis d’Arnaud. Uma decisão que ainda assombra o time.

Syndergaard era um prospecto de qualidade quando saiu dos Jays (AP)

Desde então, os Jays, que na época eram comandados por Alex Anthopoulos, assumiram uma postura muito agressiva no mercado de transferências. Isso culminou com a estratégia utilizada em 2015, quando contrataram Troy Tulowitzki e David Price na deadline para guiar o time ao título. O título não veio. Os Jays venceram 93 jogos naquele ano, mas meses depois, Price estava vestindo vermelho nos Red Sox.

Para trazer Dickey, Price, Donaldson e Tulowitzki a categoria de base do time também foi desmantelada — é seguro dizer que o único bom negócio (e nesse caso foi “grande negócio”) foi a chegada de Donaldson. Agora, Toronto tem uma das equipes mais velhas da MLB e a janela do título provavelmente já está fechada. Até o fim da próxima temporada, jogadores-chave como JA Happ e Donaldson serão agentes livres. Tudo isso abordo de uma farm system que não empolga.

Times que pensam no futuro sem desistir do agora

“Quando chega em outubro, qualquer coisa pode acontecer”. A velha máxima do beisebol deve ser aplicada como um mantra nos front office do Pittsburgh Pirates e St Louis Cardinals. Esses são dois exemplos evidentes de diretorias que não queimam todos os cartuchos em um ano, e que vão prolongando a “janela do título” preservando a categoria de base e contratando veteranos para manter a equipe em bom nível. É a estratégia mais segura.

Pirates

Eles tiveram a chance de puxar o gatilho e formar um super time em outros anos, como em 2014 e 2015. Era uma equipe que tinha prospectos suficiente para Lester ou Price, Tulowitzki, Jay Bruce ou Ryan Braun. Talvez até mesmo Chris Sale, no início do ano, por um caminhão de prospectos. Mas os Pirates sempre decidiram preservar os seus prospectos. Em nenhum momento sob a gestão do GM Neal Huntington o time foi com tudo para brigar com os tubarões de cima.

Neal Hutington é a cabeça por trás dos ótimos times dos Pirates (Getty Images)

Essa maneira “cautelosa” de pensar sobre os negócios da MLB é o que permite os Pirates, mesmo com uma folha salarial apertada e com os melhores jogadores do time vencedor de 2015 envelhecidos, continuar se reciclando e mantendo um time de qualidade. Por três temporadas seguidas (2013 a 2015) eles tiveram grandes anos em que chegaram aos playoffs como um dos favoritos ao título, mas a base dos prospectos sempre foi mantida.

Talvez não há time mais inteligente no beisebol para contratos do que os Pirates. Eles não hesitam em trocar relievers — que é uma função superestimada no mercado e fácil de repor — por rebatedores e nem fazem nenhuma loucura na intertemporada. Isso não se traduz necessariamente em título, mas coloca o time sempre perto de uma vaga na pós-temporada.

Cardinals

A linha de Huntington enxergar o beisebol é bem parecida com John Mozeliak, GM dos Cardinals, e eles são duas mentes inteligentes na hora de negociar contratos e levar vantagem sobre outras equipes com maiores recursos. Eles sabem que, ao contrário da NBA ou de outras ligas, não há uma fórmula para vencer o título. Super times podem falhar em um jogo de Wild Card, como aconteceu com os A’s de 2014. O que você pode fazer é maximizar as suas chances, mas em outubro, a imprevisibilidade da pós-temporada é algo simplesmente impossível de prever.

Um exemplo perfeito quanto aos Cardinals está em Albert Pujols. Na intertemporada de 2011, após o título, o time poderia muito bem se carregar pelas emoções da conquista e oferecer um contrato de 10 anos para o maior ídolo recente do time. Só que a razão falou mais alto para Mozeliak, que preferiu repor Pujols com um produto da casa em Matt Adams — e desde então, apesar de Adams ter ido para o Atlanta Braves, a diferença não tem sido muito grande os dois.

Os Cardinals de hoje, que brigam diretamente por vaga nos playoffs, é um time moldado sem trocas na deadline ou prospectos saindo por veteranos. Tommy Pham é o líder do time em fWAR, um jogador construído na base do time. Paul DeJong, um novato que poucas pessoas conheciam até o início do ano, é o líder do time em home runs e Aledmys Diaz foi o grande destaque da equipe no ano passado. Tudo moldado em casa.

De repente, Pham virou um jogador valioso no time principal (Getty Images)

Durante quatro temporadas seguidas, entre 2011 e 2014, os Cardinals chegaram pelo menos até a final da Liga Nacional, um feito poucas vezes repetido na história do beisebol. Em nenhum momento Mozeliak foi atrás de grandes jogadores na deadline para abrir mão de prospectos como Pham e DeJong, por exemplo. O título veio dessa maneira, em 2011, quando os Cardinals se recuperam na temporada regular após uma primeira metade complicada. Aquele ano é mais um exemplo perfeito de que nos playoffs o imaginável é possível.

E quando as equipes foram com tudo na deadline/free agency e venceram o título?

Nos últimos 10 anos, só tem um time que foi campeão adotando uma estratégia parecida com a dos Blue Jays, Brewers e Athletics: New York Yankees, de 2009. Aquela equipe tinha um Mark Teixeira com contrato gigantesco no primeiro ano de vínculo — a chegada dele aos Yankees foi o que possibilitou Mark Trout ser escolhido pelo Los Angeles Angels, pois os californianos receberam uma escolha compensatória em retorno —, Alex Rodriguez em contrato absurdo e um monte de veteranos que foram negociados por prospectos.

Por muito tempo, inclusive, essa foi a filosofia de Brian Cashman nos Yankees e de outros GMs que comandaram o time: torrar o que for de prospecto e grana em busca do anel. Além disso, foi o time que mais perdeu escolhas compensatórias nos últimos 15 anos. Era normal os nova-iorquinos chegarem no draft sem uma escolha de primeira rodada e só podendo selecionar após todos os times.

Último time campeão montado por veteranos em fim de carreira (AP)

As outras equipes que venceram desde então, como Boston Red Sox (2x), San Francisco Giants (3x), Royals, Cardinals e Philadelphia Phillies, foram campeãs sem o gerente geral fazer “loucuras” na intertemporada ou na deadline. Equipes que foram formadas, em sua essência, pela categoria de base e que não dependiam de contratos de seis meses no último terço da temporada para vencer.

Mais curioso ainda é que, desses últimos 10 campeões, duas vezes o time que saiu do Wild Card (Giants) venceu a World Series e outras duas equipes (Royals e Rockies) chegaram à finalíssima. Ou seja, mesmo se você não vencer a divisão, conquistar o título é uma janela aberta em outubro. Outro exemplo perfeito são os Cardinals de 2006, já citado no começo do texto, que venceram apenas 82 vezes e tinham So Taguchi como titular.

Ou seja…

Não vale a pena ser obcecado pela World Series. Está cada vez mais na provado na MLB que conservar a categoria de base e valorizar o produto da casa é o melhor caminho para montar um time campeão, isso, claro, aplica-se ainda mais em uma equipe de mercado pequeno. Os últimos 10 anos são uma prova disso.

Trazer veteranos em último ano de contrato e despejar caminhão de dinheiro em veteranos na free agency pode dar uma ilusão que o time vai com tudo naquela determinada temporada, mas o futuro no beisebol precisa ser valorizado mais do que em qualquer outra grande liga — afinal, mesmo com super time não há certeza nenhuma de título.

Você precisa chegar na pós-temporada com um time ajeitado, perigoso e com chances reais de conquista — Royals e Giants são exemplos perfeitos disso. Uma vez que o primeiro arremesso é dado em outubro, heróis improváveis aparecem, coisas sem noção acontecem e todos times que ali estão ficam no mesmo patamar e com as mesmas odds.

Como há cada vez mais GMs inteligentes na liga, talvez é por esse motivo que tivemos uma deadline tão murcha neste ano — e provavelmente nas próximas temporadas também serão assim. A categoria de base está mais valiosa do que nunca, e ela é um importante componente para colocar o anel no dedo no fim de outubro.


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About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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