Escrever sobre Albert Pujols é um dos assuntos que dá mais pano para a manga na MLB. Pode-se falar sobre Pujols sob diversas perspectivas. Pode-se focar na sua grande genialidade e, com a utilização de diversas estatísticas, compará-lo aos grandes nomes da história da MLB.  Ou então sobre a consolidação do primeiro astro após a “era dos esteroides”; talvez sobre a repentina queda de grandes jogadores. Ou ainda — como é o objeto deste texto — debater sobre o quão doloroso para o presente e o futuro de uma franquia pode ser a decisão de se oferecer um longo contrato com um caro salário para uma estrela da MLB que está entrando na fase final da carreira, por melhor que seja ou tenha sido este jogador.

Antes de mais nada é bom frisar que não há nada pessoal contra Pujols. O ponto é que ele representa o exemplo de um dos piores contratos já feitos na história da MLB. Não podemos, contudo, deixar de admirar a genialidade do dominicano, possivelmente o principal rebatedor na MLB na última década.

Em 10 das suas 11 temporadas com o Saint Louis Cardinals, Pujols esteve entre os cinco primeiros na votação para MVP da liga nacional, tendo ganho o prêmio três vezes e, em outras quatro, ficado em segundo lugar. Em todas as 11 temporadas, Pujols teve um OPS (on base + slugging, ou seja, a porcentagem de vezes que o jogador chega em base mais a produção multibase do jogador) acima de .900, em nove delas acima de 1.000 e em quatro acima de 1.100.

Este ano, Pujols se tornou o quarto jogador mais jovem a alcançar o home run de número 600 na carreira, sendo o segundo em aproveitamento no bastão (.307, atrás apenas de Babe Ruth com .342) e na taxa de strikeout (10.1% dos at bats, atrás de Hank Aaron com 9.9%) entre os que estão no “clube dos 600 home runs“. E além de todos estes números, o atual jogador do Los Angeles Angels é também o melhor rebatedor que o autor deste texto assistiu jogar em sua humilde opinião — e talvez por isso a tristeza em constatar a queda tão vertiginosa de Pujols.

Pujols foi o nono jogador na história a chegar a marca de 600 home runs. Imagem do portal usatoday.com


Os anos em Saint Louis e os sinais de declínio

Passado o trecho de rasgação de seda ao Pujols, vamos voltar ao ponto deste texto. Ele estreou na major league pelo Saint Lous Cardinals em 2001, e já teve um desempenho fantástico em seus três primeiros anos de MLB (lembrando que nesse período o jogador ainda recebe um salário próximo ao valor mínimo da liga), tendo ficado em quarto na votação para MVP no seu ano de calouro (recebendo, obviamente, o prêmio de calouro do ano na Liga Nacional), e em segundo nos dois anos seguintes.

Os Cardinals não quiseram ter que esperar toda offseason para negociar um contrato no período de arbitration anual (período onde uma corte arbitral decide o salário entre a oferta da equipe e a pedida do jogador, que ocorre entre o terceiro e o sétimo ano de major league) e, na pré-temporada entre as campanhas de 2003 e 2004, fecharam um acordo para a extensão contratual de Pujols por mais sete anos (seis anos de contrato mais um ano de opção do time). O contrato de Pujols teve um salário total (salário + bônus) de 7,25 milhões de dólares em 2004, 11,25 milhões em 2006, 14,2 milhões em 2007, em torno de 15 milhões em 2008 e em torno de 16 milhões anuais entre 2009 e 2011, somando aproximadamente 100 milhões de dólares ao longo dos sete anos.

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Pujols fez história em seus anos de Saint Louis, ganhando 3 prêmios de jogador mais valioso da Liga Nacional nos seus 9 primeiros anos na MLB (juntando-se a um seleto hall com Barry Bonds, Joe DiMaggio, Roy Campanella e Stan Musial ao ganhar três MVPs em um espaço de cinco temporadas).

O final do contrato de Albert Pujols veio em um momento especial, após o título da World Series de 2011 com o Saint Louis Cardinals, segundo título que o jogador venceu com a franquia, tendo ganho também a World Series de 2006. Porém, ao analisarmos os números de Pujols no último ano com os Cardinals, já se podia prever um declínio, mesmo que não se pudesse imaginar que seria tão forte e repentino como foi. Na temporada 2011, o jogador teve uma slash line de .299, .366, .541, com 37 HRs e 99 RBIs (corridas impulsionadas).

Sem dúvida são números muito bons, tanto que Pujols ainda ficou em quinto lugar na votação para MVP desse ano. Porém, já representaram uma significativa queda em relação ao nível que ele vinha jogando nas temporadas anteriores — devemos ressaltar, é claro, que a comparação é até desleal já que o nível dele havia sido absurdamente excelente em praticamente todas suas dez temporadas anteriores.

Na temporada de 2011, foi a primeira vez que o astro do Cardinals rebateu numa média de rebatidas inferior a 30% dos at bats (ok, foi de 29,9%, muito próximo) e abaixo de 39% chegando em base — nesse caso sim, uma diferença significativa, já que a pior média anteriormente havia sido de .394 em 2002, e em todas as outras temporadas havia sido superior a 40%.

A queda no WAR também já deveria ter sido sinal para preocupação, com 5.3 em 2011 após totalizar um WAR de 7.5 em 2010 e acima de oito em sete temporadas seguidas entre 2003 e 2009. Essa foi a temporada com WAR mais baixo em seus anos de Cardinals, inferior até mesmo à sua temporada como calouro.

Os Cardinals obviamente tentaram continuar contando com Pujols em sua primeira base. O contrato de pouco mais de 200 milhões de dólares por nove anos de contrato não foi o suficiente para convencer o jogador a continuar na cidade onde havia conquistado a fama, os prêmios e os títulos de sua carreira. Talvez a franquia de Saint Louis já estivesse preocupada com a pequena queda de rendimento e as pequenas lesões no punho durante a temporada 2011 — que tendiam a piorar, com o jogador já tendo a idade de 31 anos — e não tentou subir a proposta. Com outras propostas financeiramente superiores — inclusive com rumores de uma proposta do Miami Marlins ainda superior ao dos Angels, chegando próximo à cifra de 300 milhões de dólares —, Pujols decidiu seguir o caminho da Califórnia e se mudar para a Liga Americana, passando a jogar pelos Los Angeles Angels de Anaheim.

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Desfile dos campeões de 2011 no que seria a despedida de Pujols de Saint Louis


Os anos de Los Angeles Angels e a queda na carreira

No período de free agency na intertemporada entre 2011 e 2012, Pujols decidiu assinar um multi-milionário contrato de aproximadamente de 220 milhões de dólares divididos em 10 temporadas com o Los Angeles Angels, com uma cláusula integral que dá ao jogador o poder de vetar qualquer troca durante toda a duração do contrato.

A primeira temporada com os Angels foi a única que esteve ao menos próxima dos tempos de Cardinals. Na temporada 2012 (justamente o ano de menor salário entre as 10 temporadas contratuais com o time da Califórna), o jogador teve slash line de .285/.366/.541, 30 home runs e 105 RBI e um WAR de 4.8, na única temporada . Foi a última temporada de Pujols com slugging percentage acima de .500. Já no ano seguinte, em 2013, o jogador sofreu uma lesão que o tirou de quase toda a segunda metade da temporada.

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Albert Pujols ainda tem contrato até com o Los Angeles Angels até 2021

Desde então os números de Albert Pujols despencaram. Não que tenham sido números completamente horríveis, mas são muito contrastantes com o constante nível de excelência que o jogador apresentava. De constante presença no topo da lista de MVP, Pujols passou a jogar no nível de um “jogador comum”. Os home runs continuaram aparecendo em Los Angeles, foram 30 em 2012, 28 em 2014, 40 em 2015 e 31 em 2016. As quedas mais significativas foram no batting average (variando, em média, entre .250 e .280) e no on-base percentage (variando entre .300 e .340).

A maior disparidade está na % de at-bats que resultam em strikeoutwalk. É notório que um rebatedor de elite deve ter uma alta taxa de walks e, preferencialmente, uma baixa porcentagem de strikeouts, e assim foram os anos de Pujols nos Cardinals. Já nos Angels, a porcentagem de walks do jogador diminuiu a menos da metade do que em suas melhores temporadas, com um aumento da taxa de strikeouts, como demonstra a tabela abaixo que compara as melhores temporadas em Saint Louis, entre 2006 e 2009, e as temporadas em Los Angeles:

 ano at-bats AVG OBP SLG HR RBI WAR %BB %K
2006 634 0.331 0.431 0.671 49 137 8.5 14.50% 7.90%
2007 679 0.327 0.429 0.568 32 103 8.7 14.60% 8.50%
2008 641 0.357 0.462 0.653 37 116 9.2 16.20% 8.40%
2009 700 0.327 0.443 0.658 47 135 9.7 16.40% 9.10%
2012 670 0.285 0.343 0.516 30 105 4.8 7.80% 11.30%
2013 443 0.258 0.33 0.437 17 64 1.5 9.00% 12.40%
2014 695 0.272 0.324 0.466 28 105 3.9 6.90% 10.20%
2015 661 0.244 0.307 0.48 40 95 3.1 7.60% 10.90%
2016 650 0.268 0.323 0.457 31 119 1.4 7.50% 11.50%
2017 382 0.243 0.291 0.39 14 59 -0.09 6.50% 15.70%

A queda no desempenho de Pujols ocorreu justamente nos anos em que seu salário era maior, como demonstra o gráfico abaixo. Essa não é uma novidade, pelo contrário; no geral os jogadores assinam os seus maiores e mais rentáveis contratos quando tornam-se free agents (o que depende de quando o jogador entrou na major, sendo elegível para o free agency após 6 temporadas de major quando não houver extensão de contrato com a equipe atual, o que acontece geralmente entre os 26 e 32 anos), justamente quando entrem em uma idade mais avançada acompanhada de uma queda natural no nível de jogo.

O que é mais surpreendente no caso específico de Pujols é o ritmo e a intensidade desse declínio. A imensa disparidade entre o crescimento do salário e a queda do desempenho esportivo de Pujols fazem desse um dos piores contratos assinados por uma franquia nos últimos anos. Mais que isso, representa uma estratégia de planejamento muito arriscada, que pode colocar por água abaixo todo o futuro de uma franquia a médio prazo.


O presente e o futuro dos Angels

Os Angels poderiam até esperar uma queda natural nos últimos anos do contrato de Pujols, mas com certeza esperavam que o então um dos maiores astros da MLB tivesse um desempenho melhor e, durante os primeiros anos de contrato, fosse uma peça decisiva para a equipe de Trout & cia levar um título para Anaheim.

É isso que se espera quando se oferece um contrato dessa magnitude para um jogador com o nome que tinha Pujols. Porém, como mostramos em uma coluna recente, a estratégia de contratar jogadores veteranos à um preço caro, especialmente rebatedores, é cada vez menos frutífera para as equipes da MLB. E os Angels estão sentindo esse gostinho amargo mais do que qualquer outra equipe nos últimos anos.

Não é apenas com Pujols que os Angels estão gastando rios de dinheiro. No mesmo período a equipe ofereceu caros contratos a Josh Hamilton e C.J. Wilson, entre outros, somando a astronômica quantia de 450 milhões de dólares em contratos oferecidos entre as temporadas de 2011 e 2013 (e deixando de estender contrato com jogadores que foram melhores em outras franquias no futuro, como Zack Greinke e Ervin Santana). O caso de Hamilton foi o fracasso mais evidente, tendo jogado apenas uma temporada e meia na equipe (havia firmado contrato de cinco anos totalizando 125 milhões de dólares) em meio à problemas físicos e pessoais extra-campo, tendo sido trocado à preço de banana em 2015 para o Texas Rangers, sua ex-equipe.

Mike Trout tem sido a estrela solitária dos Angels

Em meio às más decisões de contratar veteranos free agents à preço de ouro, o que era pra ser uma equipe estrelada rumo à World Series virou um barco à deriva, sem perspectiva futura e presos à contratos caros e longos, com a segunda pior farm systems da MLB. Em meio a este caos, Mike Trout vem desde sua temporada de calouro, em 2012, se firmando como o melhor jogador de beisebol da atualidade. Como o beisebol é um dos esportes onde o ditado de “uma andorinha só não faz verão” é mais verdadeiro, a genialidade de Trout não tem sido o suficiente sequer para levar os Angels para os playoffs.

A carreira de Trout tem sido nada menos que espetacular: neste período de 5 temporadas, foi eleito o MVP da Liga Americana em duas ocasiões, e ficou em segundo nas outras três. Só em uma delas, em 2014, o time conseguiu se classificar à pós-temporada. Trout tem sido a estrela solitária da franquia que deveria formar, com Pujols, um dos melhores combos de rebatedores da MLB.

Com boa parte do orçamento da equipe comprometida com jogadores veteranos que não rendem o esperado e com um dos piores farm systems da liga, o futuro é sombrio para os Angels. Quase 25% do orçamento de salários é gasto com jogadores que nem fazem parte mais do elenco, como Josh Hamilton e Danny Espinosa. Além de Pujols, outros veteranos com um fraco desempenho esportivo figuram no topo da lista dos maiores salários da franquia, como Ricky Nolasco e Jesse Chavez. Muitos discutem a possibilidade de troca de Trout por um caminhão de ótimos prospectos, como a única possibilidade de reconstrução a médio prazo da franquia à partir da reformulação das categorias de base.


A estratégia escolhida pelos Angels em contratar jogadores veteranos no free agency com contratos caros e longos tem se mostrado o pior planejamento possível para se montar uma equipe vencedora na MLB. Este é um fato ainda mais recorrente nos tempos atuais, em que as equipes empregam diversos profissionais responsáveis pela formação de jogadores na farm system de acordo com as filosofias da franquia. Este caminho permite a formação de um elenco mais jovem e mais barato, aumentando as possibilidades de troca e, se necessário, um rebuild mais rápido e menos sofrido — como ótimo exemplo o atual caso do Pittsburgh Pirates.

Se para os Angels o cenário futuro não mostra coisas boas pela frente, para Pujols não há motivos para preocupação. Os contratos garantidos da MLB não permitem que as equipes encerrem os contratos unilateralmente e assim poupem seu orçamento, ou que pelo menos deixassem de pagar parte do salário de algum jogador. Assim, o jogador tem assegurado que vai receber o total do valor acordado por contrato independente de seu desempenho esportivo. Pujols pode ficar tranquilo, pois já tem a poupança da família garantida por muitas gerações.

Esportivamente seu nome também nunca será esquecido. Ele é o melhor jogador que jogou na MLB dos últimos 15 anos, com mais de uma década jogando em altíssimo nível em Saint Louis. Ainda que sua carreira tenha entrado em um rápido declínio, seus feitos são mais que suficientes para o colocar, merecidamente, no Hall da Fama da MLB.


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About The Author

Torcedor do Philadelphia Phillies, mostra que a paixão pelo beisebol não é uma escolha racional. Cada dia mais viciado pelo esporte, passa metade do dia assistindo aos jogos, lendo textos sobre beisebol ou discutindo as trades no fantasy.

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