Por mais que a relevância da free agency tenha diminuído drasticamente na última década com os novos acordos trabalhistas (CBA) firmados entre os jogadores, donos das equipes e escritório da MLB, o período em que o jogador fica sem contrato ainda é um fantasma para times de pouco investimento. O receio de perder estrelas na free agency de graça e só ganhar uma escolha compensatória no draft segue real e o Pittsburgh Pirates é mais uma prova viva disso.

Na noite deste sábado (13), foi oficialmente confirmado a ida de Gerrit Cole para o Houston Astros. A negociação envolveu quatro prospectos dos texanos para os Pirates, sendo eles Colin Moral, Joe Musgrove, Michael Feliz e Jason Martin — nenhum deles na lista dos top 100 prospectos da MLB.

Se os Pirates fossem um time com muito poder de investimento, como o Chicago Cubs ou St Louis Cardinals, por exemplo, essa troca muito provavelmente não aconteceria. Os Pirates tiveram uma campanha decente no ano passado (75-87), o time é talentoso, há uma categoria de base forte, um gerente geral genial e uma torcida apaixonada. Para acrescentar, Cole era o franchise pitcher do time e ainda tinha mais um ano garantido de arbitragem (vai virar free agent em 2020). Tudo isso com apenas 27 anos e ainda muito potencial pela frente — tem talento suficiente para brigar por Cy Young.

“Trocar Cole não foi uma decisão fácil” disse Neal Huttington, gerente geral dos Pirates. “Adquirindo esses quatro novos jogadores, três deles projetando serem parte do time principal de 2018, com muitos anos em potencial de contribuição, é um passo importante para nós voltarmos a colocar o time na pós-temporada” completou o GM.

Huttington apontou no fato de que três dos quatro prospectos já devem chegar jogando na equipe principal, e provavelmente eles serão Musgrove, Feliz e Moran. Todos com muitos anos de controle da franquia, mas nenhum com talento real para contribuir muito para esse time dos Pirates.

Rotação abalada

Com a saída de Cole, a estrutura da rotação fica abalada e sem um ace para comandar o quinteto. É verdade que Cole não teve um 2017 impressionante (ERA de 4,28), mas nem o mais cético imagina que o destro fosse repetir isso na nova temporada. Agora, sem a ex-primeira escolha do draft, a rotação dos Pirates está projetada com Jameson Taillon, Tyler Glasnow, Ivan Nova, Chad Kuhl e Musgrove. Por mais que os dois primeiros citados tenham talento, não é um quinteto que coloca medo em ninguém.

Taillon tem talento, mas também lida com muitos problemas de contusão (AP)

É difícil competir com o material humano que Pittsburgh tem agora numa divisão bem forte que promete ter um Cubs muito potente para 2018 e Cardinals, Milwaukee Brewers e Cincinnati Reds melhores do que estavam na última temporada.

A saída de Cole não significa que os Pirates sejam um candidato a ir atrás de algum arremessador titular na free agency, como Jake Arrieta ou Yu Darvish. Simplesmente não se encaixa no perfil de contratação dos Pirates, e esses dois jogadores, que poderiam repor a saída de Cole, são bem improváveis de assinar com Pittsburgh.

Quem vem para jogar não impressiona

Entre os prospectos que chegaram, Moran é o melhor cotado na categoria de base dos Pirates, mas ele vem para ocupar apenas o quinto lugar no ranking dos 30 melhores. Infielder que sabe jogar mais como terceira base, é um jogador que vai completar 26 anos em 2018 e que fracassou nas duas tentativas que teve na MLB. É irreal pensar que Moran vai cobrir metade do impacto que Cole deixa no time.

A troca para os Astros soa um pouco estranha tendo em conta que os Pirates provavelmente tiveram melhores negócios na mesa, como por exemplo uma possível troca com o New York Yankees. Rumores fortes apontavam que os nova-iorquinos estavam dispostos a ceder Gleyber Torres ou Clint Frazier, dois jogadores de muito mais talento do que qualquer um dos quatro que chegaram de Houston. Talvez Huttington preferiu a quantidade do que a qualidade entre os prospectos envolvidos.

Os outros dois jogadores que devem jogar agora, Feliz e Musgrove, não saltam aos olhos em nada. Musgrove é um starter/reliever, que ainda não provou muito na MLB e já deixou de ser novato. Feliz tem ERA de 5,13 em duas temporadas como reliever — uma das piores marcas da liga nesse período.

Musgrove tenta se estabelecer como abridor nas Majors (AP)

É verdade que em Pittsburgh há um treinador de arremessadores mágico que consegue potencializar o talento de cada, mas é fato que os Pirates não receberam muito talento nessa negociação.

Cole deve ser o primeira da fila

Sem Cole na equipe, fica improvável imaginar os Pirates sonhando grande em 2018. Isso impacta diretamente na situação de Andrew McCutchen, franchise player da equipe que tem contrato expirante e vira free agent ao término deste ano. Perder McCutchen de graça seria um desperdício, e provavelmente ele será um jogador muito procurado até a trade deadline por equipes que brigam alto.

Além de McCutchen, outro que pode ser negociado logo é o fechador Felipe Rivero, que vem de um fortíssimo 2017. Os Pirates tem tradição em negociar relievers, e seria surpresa se ele terminasse a temporada em Pittsburgh.

McCutchen é o maior ídolo dos Pirates nas últimas duas décadas (Post-Gazette)

Com uma categoria de base forte e um draft de 2017 que priorizou jogadores saindo do ensino médio, parece que os Pirates estão num processo de transição em que o futuro é muito mais importante do que o presente.

2018 de derrotas é o esperado

Pittsburgh é um time que cuida muito bem de seus salários, tanto é que tem uma das oito menores folhas salarias e foi assim mesmo quando a equipe conseguia mais de 90 vitórias no passado recente. Isso faz com que muitos jogadores da equipe sejam peças interessantíssimas de troca. Se Huttington quiser, ele pode acionar o botão de reconstrução e receber dezenas de ofertas todos os dias por alguns jogadores importantes no mercado.

Ao que tudo indica — e a saída de Cole é uma bandeira gigante —, os Pirates estão focados em construir o próximo bom time que pode levá-los aos playoffs. A geração de agora, que deu tanta alegria e que fez com que o time retornasse aos playoffs após 21 anos, não deve colocar esse time de volta a outubro.

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Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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