No dicionário português, a palavra “potencial” tem a seguinte definição: “Força, poder de que se pode dispor.” Essa palavra, usada na rotina para ilustrar várias situações, também se aplica aos esportes. No beisebol, isso fica ainda mais em evidência. Olheiros e especialistas da beisebola tendem a fazer projeções de tudo quanto é tipo. Principalmente para os rebatedores, que são, teoricamente, menos voláteis do que os arremessadores.

No caso de Giancarlo Stanton, os olheiros simplesmente amam o ítalo-americano. Na essência da palavra, poucos jogadores apresentam mais potencial do que Stanton em um campo de beisebol.

2,01m de altura, 112 quilos, músculos definidos e um swing espetacular. Verdadeiro atleta, que seria capaz de jogar esportes de contato como basquete e futebol americano. Junte essa potência muscular com a qualidade na hora de rebater a bola e você tem quase um mutante pronto para destruir arremessadores e mandar 70 home runs todos os anos.

Para Stanton, hoje aos 27 anos, as expectativas sempre estiveram no topo. Em 2010, quando o outfielder do Miami Marlins (então Florida Marlins) estreou nas Grandes Ligas, essa era a descrição para Stanton — que frequentemente aparecia na lista das três melhores promessas:

Um jogador de força inigualável nas ligas menores, ele tem o potencial de tornar-se uma referência no meio do alinhamento. Força 80 ou talvez, ainda precisa melhorar o contato no bastão. Defesa e velocidade ok para um outfielder de campo direito.

O que diferenciava Stanton naquela época e tem sido assim desde que estreou nas Majors é justamente o potencial com o bastão. Desde o momento em que ele pisou na MLB, ele trouxe os seus home runs espetaculares de 400 pés. O rei do Statcast, sempre foi capaz de deixar todo mundo de queixo caído.

Mas o mundo ainda não viu os 70 home runs de Stanton numa única temporada. Aquele potencial do raw power 80 ou talvez mais, não se traduziu no total de bolas para o outro lado do muro e há algumas dúvidas no talento potencializado do franchise player dos Marlins.

Ele tem sido um dos melhores, mas não o melhor

Já são praticamente sete anos inteiros de Stanton na MLB. Ele sofreu muitas contusões nesse período, mas marcou presença em todas as campanhas. Durante todo esse período, desde o ano de novato, ele tem sido o grande líder do ataque dos Marlins. Como o cara no meio do alinhamento que manda bolas para o outro lado do muro e impulsiona corridas, Stanton mereceu seu contrato de mais de US$ 300 milhões.

Stanton ficou em segundo para MVP em 2014 (AP)

Apesar de que Stanton é um jogador que faz a diferença desde os seus 20 anos, não é muito justo incluir o ano de novato (2010) na conversa quando comparamos quando outros craques. Portanto, entre 2011 até hoje, Stanton está em nono na lista dos jogadores com maior wRC+ (140). A diferença para o líder, Mike Trout (170), é considerável.

Stanton não tem sido o melhor rebatedor de sua geração, algo que muitos esperavam quando ele subiu às Grandes Ligas. De fato, pelo menos jogadores como Trout, Miguel Cabrera, Joey Votto, David Ortiz e Bryce Harper estão à frente de Stanton. Quando o assunto é força no bastão, o outfielder dos Marlins fica em sexto nos home runs entre 2011 até hoje (207).

Entre as principais estatísticas ofensivas da MLB, como wOBA, porcentagem em base, wRC+, WAR e OPS, Stanton não aparece entre as três principais em nenhuma.

As lesões impactaram a carreira de Stanton. Uma bolada na cara, problemas no tornozelo, contusões não crônicas e problemas pequenos impediram o outfielder de ter muita continuidade — desde que estreou na MLB, tem apenas um ano com pelo menos 150 jogos.

Teoricamente, Stanton está no auge da carreira em termo físico e técnico — 27 anos e sete de carreira, ou seja, o período em que o ápice físico encontra a habilidade. Mas nas últimas duas temporadas, o outfielder tem wRC+ de 120, que é o 51° na lista dos jogadores com pelo menos 500 idas ao bastão — atrás de jogadores como Matt Joyce, Logan Morrison e Robbie Grossman.

Neste ano, Stanton tem jogado longe de contusões e está a caminho de terminar a campanha com pelo menos 150 jogos. Os home runs estão em dia, mais uma vez na trilha para bater 35 ou mais, porém, não é o suficiente para figurar entre os candidatos a MVP. Stanton aparece em 39° em wRC+ neste ano (127). É uma boa marca, mas não é algo que você espera de um jogador desse calibre e com o eterno potencial de destruir beisebolas.

Em 2017, Stanton não tem sido nem o melhor rebatedor dos Marlins no ano. Marcell Ozuna, All-Star, ocupa esse posto. Justin Bour está no mesmo patamar do que o outfielder neste ano.

Um diferente Stanton em 2017

Aquele Stanton porradeiro, capaz de mandar verdadeiros moonshots tem sido mais tímido em 2017. Em compensação, a abordagem mais cautelosa e madura tem resultado em menos strikeouts para o slugger.

Stanton trabalhou de perto com Barry Bonds (Getty Images)

A média da MLB em strikeouts neste ano tem se aproximado de 22%, e Stanton sempre foi um jogador que não se importava muito com os strikeouts — já chegou a ultrapassar a marca de 30% nesse quesito. No entanto, neste ano, o slugger tem 24% apenas de eliminações por strike, e isso é de longe o melhor da carreira nisso.

Stanton também nunca teve tanto contato com a bola. Mas menos swing no vazio resulta em menos potência na beisebola, e isso fica evidente nos números.

Média de velocidade nas rebatidas de Stanton:

  • 2015: 95,9 mph (1°)
  • 2016: 93,8 mph (3°)
  • 2017: 90,7 mph (29°)

A média de distância das rebatidas também caiu drasticamente. Neste ano tem sido em 177 pés de média, enquanto no ano passado era de 188 pés e em 2015 estava em 220.

É o suficiente?

Quando você tem uma Ferrari, você espera que ela corra a 220 km/h, não a 180 km/h. É a mesma proporção com Stanton em um campo de beisebol. As expectativas são altíssimas com um contrato de US$ 325 milhões em vigência, numa franquia em que ele é o franchise player e depende tanto da produção do destro.

Stanton não tem culpa que o time ainda não foi para os playoffs com ele no elenco — aliás, a última vez que Miami chegou à pós-temporada foi em 2003, quando eles foram os campeões. E tampouco é responsável pela onda de lesões estranhas que já lhe atormentaram no campo de beisebol. Mas há o gostinho de que ele poderia ter feito mais, com todo potencial e expectativa que foi criada desde os tempos de prospecto e que só se solidificou com a assinatura do contrato enorme.

O melhor caso para Stanton é muito maior do que um jogador que fica no segundo escalão entre os melhores rebatedores de sua geração. É também muito melhor do que perder para outros jogadores dentro do próprio elenco quando o assunto é definir o rebatedor de melhor produtividade na temporada.

Será que Stanton vai levar algum MVP até a carreira terminar? (AP)

Se Stanton aposentasse hoje, ele poderia se orgulhar de uma carreira muito boa e muitas cifras no bolso — junto com alguns recordes quebrados e home runs espantosos. Mas ele é “O Stanton”. O jogador que você espera três home runs numa mesma partida, que destrua arremessadores a torto e a direito e mande 70 bolas para o outro lado do muro.

Esse é o potencial, e ele ainda está lá para um jogador de 27 anos. Há tempo na mesa para o físico espetacular de Stanton acompanhar uma possível caminhada rumo ao pico de seu potencial.

Decepção? Talvez não. Stanton é um jogador de beisebol acima da média, isso é fato e não há como negar. No entanto, sempre há aquele “mas” nas sentenças que acompanham o seu nome e isso não é o que se espera de um jogador desse potencial — o mesmo “mas” que não há em carreiras como a de Harper, Cabrera, Votto e Trout.


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About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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