Compreender o momento exato em que seu time reúne as condições ideais para competir no topo da tabela e entrar em modo allin arriscando boa parte dos seus jovens talentos nas ligas menores em troca de jogadores consolidados, ou então o processo inverso, quando suas condições de competição se esgotam e a melhor opção é trocar seus principais jogadores em troca de jovens talentos que formarão um time competitivo em alguns alguns anos, é uma das tarefas mais delicadas e que exigem mais responsabilidade por parte dos General Managers dos times da MLB. Este tema é um dos mais discutidos atualmente, como tratado em uma recente coluna sobre o processo de rebuild do Oakland Athletics.

Alguns exemplos recentes demonstram que o pior dos mundos é ficar entre as duas opções, adiando a decisão de se encarar um verdadeiro processo de reconstrução de uma equipe. De modo geral, insistir por muito tempo em um elenco experiente e com contratos longos e custosos é a receita para uma franquia entrar em um longo período sem competir em alto nível. A lógica é simples, jogadores com idade avançada vão perdendo “valor de mercado” ao passar do tempo até chegar em um ponto em que já não atraem o interesse de outras equipes, e assim torna-se quase impossível uma troca por jovens prospectos. Ao mesmo tempo, a franquia acaba ficando financeiramente “engessada” com os longos e caros contratos dos jogadores experientes, diminuindo as chances de contratar as principais estrelas free agents.

Resumindo, a franquia acaba sem possibilidades de reconstrução de seu farm system e sem condições financeiras para fazer grandes contratações. Um dos casos piores casos atualmente é o do Los Angeles Angels que, apesar de contarem com o melhor jogador de beisebol da atualidade — Mike Trout —, possui o segundo pior farm system segundo ranking da Bleacher Report e a 11ª folha salarial mais cara da liga, acima de muitos contenders, como o Houston Astros, Cleveland Indians e Arizona D-Backs (tendo ainda que arcar com 26 milhões de dólares do contrato de Josh Hamilton que desde 2014 não faz mais parte do elenco dos Angels e desde 2015 não atua profissionalmente na MLB).

Trout e o difícil cenário para os Angels no futuro próximo.

Giants: de multi-campeão na década ao processo de reconstrução

O San Francisco Giants é uma equipe que atualmente enfrenta o dilema entre decidir entrar em um rebuild profundo ou continuar apostando em trocas e novas contratações visando a pós-temporada. Apesar dos últimos anos vitoriosos com quatro classificações aos playoffs nos últimos seis anos (com três títulos de World Series em 2010, 2012 e 2014), a equipe demonstra claros sinais de desgaste do atual elenco, e um cenário desfavorável em relação as chances de disputa nas próximas temporadas.

Para entender melhor a questão vamos retornar ao início da temporada passada. A equipe de São Francisco investiu pesado no período de free agency para reforçar a equipe após ter ficado de fora da pós-temporada na temporada 2015, na campanha seguinte ao título da World Series de 2014 (ficou em segundo na NL West com 84-78, repetindo o “feito” de não participar dos playoffs na temporada seguinte ao título, assim como em 2011 e 2013). O foco foi na contratação de starters na tentativa de consertar o ponto fraco da equipe na temporada de 2015, a rotação, que sofria com a instabilidade dos veteranos Tim Hudson, Ryan Vogelsong, e do outrora Cy Young, Tim Lincecum.

Assim foram contratados Jeff Samardzija e Johnny Cueto, ambos que vinham de temporadas abaixo da média em 2014, mas que apresentavam um bom histórico no montinho (especialmente Cueto, que vinha de 4 temporadas e meia com ERA abaixo de 3.00 no Cincinnati Reds entre 2011 e a metade de 2015, quando foi trocado para o Kansas City Royals).

A intenção que, com uma rotação com Madbum, Cueto, Samardzija, Jake Peavy e Matt Cain, os Giants voltassem a ter um dos melhores times no montinho da Liga Nacional e voltasse a brigar pela World Series. Tanto Cueto (ERA de 2.79) quanto Samardzija (ERA de 3.81) tiveram boas temporadas, mas a queda de Peavy e Cain e atuações horrendas do bullpen (com incríveis 32 blown saves, apenas dois a menos do recorde em uma temporada, 34 do Colorado Rockies em 2004) fizeram os Giants perder a liderança da divisão para o rival Los Angeles Dodgers, caindo para o Chicago Cubs nas série divisional após classificar para a pós-temporada na vaga de wild card.

Contratações de Cueto e Samardzija para formar a rotação com Bumgarner e tentar repetir a “magia dos anos pares” em 2016

A temporada atual

Nesta offseason, os Giants investiram no que foi o calcanhar de aquiles da temporada passada, o bullpen, indicando que o plano da equipe ainda era se manter no topo da tabela da Liga Nacional. Com este objetivo a principal contratação foi Mark Melancon para a função de closer da equipe, vindo de uma ótima temporada de 2016 com ERA de 1.64 e 47 saves, por um relativamente caro contrato de US$ 64 milhões em quatro anos de duração.

Contudo, como já se vê claramente, o plano não vem dando certo. Com uma campanha de 37 vitórias e 60 derrotas, o San Francisco Giants tem a segunda pior campanha de toda a MLB, à frente apenas do Philadelphia Phillies em sua longa jornada de rebuild. A má campanha da equipe não é apenas fruto da lesão de seu principal arremessador no início da temporada, Madison Bumgarner, mas deve ser creditada à decisões questionáveis (e a falta de decisões), especialmente em não ver o início do declínio de alguns de seus principais jogadores e a necessidade de reformulação do elenco e reconstrução da farm system.

Alguns jogadores chaves das últimas temporadas vêm apresentando um acentuado declínio. O caso mais evidente é o do veterano Hunter Pence, que vem tendo uma temporada com slash line de .215/.292/.345 após um 2016 de .289/.357/.451. Pence possui um dos contratos mais caros do elenco, com salário de 18 milhões de dólares até o final da temporada 2018, e com 35 anos dá poucos indícios de recuperar o nível que fazia dele um dos principais sluggers da equipe nas temporadas passadas (Pence perdeu mais de 200 jogos nas duas últimas temporadas devido à problemas físicos e lesões).

Além de Pence, Brandon Crawford também vem tendo uma péssima temporada, com um aproveitamento de apenas .272 para chegar em base, além de uma elevada taxa de 3.47 K/BB. A maré anda tão ruim que até a principal contratação para a temporada, Melancon, vem mal com um alto ERA de 4.35 e teve a posição de closer questionada no início da temporada.

A queda de produção individual reflete, obviamente, na baixíssima produção ofensiva da equipe, com uma média de apenas 3.89 corridas marcadas por jogo, superior apenas ao San Diego Padres. Os Giants encontram-se entre as piores equipes da MLB em quase todos os quesitos ofensivos, sendo a pior equipe de toda a MLB em home runs com apenas 78 (o penúltimo é o Pittsburgh Pirates com 91HRs, a uma distância considerável), a pior em slugging com .375, a terceira pior chegando em base com um obp de .303, e a sexta pior em batting average com .246.

Se o desempenho de alguns veteranos está em declínio, as ligas menores também não serão a salvação para o Giants, cujo farm system está ranqueado como o sexto pior da liga, com escassas possibilidades de subir algum jovem jogador de grande impacto nas grandes ligas no futuro imediato.

Ou seja, são claros os sinais de que os Giants precisam ir para o rebuild imediatamente. O Chicago White Sox já partiu na frente e em meia temporada já negociou boa parte dos seus principais jogadores e rapidamente reconstruiu seu farm system, agora posicionado entre um dos melhores da liga. Quanto maior a demora para iniciar o processo de rebuild, mais os jogadores veteranos podem perder valor, além do que a crescente oferta de jogadores para trocas por parte de outras equipes também diminui a quantidade e qualidade dos prospectos que os Giants hipoteticamente podem conseguir.

Eduardo Nunez é o principal alvo de especulações sobre transações, e deverá vestir um novo uniforme até a trade deadline.

Alguns rumores já circulam sobre a saída de alguns jogadores, especialmente de Eduardo Nunez, que atrai o interesse de diversos times que necessitam de um infielder versátil que joga em diversas posições, como o Boston Red Sox e o Cleveland Indians. Porém, o que o cenário presente de São Francisco indica é a necessidade de um rebuild profundo, e não apenas a saída de um ou dois jogadores. O elenco do Giants é atualmente a 7ª folha salarial mais cara da MLB, e os contratos garantidos para as próximas temporadas colocam a equipe com as folhas salarias mais caras para as temporadas 2018 e 2019, e a segunda mais cara para 2020.

São diversos os jogadores com salário acima de 10 milhões para o próximo ano: Posey, Belt, Crawford, Span, Pence, Samardzija, Bumgarner, Cain e Melancon. Os casos mais absurdos são o de Matt Cain, com um contrato de 21 milhões anuais de dólares até o final de 2018 (segundo maior salário da equipe) e que há três anos vem apresentando um ERA acima de 5.00, e o de Hunter Pence, que ganhará 18,5 milhões na próxima temporada. Já que dificilmente esses jogadores vão atrair o interesse de alguma equipe, tanto pelo alto salário quanto pelo baixo nível em que vêm jogando, a principal questão agora é a possibilidade de negociar os principais jogadores da equipe, como Posey, Belt, Panik e até Bumgarner.

Esse planejamento precisa ser feito quanto antes, para aproveitar o valor que alguns jogadores continuam jogando em alto nível e se mantém saudáveis. Johnny Cueto já declarou que irá se utilizar da cláusula de opt-out de seu atual contrato com o Giants e irá testar o free agency no final desta temporada (o que diminui seu valor de troca, já que as outras equipes já sabem que ele estará livre para assinar com outra equipe no fim da temporada), e é quase certo que será trocado até a trade deadline. 

Buster Posey e Brandon Belt são nomes que certamente atrairiam o interesse de diversas equipes e poderiam trazer importantes prospectos para o farm system de San Francisco, mas seus altos salários e contratos longos (que acabarão quando ambos terão uma idade mais avançada) pode dificultar possíveis transações.

MadBum é o jogador mais valioso dos Giants, e seria a peça central na reformulação do farm system da equipe.

Madison Bumgarner é sem dúvida a peça que poderia transformar o farm system dos Giants, tal qual ocorreu com o Chris Sale na sua troca do Chicago White Sox para o Boston Red Sox na última intertemporada. MadBum é um dos principais starters da liga, ainda jovem (27 anos) e com um contrato team-friendly até o final de 2019 (12 milhões anuais em 2018 e 2019), e valeria no mínimo 2 top-prospects em troca.

Claro que todas essas especulações são apenas hipóteticas. O que está em discussão é o planejamento da equipe e a necessidade de se tomar decisões rápidas para a reformulação do elenco, começando pela transformação da farm system. Em tempos onde o jogo é cada vez mais estudado e analisado, erros como o cometido pelo Phillies, que no “calor do momento” de uma fase vitoriosa acabou firmando longos contratos com jogadores que já entravam em declínio após o título de 2008, demorando para mergulhar no rebuild, custarão cada vez mais caro e deixarão uma equipe amargando por alguns anos a mais a parte de baixo da tabela.


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About The Author

Torcedor do Philadelphia Phillies, mostra que a paixão pelo beisebol não é uma escolha racional. Cada dia mais viciado pelo esporte, passa metade do dia assistindo aos jogos, lendo textos sobre beisebol ou discutindo as trades no fantasy.

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