Ação (e inação)

Um homem em base. Um eliminado. Primeira entrada. Time da casa rebatendo. Placar em 1 a 0 para os visitantes. Contagem em 2-2. O arremessador lança uma bola de curva, que passa a alguns centímetros da zona de strike, parte inferior. É marcado bola. Agora, a contagem está cheia. 3-2. O rebatedor sai do batter’s box, ajeita a luva, recebe o sinal do treinador no dugout e encara de fervorosamente o arremessador, como se estivesse com raiva dele. Nesse intervalo de tempo entre um arremesso e outro, dois torcedores na arquibancada começam a dialogar. Esses dois torcedores, sentados na terceiro deck do PETCO Field, numa tarde ensolarada em San Diego, são acompanhadores fanáticos do time.

Joe, de 32 anos, recebe uma pergunta do amigo, Mark, de 28:

— Será que os Padres vão empatar agora?
— Difícil. Wil Myers não rebate bem contra bola rápida em contagem cheia, é complicado.
— Prefiro que ele vá com tudo. Strikeout ou home run.
— Tem razão, o corredor na primeira base é lento. Uma bola rasteira para o shortstop seria uma eliminação dupla na certa. O infield dos Cardinals é meio lento, mas provavelmente conseguiria os dois outs.
— Pois é, vamos ver o que acontece.

O arremesso de Mike Leake, então arremessador titular dos Cardinals, é outra bola de curva na pontinha inferior da zona de strike. Só que Myers, o rebatedor, consegue tirar uma casquinha da bola. Foul ball. Contagem cheia novamente. Os dois torcedores voltam a conversar enquanto os jogadores se preparam para a nova jogada.

“Lá vem um dos duelos intermináveis de Myers”, indagou Joe. “Leake é um cara muito chato de rebater contra, todo arremesso dele tem um movimento, parece que nada é reto”, completou Mark.

Leake olha para o corredor na primeira base, que não é muito rápido. Observa seus passos devagar, e o corredor tenta desestabilizar o arremessador, mesmo os dois sabendo que não vai acontecer uma tentativa de roubo. Leake joga para a primeira base, e o corredor na primeira volta safe. A torcida apresenta algumas vaias tímidas, querendo ação naquele momento de tensão na contagem cheia.

O rebatedor sai do batter box, ajeita a luva mais uma vez. Mark olha para Joe e dispara: “Falei que o Leake é chato. Ele trava o jogo, demora demais entre cada arremesso e vai cozinhando a partida”. O amigo então retruca: “Se eu fosse, também jogaria desse jeito. Eles estão ganhan… OLHA SÓ QUE CACETADA!” Antes de Joe terminar a frase, Myers dispara um home run de 389 pés no campo esquerdo.

Leake foi inocente nessa, mandou uma bola de curva que ficou pendurada na zona de strike e o rebatedor dos Padres não perdoou. 2 a 1 para os mandantes. Myers corre lentamente entre as bases, enquanto o estádio, razoavelmente cheio, comemora o home run do franchise player da equipe. Myers, confiante, acena para o dugout quando chega perto do home plate. Provavelmente um gesto de agradecimento a alguém ali. 2 a 1 Padres. Um eliminado. 1ª entrada.

Inação

JJ Hardy, do Baltimore Orioles, aquecendo enquanto o companheiro está no bastão (AP)

O que foi descrito no cenário acima é a essência do que faz o jogo de beisebol tão especial e cativante. Um jogo normal, rotineiro entre duas equipes que não vão disputar o título da MLB neste ano. Uma partida em dia de semana, em San Diego, no meio de junho, numa temporada regular que ainda está longe de acabar. Uma partida como qualquer outra.

Os elementos de ação, tensão e ócio em um duelo qualquer. Só mais um, entre pelo menos 54 duelos entre arremessador e rebatedor que acontecem a cada partida durante uma temporada de 162 jogos em que as equipes precisam concluir o calendário todo em cerca de 185 dias.

O jogo de gato e rato entre o arremessador e o rebatedor. Um duelo individual, mas que em sua essência muda todo destino da partida. Talvez altere o destino de uma temporada em que cada vitória é crucial para o resultado final. Uma possibilidade de título ou desclassificação pode ser decidida em um arremesso qualquer. Em um jogo aleatório de maio, junho, tanto faz. Em uma partida que, aparentemente, é inofensiva e insignificante sob os olhos de uma temporada de 162 jogos.

No caso de Leake e Myers, dois americanos em um cenário escrito de maneira fictícia, mas provável em um duelo qualquer entre Cardinals e Padres, representam em sua essência o que é o jogo de beisebol. Várias possibilidades podem acontecer em uma contagem cheia, deixando o espectador e o torcedor curioso entre um arremesso e outro. Beisebol é um jogo de antecipação, de trabalhar a mente de quem está em campo e fora dele. Nos faz pensar, refletir, talvez até conversar sobre um assunto completamente diferente da partida enquanto isso está acontecendo.

É o ócio físico, não mental, que faz o beisebol tão genial. Mas no momento da rebatida e do arremesso, a força é colocada em prática no limite humano. Uma bola rápida vindo na direção do rebatedor, a 95 milhas por hora, é praticamente irrebatível aos olhos do mero homo sapiens. Identificar o arremesso, saber se é passível de rebater ou não e, ainda nesse processo todo, ter a técnica e força suficiente para mandar a bola para o outro lado do muro é algo quase sobrenatural.

Enquanto isso não acontecia no sétimo arremesso do confronto entre Leake e Myers, o diálogo entre Joe e Mark provavelmente se replicou entre milhares de diálogos (ou apenas o pensamento) entre as pessoas que estavam assistindo aquela partida qualquer. Contagem cheia, um out, um em base:

— Será que vai ser walk?
— Será que vai ser uma rebatida simples que vai impulsionar o corredor para a terceira?
— Será que vai haver uma double play?
— Mas e se o arremessador jogar com cautela e não se importar com o walk, não seria a melhor estratégia?
— Uma dupla anotaria uma corrida?
— Será que o corredor da primeira vai tentar avançar para a segunda?
— Será que vai ser um strikeout?
— Será que vai ser home run?

Igualdade

Jackie Robinson (dir.), primeiro negro a fazer sucesso na MLB (MLB.com)

O beisebol é um jogo democrático em que a meritocracia e o insucesso prevalecem. Nisso, imita a sociedade como nenhum outro esporte consegue.

Você pode ser gordo, magro, latino, negro, caucasiano, asiático, alto, baixo, careca, cabeludo, franzino ou atlético. Não importa. Se você for capaz de chegar em base ou eliminar jogadores, você tem a chance de entrar em campo e fazer o seu time vencer.

Se você é o melhor ou pior rebatedor do time, você terá, pelo menos, três chances de tentar rebater na partida. Não há privilégios numa partida de beisebol. A estrela da equipe e o novato que subiu para o time principal no dia anterior podem ficar no campo externo, lado a lado, debaixo do sol e sob as mesmas condições durante toda partida.

E se você é o arremessador titular da equipe, não importa a diferença com o melhor da liga ou da equipe. Na MLB, o abridor que faz parte do elenco joga entre 32 a 34 vezes na temporada. O mesmo número de partidas é válido para todos.

É um esporte em que você aprende com os erros. Você não joga através do nome nas costas, e sim de acordo com a capacidade de influenciar positivamente para a vitória. Um rebatedor que tem média de 30% de aproveitamento nas rebatidas é considerado excelente em qualquer liga do mundo. Mas para ele ter esse aproveitamento, teve que falhar outras sete vezes a cada 10 chances.

O melhor time do mundo, em uma temporada de 162 jogos da MLB, tem cerca de 100 vitórias todos os anos. Para atingir esse número, ele perde 62 vezes no ano. O melhor perde aproximadamente 40% de seus jogos sempre.

Por ser um esporte de tanta repetição, as estatísticas são extremamente precisas e tornam o jogo ainda mais meritocrático. Todos têm as mesmas chances, mas o que acontece dentro do campo é dissecado em cada centímetro e serve de análise para o treinador e a diretoria procurar melhorar.

Família

Jogadores de T-Ball dos Estados Unidos (Public Domain Pictures)

Todos os anos a jornada de um jogador da MLB começa em fevereiro, ainda nos treinos para a pré-temporada, e para alguns termina em outubro, com a chegada da pós-temporada. Para outros, especialmente latinos, isso se estende com as ligas disputadas no Caribe no fim do ano. São, pelo menos, sete meses dividindo espaço com companheiros de equipe e comissão técnica todos os dias.

Pelo menos três horas de partidas, muitas horas de viagem, treinamento e palestras. No ano, os jogadores e treinadores ficam muito mais tempo com o time do que a própria família de sangue. Isso gera companheirismo, amizade e um fator de entrosamento que pode ser traduzido em vitórias.

“Não há time mais entrosado que o nosso. Não dá para calcular exatamente o quanto isso acrescenta em vitórias na temporada, mas certamente o que temos aqui, no elenco, se traduz em vitórias”, disse uma vez Eric Hosmer, na temporada do título do Kansas City Royals em 2015.

Jogadores dos Royals comemorando o título (Getty Images)

Mas não são apenas na MLB que as famílias se formam através do beisebol. Em partidas do fim de semana ou encontros recreativos mensais de amigos que jogam o beisebol apenas por diversão, verdadeiros laços são criados através do beisebol.

Estratégia

“No xadrez, a primeira decisão é tão importante quanto a última”, disse uma vez o lendário jogador de xadrez Garry Kasparov, considerado por muitos como o melhor de todos os tempos no tabuleiro.

O beisebol é um esporte de sequência. Bola por bola, eliminação por eliminação, entrada por entrada, jogo por jogo. Esse bloco faz com que cada ação gere um efeito borboleta para o restante da peça, tornando assim todo movimento importante e possivelmente decisivo (ou não) para o destino de cada sequência.

O que Kasparov aplica no xadrex, portanto, é o mesmo no beisebol. Pegue como exemplo o duelo entre arremessador e rebatedor. Se um arremessador começa o duelo com uma bola rápida na parte superior da zona de strike, provavelmente ele não vai repetir esse mesmo lançamento na bola seguinte. Portanto, faz mais sentido o homem do montinho confundir o olho do rebatedor, e na bola seguinte mandar um arremesso de curva na parte inferior da zona de strike. Assim vai, como um efeito borboleta em cada at bat.

O arremessador tenta bater o rebatedor não só apenas com a qualidade e velocidade de seus arremessos, mas também distribuindo-o na sequência exata. De nada adianta um arremessador ter uma excelente bola rápida se ele não consegue localiza-la em diferentes lugares da zona de strike. E nem realizar uma sequência adequada de arremessos para confundir a cabeça do rebatedor e levar vantagem psicológica.

Corredor roubando a base (Public Domain Pictures)

Não dá para ser o melhor em tudo no beisebol. O jogador perfeito, capaz de ser o melhor rebatendo para todos os campos, mais rápido, mais disciplinado e melhor defensor é impossível. Por isso, ele precisa jogar através de suas potências, e há espaço para todos os tipos de qualidades dentro de campo na missão de vencer os jogos.

O arremessador franzino e baixo, sem potência nos arremessos, tende a trabalhar mais o seu jogo de acordo com as bolas de efeito e uma sequência boa de lançamentos. Eles são, geralmente, os groundballers.  Jogadores espertos, que exploram o contato fraco no bastão do adversário para “cavar” rebatidas fracas no campo interno.

Já o arremessador potente é capaz de ter um estilo de jogo mais agressivo. Ele desafia mais o rebatedor, tem mais coragem nos seus lançamentos e molda seu jogo através dos strikeouts e eliminações no campo externo.

“80% do jogo é mental e a outra metade é física”, disse uma vez o lendário catcher Yogi Berra, multicampeão com o New York Yankees.

Tudo, no fim das contas, é como um xadrez.

Esperança

Torcida dos Dodgers no Dodger Stadium (AP)

No beisebol, não tem como sentar na bola e esperar o tempo passar até o fim do jogo. Independente da vantagem, seja ela 10 a 0 ou a 1 a 0, o time que está ganhando precisa completar as 27 eliminações e vencer o jogo. Não importa o tempo que isso levar. Já o time em desvantagem tem todas as armas e possibilidades de empatar. Rebatida por rebatida, não há limite ou cenário impossível no beisebol.

Sempre há a possibilidade e a esperança de testemunhar algo inédito ou inacreditável. Uma partida sem muito importância no calendário, entre dois times sem muitas chances na temporada. Em jogos assim, um jogo perfeito ou quatro home runs de um mesmo rebatedor pode acontecer. Toda partida começa com as mesmas probabilidades de acontecer um feito histórico.

Isso ajuda a tornar o beisebol tão especial. A esperança sempre está ali, viva e pronta para ser justificada. Isso faz com que o jogo não tenha limites para os jogadores. Apesar de ser um esporte pra lá de centenário, todos os anos há melhorias, recordes e novas marcas sendo estabelecidas.

Afinal, é um esporte em que um rebatedor que erra sete a cada 10 tentativas é considerado competente. Enquanto o rebatedor não for capaz de rebater 10 de 10, e o arremessador não for capaz de não ceder base todos os jogos, o beisebol terá espaço para melhorar e crescer dentro dos seus limites infinitos.

Uma entrada. Um at bat. Uma partida. Não dá para dizer, ao certo, quando terminará. Tudo depende só dos homens dentro de campo.