Você provavelmente leu o título dessa coluna e se perguntou: “Como diabos ele vai escrever sobre o Oakland Athletics sendo que tem tanta coisa legal acontecendo nesse fim de temporada?” Acredite, eu também fiz esse próprio questionamento para mim, e encontrei ótimas respostas para justificar esse tema, pois o que os A’s estão fazendo em setembro, por mais secundário que possa parecer no escopo geral da liga, pode ser um divisor de águas para o futuro do time.

Entre os dias 13 a 24 de setembro, os A’s conseguiram uma marca de oito vitórias em 10 jogos. Nessa fase, eles engataram uma sequência de sete triunfos consecutivos. Para um time em reconstrução que negociou os seus principais veteranos na trade deadline, não foi o suficiente, claro, para colocar a equipe na disputa por vaga no Wild Card da Liga Americana. Mas para essa franquia, isso, agora, realmente não importa.

Para entender o significado desse setembro iluminado (14-9) e a relevância que isso tem para o franquia, é preciso contextualizar e voltar um pouco ao tempo.

Uma das franquias mais tradicionais dos esportes americanos, os A’s amargam uma maldição pós-Josh Donaldson. Depois que a estrela do time foi negociada para o Toronto Blue Jays, antes da temporada de 2015 começar, a equipe afundou em um período extremamente frustrante e de muitas derrotas. Entre 2015 a 2016, eles não chegaram sequer a 70 vitórias. Neste ano, isso estava encaminhando para a terceira campanha seguida, o que seria de longe a pior fase na era Billy Beane.

Esse é o primeiro ano em que os A’s realmente assumiram o rebuild. As temporadas terríveis dos últimos dois anos não necessariamente indicavam um time em reconstrução — os A’s tentaram competir nas campanhas de ’15 e ’16.

Nos esportes americanos, por mais que haja toda cientificação do jogo, cultura que foi turbinada pelo pensamento extremamente analítico de Beane a partir da década de 1990, há algumas coisas que você simplesmente não consegue mensurar — e que provavelmente nunca conseguiremos. Uma vez, Bill James, estatístico de beisebol mais famoso da história, disse que ainda estamos a anos luz de decifrar metade do beisebol.

O que James afirma não é uma hipérbole. Exemplos não faltam: como medir, em números exatos, o entrosamento de um time? Para calcular isso, sairíamos muito da esfera esportiva e a psicologia em si teria que ser um fator muito mais relevante para explicar o impacto que certos jogadores fazem — positivamente ou negativamente — dentro de um vestiário.

Entre essas coisas impossíveis de se mensurar está a cultura de vencer ou perder. A gente sabe que não tem como calcular, mas é sabido entre todos que isso existe e é relevante. Isso sai muito da esfera beisebolística e se aplica em todos os esportes, como Bill Simmons, no basquete, já brilhantemente expôs em várias de suas colunas.

“Quando você ganha muito, você cria um hábito de vencer. Quando você perde, o mesmo acontece” é um dos maiores ditados dos esportes americanos. O mesmo para a vida, não é mesmo?

Para os A’s, o hábito de perder já estava tornando algo encarnado no time. Salvo essa sequência de oito vitórias nos últimos 10 jogos, provavelmente eles amargariam a pior campanha da Liga Americana. De novo. Frustrante para uma franquia sem dinheiro e que tem uma cultura de lutar contra o resto do mundo com suas tamanhas limitações.

Claro que a sequência de sete vitórias seguidas dos A’s não vai tornar o time um Cleveland Indians. Mas pense no efeito que isso pode ter, positivamente, dentro de uma organização. E, contextualizando mais, isso é importantíssimo se tratando de um fim de temporada e o fato de que esse time atual é um dos mais jovens da MLB — no lineup titular, apenas Jed Lowrie e Matt Joyce têm mais de 30 anos.

Lowrie é o líder do time em WAR na temporada (AP)

Tudo isso é ainda mais importante tendo em conta que os A’s é uma equipe lotada de novatos. Beane disse nesta temporada que esse é o foco da franquia para o futuro, o que dá indícios de que ele não quer mais a filosofia de encontrar veteranos para um ano de contrato e remodelar a equipe a cada 12 meses. “Queremos criar uma cultura de fidelidade na franquia. Queremos que os torcedores saibam que podem contar com aquele jogador no ano seguinte”, afirmou o manda-chuva do time em entrevista no meio deste ano.

Para Matt Olson, Matt Chapman, Bruce Maxwell, Franklin Barreto, Jharell Cotton, Sean Manaea e tantos outros novatos ou quase novatos, esse é o primeiro gosto que esses jogadores estão tendo na MLB. Criar uma mentalidade vencedora agora para o coração da franquia pode ser muitíssimo importante a longo prazo. Mais do que isso, gera um otimismo na intertemporada e coloca uma pitada de esperança para o torcedor dos A’s em 2018. Afinal, poucos esperavam que o Milwaukee Brewers chegaria na última semana de setembro brigando por playoffs e muito menos que o Minnesota Twins estaria na pós-temporada tão cedo.

No beisebol atual, rebuilds estão acontecendo mais rápido do que nunca e isso é uma novidade muito recente. Até pouco tempo atrás, exemplo de Houston Astros e Chicago Cubs do início da década, esses períodos demoravam no mínimo duas temporadas. Era preciso amargurar uma sessão de incontáveis derrotas e desenvolvimento lento dos prospectos nas ligas menores.

Agora, o beisebol não está mais dinâmico só para os veteranos. A liga está mais jovem do que nunca, vide Aaron Judge brigando pelo MVP logo na primeira temporada e outros novatos — como o próprio Olson — se destacando bastante com a produtividade no bastão.

Matt Olson é mais um dos rebatedores de força e pouco contato da nova geração (Getty images)

(Uma pausa no texto para o beisebol de Olson nas últimas duas semanas: sete home runs em 12 jogos, wRC+ de 179 e 35,4% em base.)

Processos como dos Brewers e Twins são exemplos perfeitos disso — é bom enfatizar que, na última temporada, os Twins terminaram o ano com 59-103, a pior campanha disparada de todo beisebol com nove jogos de diferença para o segundo com menos vitórias. Até mesmo o San Diego Padres, com uma equipe extremamente jovem e inexperiente, conseguiu superar muitas expectativas neste ano.

Os A’s estão, oficialmente, no primeiro ano de reconstrução da franquia e isso pode ser o suficiente para recolocar o time em boas condições para 2018 e adiante. Claro que ainda há muitos a ajustes a serem feitos no elenco principal e o bullpen necessita de incontáveis reforços para esse time competir consistentemente, mas é fato que há talento em Oakland.

Vala a ressalva de que o melhor dos A’s ainda está por vir. Na categoria de base da equipe, que atualmente está entre as cinco melhores da liga e que foi turbinada com a negociação de Sonny Gray, há prospectos como Jorge Mateo, James Kaprelian, AJ Puk, Dustin Fowler e Austin Beck que são extremamente talentosos. Muitos deles podem aparecer com tudo a partir da próxima temporada.

Rotação dos A’s pode ser encabeçada pelos jovens Manaea, Puk (foto) e Cotton na próxima temporada (Getty Images)

Com tudo isso na mesa e engatilhado para o amanhã, os A’s, que há pouco tempo trocaram Ryan Madson, Sean Doolittle e Stephen Vogt para dar espaço a novatos que nem tinham experiência na Triple-A, podem terminar a temporada com campanha superior a Toronto Blue Jays, Baltimore Orioles e provavelmente Pittsburgh Pirates — equipes que entraram para 2017 sonhando com outubro.

Depois de algum tempo, finalmente o torcedor de Oakland pode sorrir e fazer planos para a temporada seguinte. O processo vai de vento em popa.


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About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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