Não é novidade para todo mundo que me acompanha nas apostas esportivas e desde os tempos de Spinball Net (saudades, aliás) que eu amo beisebol. É meu esporte favorito, tenho um orgulho danado de afirmar isso. Como consequência, claro, acabou deixando de fazer coisas muito mais “interessantes para a sociedade” para me dedicar ao beisebol. Um exemplo disso? Passar a noite de sábado olhando o histórico das franquias em playoffs no Pro Baseball-Reference — meu site de cabeceira.

Passando pelos históricos de muitos times, alguns chamaram atenção e me atentaram a alguns fatos interessantes. Vamos ter como case Toronto Blue Jays, Milwaukee Brewers, Kansas City Royals e Pittsburgh Pirates. O que esses times têm em comum além do fato de que estão localizados no lado leste da América anglo-saxônica? Todos são de mercados considerados pequenos, que foram vitoriosos durante as décadas de 1980 ou 1990 e que, no início do atual milênio, sofreram para colocar times bons em campo.

Antes de Billy Beane chegar e revolucionar o beisebol com o Moneyball provando que era capaz vencer jogos sem dinheiro, Jays, Brewers, Royals e Pirates batiam na mesma tecla de tentar montar times vitoriosos como Boston Red Sox ou New York Yankees. E isso incluía não valorizar a categoria de base como um pote de ouro. O resultado era sempre o mesmo. Além disso, até 2012, existia apenas um Wild Card por liga, o que dificultava ainda mais o acesso. Cada um desses quatro amargaram pelo menos duas décadas inteiras longe de outubro.

Longas secas sem pós-temporada

Time

Período sem playoffs

Royals

29 anos (1985-2014)
Jays

22 anos (1993-2015)

Brewers

26 anos (1982-2008)

Pirates

21 anos (1992-2013)

Para afunilar mais nesse case, a franquia Pirates estava morrendo. Uma das mais tradicionais do beisebol, ficou entre 1992 a 2013 sem pós-temporada. Nesse período, 10 temporadas com mais de 90 derrotas. Entre 2005 a 2011, em todos os anos eles perderam mais de 90 jogos. O beisebol estava perdendo força em Pittsburgh, ainda mais pelo fato de que nesse período os Penguins (NHL) e Steelers (NFL) continuavam em alta.

Ancorados por McCutchen, desenvolvido na base, os Pirates saíram do poço (Getty Images)

Isso era ruim para o beisebol. Os estádios começavam a ficar vazios em junho. O torcedor não tinha esperança que as coisas mudariam de repente. Por mais que a MLB sempre tenha sido imprevisível, essa mágica estava começando a se perder. A discrepância para os times no topo da liga era enorme.

Mas preste atenção na tabela acima e perceba o período em que as secas acabaram. Tudo aconteceu nos últimos 10 anos e isso não é coincidência. Demorou muito tempo, mas os times sem expressão no mercado conseguiram reduzir ainda mais o gap com os gigantes da MLB para figurar no topo. E como parte fundamental disso está a valorização da categoria de base. Desses quatro, apenas os Jays não tinham a farm system como base do time vitorioso para voltar aos playoffs.

Esse período negativo na história do beisebol acabou. E a pós-temporada deste ano, em conjunto com o exemplo desses quatro times citados anteriormente, é mais uma confirmação que a maré está virando.

Minnesota Twins e Colorado Rockies já estão confirmados em outubro — todos como Wild Card (uma das poucas coisas que Bud Selig fez de bom como comissário). Além de serem times de mercado pequeno, eles compartilham mais fatos em comum. O principal deles para esse texto é o fato de que todos tiveram campanhas negativas no ano passado, entraram para 2017 pensando no futuro e esperando o desenvolvimento de talentosos prospectos na categoria de base.

Todos esses times tiveram um processo de reconstrução bem parecido. Sempre com um veterano como referência (Carlos Gonzalez e Joe Mauer) e o elenco recheado de jogadores extremamente jovens que surpreenderam positivamente neste ano.

Minnesota, por exemplo, perdeu 103 jogos em 2016 e, com a vaga no Wild Card deste ano, tornou-se o único time da história a reverter um cenário tão negativo assim. A reconstrução aconteceu de maneira extremamente rápida. Para Minnesota, que é um dos times mais jovens da liga, jovens como Byron Buxton, Miguel Sanó, José Berrios e Max Kepler foram fundamentais na corrida até outubro.

Buxton ainda não atingiu todo potencial, mas foi importante para os Twins nesta temporada (AP)

E o que isso significa para o resto da liga? Tudo e muito. Cada ano que passa prova-se o fato de que é melhor focar nos jovens do que se agarrar a veteranos. Exemplos atuais como Philadelphia Phillies, Oakland Athletics e Cincinnati Reds são bem indicativos disso e indicam uma luz otimista a curto prazo. Equipes que passaram longe dos playoffs agora, mas que com muito talento nas categorias de base tiveram sinais positivos de seus prospectos neste ano e podem vingar já em 2018.

Afinal, eu não duvido que Rhys Hoskins pode brigar pelo MVP em 2018 e ser o Aaron Judge da Liga Nacional na próxima temporada. Ou que Nick Senzel (Reds) vire a próxima estrela do beisebol já no ano que vem.

Claro que cada história é única, mas prospectos como Senzel (foto) são cada vez mais “seguros” (Getty Images)

Mais do que nunca, a roda do rebuild está extremamente rápida. Se antes era demorado três ou quatro anos para “resetar” o time e começar uma nova era, agora os garotos estão se desenvolvendo como nunca antes no beisebol.

Por essas e outras que o draft está sendo tão valorizado assim. Se o jogador sair da universidade, é raro ele passar mais do que dois anos nas ligas menores — há até 10 anos, isso era comum. Até mesmo adolescentes estão chegando nas Majors mais rápido do que nunca. A média de idade de um novato na MLB hoje é de 22 anos, contra 24 em 2007.

Essa nova tendência tira o sono de equipes com muito dinheiro e que sabem que não podem cochilar para não perder a força na divisão. Você não pode mais descartar o time que perdeu 100 jogos para a temporada seguinte, sabendo que os prospectos podem vir a tona a qualquer momento.

A rotatividade nos playoffs está alta e isso é excelente para o beisebol. Os Rockies voltaram a ser competitivos, e estão em outubro pela primeira vez em oito anos. Finalmente o Coors Field apareceu lotado no último mês da temporada.

Isso é um ótimo recado para times que acabaram de começar a reconstrução, como New York Mets e Detroit Tigers. Se as diretorias seguirem o exemplo de times como Twins e Rockies, é possível recolocar um time competitivo em campo bem antes do que o imaginado.

Agora, na intertemporada, diretorias e torcedores de times como Phillies, Reds e Athletics vão começar a pensar: “Por que não nós em 2018?”


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About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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