‘’Ou se morre como o herói, ou vive o suficiente para se transformar no vilão’’

Foram com Mike Scioscia os melhores anos de beisebol já vistos em Anaheim em toda a história do time. Na década passada, foram cinco títulos de divisão, três participações em ALCS e uma épica vitória na World Series de 2002 em sete jogos contra o San Francisco Giants de Barry Bonds. Naqueles tempos, o ex-catcher apareceu com uma filosofia de small ball extremamente efetiva no beisebol da época. No auge dos esteroides, Scioscia remou contra a maré e revolucionou a franquia.

Porém, o ano é 2017. Mesmo com o surgimento estelar de Mike Trout, a última vitória dos Angels em playoffs foi em 2009. Desde então, apenas uma participação na pós-temporada — veio em 2014, quando o time foi massacrado pelo inacreditável Kansas City Royals. De lá pra cá, duas temporadas medíocres e outros anos em que a inconsistência custou uma vaga em outubro. E pode-se colocar boa parcela de culpa nisso em Scioscia.

O manager de 58 anos é um verdadeiro tiranossauro do beisebol. Não por causa da idade, mas por sua filosofia completamente velha e ultrapassada. Numa MLB cada vez mais adaptada as sabermetrics, o ex-catcher ainda insiste em ver o jogo como era há 20 anos. Essa situação ficou evidente em 2015, quando o então general manager dos Angels, Jerry Dipoto, pediu demissão de tão desgastada que sua relação com Scioscia estava por conta da forma como ambos viam beisebol. Discussões sobre o uso ou não de estatísticas avançadas não foram poucas e o desfecho foi inevitável, perfeito para mostrar o quão cabeça-dura o manager é em relação a maior revolução do século no esporte.

Em 2015, Dipoto e Scioscia não puderam continuar trabalhando juntos. A divergência de ideias era muito grande para tal (AP)

Conforme o tempo passa, fica evidente que Scioscia não tem condição nenhuma de treinar um time profissional de beisebol mais, pelo menos não um competitivo. Seus alinhamentos são bisonhos e mal feitos, como se certos jogadores tivessem cadeiras cativas em posições altas da lineup. Como pode Albert Pujols, uma lenda do esporte, mas que já está nos 37 anos, continuar como o cleanup do time mesmo tendo um medíocre wRC+ de 72?

Não é preciso nem ir nas estatísticas avançadas para perceber que Pujols não é mais o mesmo e, consequentemente, deixou de ser um grande rebatedor. Nas estatísticas simples, que são aproveitamento no bastão (23,0%) e porcentagem em base (27,4%) a realidade é evidente. Mesmo assim, ele rebateu em terceiro o quarto no lineup em todos os 110 jogos do na temporada.

Albert Pujols é figura cativa no lineup, não importa o momento (Getty Images)

O pior de tudo, no entanto, é a má administração de bullpen, que atualmente beira ao lunatismo de tão atrapalhada. Bem, em anos recentes, esse foi sem dúvidas o pior lado de Scioscia. Várias decisões questionáveis que custaram jogos (e temporadas) para os Angels.

A maioria das pessoas não vai lembrar, mas torcedores de Anaheim não vão esquecer tão cedo do que aconteceu no fim da temporada de 2015. Naquele cenário, era jogo 162 contra o Texas Rangers, maior rival da franquia, e o time precisava vencer para forçar um jogo 163 contra o Houston Astros. Então, Scioscia colocou Cesar Ramos, um desconhecido do bullpen, com bases lotadas, na sétima entrada. O resultado não poderia ter sido outro que não um completo desastre que acabou com a chance dos Angels no jogo e consequentemente com a temporada inteira.

Mas isso nem se compara com o que está sendo visto nesse ano. Em material humano, esse é sem dúvida o melhor bullpen que os Angels já tiveram em um bom tempo. Blake Parker e Yusmeiro Petit ressuscitaram para o mundo do beisebol com ótimas temporadas e se juntaram com os jovens Keynan Middleton e Cam Bedrosian para formar, atualmente, um dos melhores bullpens da MLB. Pelo menos isoladamente, já que Scioscia faz um incrível desserviço em jogar tanta qualidade no lixo diariamente.

Para se ter uma ideia, em agosto, não existe um padrão para o bullpen dos Angels. Ninguém sabe quais são os arremessadores que irão entras nas entradas finais. A impressão que dá em alguns momentos é que a escolha é feita por puro achismo do manager de 58 anos.

Para ilustrar, no último jogo de Anaheim, Bedrosian e Parker, provavelmente os dois melhores relievers do time, foram usados na sexta e sétima entrada com o time vencendo por 7 a 5, sendo que Parker fez apenas sete arremessos e poderia tranquilamente voltar para uma oitava. Ao invés disso, Scioscia colocou Petit, que não teve muito trabalho para completar a entrada. Na nona entrada, o mesmo Petit. Sem lógica alguma, mas conseguiu piorar. Após o venezuelano de 32 anos ceder uma rebatida e um walk, Scioscia colocou Middleton no fogo para tentar fechar o jogo.

O resultado? Walk-off grand slam de Manny Machado — que já havia rebatido outros dois home runs na noite. Foi o terceiro jogo que os Angels perderam via walk-off grand slam apenas no mês de agosto (!). Quando algo bisonho assim acontece, definitivamente tem algo errado com a administração do bullpen do time.

Por falar em coisas bisonhas, felizmente para os Angels a segunda vaga do wild-card da Liga Americana se encontra em uma situação horrível, visto que a franquia de Anaheim com humildes 62 vitórias e 60 derrotas ocupa o posto.

É possível que a franquia de Anaheim vá para os playoffs. É possível até que vença a World Series, beisebol tem dessas, visto que Ned Yost – outro tiranossauro — venceu a Liga Americana duas vezes seguidas em 2014 e 2015 sob o comando dos Royals. Mas isso não apagaria o fato de que Scioscia jogou no lixo todo o seu legado com os Angels e destruiu tudo que montou na Califórnia.

Escrito por Guilherme.


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