Se você tem o aplicativo do At Bat no smartphone, então você já se acostumou com os avisos de home run do Giancarlo Stanton todas as noites. Parece uma rotina que acontece quase na mesma frequência de mensagens do Whatsapp (ok, nem tanto). Essa sensação de que Stanton está fazendo algo absurdo nessas últimas semanas está se traduzindo em marcas espetaculares.

Quando o All-Star Break terminou, Stanton simplesmente virou um chavinha para o modo “full destruidor de beisebolas”. Nas últimas seis semanas, o outfielder do Miami Marlins tem maximizado o seu potencial para calar a boca dos críticos (incluindo eu) e mostrar que as projeções estavam certas sobre a sua capacidade de mandar bolas para o outro lado do mundo como se fosse Little League.

São 18 home runs nos últimos 28 jogos e ele já tem 14 a mais do que o segundo colocado no quesito nesta temporada. Mais do que os periféricos, os números um pouco aprofundados são nosso maior aliado para mostrar o quão espetacular Stanton tem jogado após o All-Star Game. E eles são assustadores, que o colocam acima de Babe Ruth e no mesmo patamar de Barry Bonds.

Claro que é basicamente impossível manter o nível que Stanton tem jogado nos últimos 30 dias. Se ele manter isso durante uma temporada, ele chegaria a marca dos 100 home runs num único ano — por mais que ele tenha uma força sobrenatural, o maior da história nesse assunto é Barry Bonds, com 73 pauladas em 2001 em uma temporada cheia de asteriscos.

De qualquer maneira, é bom colocar em comparação o que Stanton tem feito nesse último mês. E os resultados, mesmo que comparados contra jogadores de temporadas completas, são de deixar qualquer um de queixo caído.

(PS: Tenha em mente que esses números no último mês não traduzem que, no geral, Stanton é o maior de todos os tempos. O intuito é mostrar o quão absurdo ele está nessa fase recente. No geral, ele não é nem o melhor jogador da Liga Nacional nos tempos atuais.)

Stanton vs Babe Ruth

É bom contextualizar. Babe Ruth jogou em uma época completamente diferente dos dias contemporâneos, num tempo em que os arremessadores eram bem menos atléticos e havia muito menos estudo em relação aos rebatedores adversários. Porém, se tem uma estatística que consegue equiparar as épocas, de certo, e colocar o nível de produção do jogador em relação ao restante da liga, esse número é representado pelo wRC+ (weighted runs created).

O wRC+ é uma das minhas estatísticas favoritas por uma série de razões. Primeiro, ela coloca o jogador X em comparação ao resto da liga — o padrão é 100, sendo assim, qualquer variação para cima ou baixo indica o nível de atuação do rebatedor. O segundo, é que dá e medição acurada de como esse atleta é acima (ou abaixo) dos demais.

Fase espetacular de Stanton tem ajudado a colocar os Marlins na corrida pela pós-temporada (Getty Images)

No caso, a melhor temporada de Ruth em wRC+ foi em 1920, curiosamente apenas o segundo ano completo do maior de todos os tempos dedicado apenas ao bastão. Naquele ano, Ruth teve wRC+ de 239, uma das maiores marcas da história. Para se ter noção, o maior que Lou Gehrig conseguiu nessa estatística foi 209.

O Stanton dos últimos 30 dias ultrapassa os dois nessa e em outras estatísticas. Surreal, mas verdade.

Stanton nos últimos 30 vs melhores anos das carreiras de Ruth e Gehrig

Jogador

AVG OBP OPS wRC+

Stanton

36,5% 45,1% 1.393

244

Ruth (1920) 37,6% 53,3% 1.382

239

Gehrig (1927) 37,3% 47,4% 1.240

209

Stanton vs Barry Bonds

Aqui a competição fica mais acirrada para Stanton. Em termos de auge, nenhum outro jogador da história do beisebol fez tantos estragos quanto Barry Bonds — mesmo com todas as grandes suspeitas de doping, isso não apaga o fato dele ter sido um monstro com o bastão na mão.

Stanton trabalhou junto com Barry Bonds, que foi o treinador de rebatidas dos Marlins (AP)

Em termos de produtividade, 2002 foi o melhor ano ofensivo da carreira de Bonds, ainda não eleito ao Hall da Fama por motivos éticos. Naquele ano, o outfielder do San Francisco Giants conseguiu a taxa surreal de 32% de walks contra apenas 7% de strikeouts — algo simplesmente inimaginável nos dias atuais, mas que aconteceu há apenas 15 anos.

Bonds, em 2002, acumulou o wRC+ de 244 no ano. Isso significa que, naquele ano, a presença dele no lineup representava quase um jogador e meio acima da média da temporada. Era como se os Giants tivessem 10,5 rebatedores em campo, poeticamente falando.

Essa marca de 244, numa temporada completa, é simplesmente a maior de todos os tempos — seguida pelo 239 de Ruth, em 1920. Só que o Stanton dos últimos 30 dias é um intruso na lista.

Stanton nos últimos 30 vs melhor ano da carreira de Bonds

Jogador

AVG OBP OPS

wRC+

Stanton 36,5% 45,1% 1.393

244

Bonds (2002) 37,0% 58,2% 1.381

244

***

Streaks impressionantes acontecem o tempo inteiro, e não é preciso ir muito longe para tal. No começo do ano, James Paxton ficou 21 entradas sem levar corrida para começar a temporada. Em 2013, Michael Cuddyer conseguiu uma rebatida em pelo menos 27 partidas. Agora, Rhys Hoskins conseguiu 10 home runs nos seus primeiros 18 jogos de MLB. E como esquecer do debute meteórico de Trevor Story ou da fase surreal de Eric Thames no começo da temporada?

Assim como aconteceu no passado recente, streaks terminam ou são congeladas com o tempo. Outras vão começar e todos os holofotes se voltarão para aquele jogador em destaque.

O mesmo vai acontecer com essa fase de Stanton, isso é certeza — ele não vai se tornar o maior jogador da história e manter esse nível dos últimos 30 dias por mais cinco anos. No entanto, há a sensação de que essa fase genial vai continuar, pelo menos, até o fim da temporada regular terminar. E se isso acontecer, o outfielder dos Marlins vai levar o MVP e ultrapassar a lendária marca dos 61 home runs de Roger Maris (1961).

Um belo jeito de calar os críticos. Quando a carreira de Stanton terminar, nada vai apagar esse momento histórico que ele está vivendo agora e muitos ainda se lembrarão disso por muito tempo.


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About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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