Precisamos de ídolos para nos apaixonarmos pelo esporte. É assim que funciona em toda modalidade que você assiste. Por mais que haja uma admiração natural pelo jogo e que você adore a beleza e a tática, só é possível atingir aquele algo a mais quando se tem algum jogador como ídolo. É ele, afinal, que vai humanizar e dar um toque mágico ao esporte. E esse jogador para mim, no beisebol, foi Roy Halladay.

Quando eu ainda era um adolescente que estava me acostumando ao beisebol (fim da última década), passava horas por dia pesquisando sobre um novo esporte que se adentrava na minha vida. Queria saber quem era o melhor, o time mais vezes campeão e coisas do tipo. Uma curiosidade que nunca era cerceada. E então não demorou muito para perceber que Halladay era o melhor em atividade.

Essa época (2008 e 2009), ele ainda estava no Toronto Blue Jays. Um arremessador que representava tudo que você queria de um ace. Qualidade dos arremessos impecável, ética de trabalho exemplar para todos os companheiros de equipe e um respeito ao beisebol difícil de comparar com qualquer outro. Além de tudo isso, nunca houve uma vírgula levantada sobre a questão de Halladay fora dos campos e muito menos nenhuma conexão com algum tipo de doping — e olha que ele já era ace dos Jays no olho do furacão dos esteroides na MLB.

(Entrou no auge da carreira entre 2005-2011, período em que atingiu ERA de 2,82 e média de 222,3 entradas por campanha.)

Todas essas características me fizeram ter Halladay como um ídolo no beisebol, desde quando eu comecei a acompanhar esse esporte. E, com o passar do tempo e a minha entrada no mundo do jornalismo online, durante muito tempo Halladay foi justamente o jogador que mais acompanhei e escrevi sobre. Seja no jogo perfeito, no no-hitter genial durante o primeiro jogo que dele em pós-temporada, até os últimos momentos da carreira. Quando ele aposentou, escrevi sobre sua necessária ida ao Hall da Fama. Eu estive de perto, mesmo a milhares de quilômetros de distância, acompanhando a trajetória de um dos oito maiores starters da era moderna.

Além disso, também me lembro das incontáveis horas jogando MLB 2K em que eu só atuava com os Phillies justamente por causa de Halladay. Talvez o arremessador que eu mais joguei pelo videogame até hoje. Até o número que ele utilizava, 34, passou a ser o meu favorito e ainda é. Coisas pequenas, mas que ficam para sempre.

O caso mais emocionante foi durante o no-hitter diante do Cincinnati Reds, em que ele tornou-se o segundo arremessador da história do beisebol a conseguir terminar um jogo de pós-temporada sem ceder rebatida — o outro foi Don Larsen (New York Yankees), na World Series de 1956.

Ele também representou um dos times mais carismáticos e espetaculares da nossa geração. Aquele Philadelphia Phillies do início da década tinha, além de Halladay, lendas como Chase Utley, Cliff Lee, Jimmy Rollins e Ryan Howard. Uma legião de craques que quase me fez virar um torcedor dos Phillies.

Além dos números e do legado espetacular dentro e fora de casa, havia algo que diferenciava Halladay ainda mais dos outros. Seu repertório de arremessos era simplesmente fenomenal. Derek Jeter uma vez disse que enfrentar “Doc”, como conhecido, era uma das coisas mais difíceis do beisebol. “Parecia que ele vinha com uma dúzia de lançamentos diferentes”, afirmou o lendário shortstop.

Four-seam, two-seam, sinker, changeup, curva. Não importava o lançamento, Halladay sempre dominava os arremessadores com muita precisão e calma no montinho. Algo que, na era moderna, talvez só se viu em outros arremessadores lendários dessa mesma natureza como Greg Maddux, Clayton Kershaw e Tom Seaver.

Halladay seguiu no auge por três temporadas com os Phillies (AP)

Nada vai apagar o legado que Halladay construiu durante 16 temporadas na MLB. Por todos os ângulos que você olha, a percepção é sempre a mesma: um jogador que deixou sua marca na história não só do beisebol, mas do esporte em geral.

“Meu coração dói ao escrever isso. Eu ainda me lembro do primeiro dia que nos conhecemos. Era 5h45 da manhã, no primeiro dia de Spring Training quando cheguei. Ele (Halladay) estava terminando o café da manhã, mas as meias estavam encharcadas. Eu perguntei se estava chovendo quando ele chegou. Ele riu e disse: ‘Não, eu acabei meu treino agora’. Naquele momento eu sabia que ele era o cara. Obrigado Roy por permitir que testemunhássemos o que é preciso para ser o melhor. Todos nós sentiremos sua falta.” — Chase Utley, segunda base do LA Dodgers que jogou quatro temporadas com Halladay nos Phillies.

Assim como José Fernandez, que faleceu se divertindo em um hobby que adorava, o mesmo aconteceu com Halladay no acidente de avião. Ele sempre quis ser um piloto, desde a adolescência, mas não tinha tempo para administrar essa paixão junto com a emergente carreira no beisebol. “Quando me aposentei, a primeira coisa que procurei foi tirar minha licença de piloto”, afirmou Halladay em um documentário sobre o avião que ele pilotava no trágico acidente.

O tempo vai passar, décadas irão e nada vai apagar as memórias que tive assistindo ou jogando com Halladay na minha TV. O arremessador de classe, as vezes um pouco sério demais, genial no montinho e que representava o sinônimo de ace como poucos. Para mim, sempre que escuto ou leio o nome de Halladay alguma lembrança positiva vem e continuará sendo dessa maneira. Isso, o tempo não tira. Halladay se foi, mas vai seguir para sempre nas mentes de milhões de pessoas ao redor do globo que estão com esse sentimento exatamente igual ao meu. Um tipo de legado extremamente nobre.


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About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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