Durante 15 anos, Jeffrey Loria foi considerado uma enxaqueca incurável para o Miami Marlins. Nesse período de uma década de meia em que foi dono da franquia da Flórida, ele realizou uma série de lambanças que o caracterizaram como o pior dono de todos os esportes americanos. Queria ter poder demais, influenciava nas decisões dos gerente gerais, não sabia administrar as finanças da equipe e muitas vezes tornava os Marlins um verdadeiro circo. Com perdão da futebolização, mas era a versão mais próxima de Eurico Miranda do que se pode haver nos Estados Unidos.

Loria foi embora, finalmente, em 2017, e com isso pensava-se iriam para o espaço os velhos problemas de amadorismo na administração que assolaram os Marlins por muitos anos. Ledo engano. O grupo que comprou os Marlins, liderado pelo bilionário Bruce Sherman e outros vários empresários, tem Derek Jeter no meio. O ex-shortstop do New York Yankees, então, passou a administrar a parte beisebolística da equipe da Flórida com os seus minúsculos 4% de ações da franquia. Sherman é o chefão com 46% do controle do time, mas ele não entende nem como as regras do beisebol funcionam direito.

A nova administração dos Marlins jogou a franquia na lama com apenas alguns meses de gerência. Giancarlo Stanton, Chris Yelich e Marcell Ozuna, todo os três melhores jogadores da franquia foram negociados em espaço de dois meses. Não se trata de um trio de outfielders qualquer, mas sim um trio que em 2017 foi o melhor de todo beisebol. Todos com menos de 27 anos, com contrato garantido por muito tempo e possibilidade de continuar por lá durante muitas temporadas. Agora, o erro parece irreversível — pelo menos a curto prazo.

Abrindo mão de Stanton por migalhas

Stanton é um jogador com extremo valor no beisebol. É o tipo de jogador que não importa a situação do seu time ou era que ele está jogando, sempre terá espaço no rol dos melhores da liga. Afinal, você sempre quer um jogador que chega muito em base e que pode rebater mais de 50 home runs todas as temporadas.

MVP de 2017, Stanton foi para o mercado de trocas do fim do ano passado como nunca esteve tão valorizado em toda carreira. Qualquer um queria um talento daquele tipo, ainda mais podendo negociar com uma franquia que estava disposta a “perder” um jogador tão diferenciado assim.

Saída de Stanton foi mal administrada desde o início dos rumores (AP)

Os Marlins estavam com a faca e o queijo na mão para negociar Stanton. Com o controle da situação, pois o ítalo-americano ainda tinha pelo menos mais três temporadas garantidas de contrato. Não era preciso ter pressa para negociar o outfielder, e foi exatamente isso que os Marlins mostraram durante todo processo.

Stanton foi para os Yankees a troco de muito pouco. Starlin Castro, Jorge Guzman e Jose Devers vieram em troca. O primeiro citado não é mais do que um bom jogador, e não consegue suprir nem um 1/4 da produtividade de Stanton. Já Guzman veio para ser apenas o quinto melhor prospecto da franquia, enquanto Devers nem aparece entre os 30 melhores do time.

O que os Marlins conseguiram por Yelich, por exemplo, foi mais do que eles conseguiram por Stanton. Muito decepcionante para um jogador que ainda está no auge e que simplesmente acabou de ser o MVP.

Isso não é rebuild

As saídas de Stanton, Yelich e Ozuna “mataram” a franquia. Uma coisa é realizar rebuild, reconstruir o elenco negociando veteranos e prosperando a categoria de base. A outra é deixar o time principal completamente pelado. Uma versão do Philadelphia 76ers entre 2013 a 2015, talvez até pior, se contextualizarmos.

É preciso pegar como exemplo outros rebuilds que aconteceram nos últimos anos para entender que essa estratégia maluca dos Marlins não tem cabimento. Quando o Cincinnati Reds, em 2015, percebeu que era a hora de resetar o time e cultivar a categoria de base negociando prospectos, eles não saíram “queimando” todos os seus melhores jogadores de uma vez só. Eles foram paciente. Primeiro, saiu Johnny Cueto, ainda em 2015. Aí foram Jay Bruce, Brandon Phillips, Todd Frazier e agora Zack Cozart. Eles demoraram um espaço de dois anos e meio para se desfazer dos veteranos.

Os Reds, assim como a maioria dos outros times que realizam rebuild de maneira pensada, avaliaram o mercado com calma. Trocaram seus veteranos no momento certo, ao invés de desesperar-se com negociações sem sentido. Além disso, Joey Votto, principal jogador da franquia, permaneceu. Os Reds não precisaram aceitar qualquer pedaço de biscoito em troca de um talento que aparece a cada geração.

Derek Jeter não tem feito um bom trabalho no início de carreira com os Marlins (ESPN)

Com o Milwaukee Brewers, algo parecido acontece. Paciência para trocar os veteranos e um cornerstone da franquia permaneceu — no caso, Ryan Braun. De maneira inteligente, os Brewers construíram a categoria de base, se aproveitaram de alguns veteranos e conseguiram sair do buraco. Hoje, pouco tempo após a reconstrução, como escreve o analista JP Morosi, é uma equipe que pode brigar pelo título.

Um gerente distante do beisebol está no comando

Depois de 20 anos jogando beisebol profissional, participando da rotina diária e vivendo o jogo a cada dia, Jeter se afastou do esporte ao ponto em que ele confessou nem assistir mais aos jogos. Agora, como gerente de operações dos Marlins, a realidade precisa ser outra.

Em 2015, logo após sua aposentadoria dos campos, Jeter foi perguntado o que ele achava da temporada do New York Yankees e sobre as expectativas da franquia para o ano. Essa foi resposta dele:

Para ser honesto, eu não sinto falta (do beisebol). Eu realmente não sinto. Mas, você sabe, tenho falta dos meus companheiros, porém, eu mantenho contato com alguns. Eu realmente não sento e assisto a muitos jogos. E na intertemporada eu não acompanho as transações.

A declaração de Jeter em 2015 não parece uma realidade muito distante da atual. No último Winter Meetings, que é uma reunião realizada em dezembro em que os dirigentes de todas as equipes se reúnem por alguns dias em hotel, Jeter não compareceu. O motivo? Ele preferiu ir a um jogo de futebol americano ao invés de estar lá e participar das conversas.

Não é como se os Marlins fossem um time ruim precisando de rebuild

A temporada passada rendeu alguns pontos positivos para os Marlins. Eles ficaram oito jogos abaixo dos 50% de vitórias, com 77 vitórias e 85 derrotas, o que mostra uma temporada intermediária. Eles estiveram longe de ser um saco de pancadas.

Miami tinha os contratos garantidos de Stanton, Yelich e Ozuna por pelo menos até 2020. Ok, Stanton não fazia mais questão de ficar em Miami, mas isso é inteiramente culpa da franquia que não conseguia montar um ambiente profissional ao redor de um dos melhores rebatedores da atual geração. Como ele bem descreveu em sua saída dos Marlins, a troca o levou para longe de um lugar pouco profissional.

Ozuna teve um “breakout year” no ano passado e foi para o mercado extremamente valorizado (ESPN)

Os Marlins poderiam preencher algumas lacunas na janela deste ano e manter o time competitivo. A saída de Dee Gordon para a free agency não era muito difícil de ser reposta, enquanto alguns nomes veteranos no mercado de free agents, como Alex Cobb e John Lackey, poderiam ser alternativas para a rotação. Miami, apesar de ser uma equipe com pouco orçamento, tinha dinheiro para investir agora.

Com alguns ajustes e o poder de ter o melhor trio de outfielders da MLB, não seria absurdo ver os Marlins competindo por alguma coisa em 2018. Mas tudo isso foi para o ralo em questão de semanas…

Com todas as trocas, por que assistir os Marlins?

Se a temporada começasse hoje, assim estaria o elenco do Miami Marlins. Um verdadeira tragédia, pronto para perder mais de 100 jogos.

Lineup projetado de acordo com o site Rotochamp (Clique para ampliar)

Qual seria a atração do ataque dos Marlins? Há potencial para alguém despontar neste ano? Não para as duas perguntas. Os principais jogadores desse ataque de Miami são Starlin Castro e Justin Bour. O primeiro citado, apesar de ainda jovem, já é um jogador que aparentemente atingiu o seu potencial. Já Bour ainda tem algum poder que pode surgir no bastão, mas nada mirabolante e dificilmente vai despontar neste ano.

A partir do momento em que se tem algum jogador interessante, mesmo os jogos de alguma equipe em rebuild tornam-se interessantes. Como seria se Yelich, Ozuna ou Stanton continuassem. Ou como foi com Votto nos tempos de Cincinnati. Por que ligar a televisão numa quarta qualquer para assistir os Marlins?

A rotação titular ajuda a endossar ainda mais o problema. Dan Straily, que teve ERA de 4,26 na última temporada e já não é nenhum prospecto (29 anos), está marcado para começar a temporada como ace. Isso é quase equivalente a Kyle Kendrick começar a temporada de 2015 como opening day starter, como foi com o Colorado Rockies.

Rotação titular projetada de acordo com o site Rotochamp (Clique para ampliar)

Na última temporada, em que os Marlins tinha o grande trio de outfielders no campo externo e conseguiram ter uma campanha digna de 77 vitórias e 85 derrotas, a torcida, que tradicionalmente já é fraca, não aparecem no Marlins Park. Apenas 20 mil pessoas de média por partida, muito menor do que o estádio pode comportar (36,7 mil).

Colocar apenas 20 mil pessoas por jogo estabeleceu Miami com a pior média da Liga Nacional no último ano. Se a torcida estava tão desanimada assim em 2017, imagina agora? A expectativa real é que haja menos do que 15 mil pessoas no Marlins Park. Provavelmente haverá um deserto de cadeiras azuis durante as partidas, algo depressivo.

Vão demorar anos para sair do buraco

Do quinteto titular dos Marlins, não há nenhum prospecto, sendo que o único jogador que ainda tem algum upside diferente do que os outros já mostraram é Jose Urena — mesmo assim está longe de ser um jogador que salta aos olhos.

Entre os 30 melhores prospectos dos Marlins, o ataque titular projetado para 2018 tem apenas Brinson entre os starters. Isso dá uma dimensão de como ainda os jovens talentos da franquia ainda estão longe de chegar ao show.

Dos prospectos #2 a #7, sendo respectivamente Monte Harrison, Sandy Alcantara, Guzman, Trevor Rogers, Braxton Garrett e Magnerius Serra, todos estão com 22 anos ou menos e nenhum com experiência real de pelo menos Triple-A ainda. De todos eles, nenhum aparece na lista de top 100 prospectos da MLB.

Brinson começou sua trajetória na categoria de base dos Rangers (Getty Images)

Tudo isso significa que a classe de prospectos dos Marlins, que já não é muito boa, deve começar a render frutos no time principal a partir do ano que vem. Enquanto isso, elenco dos Marlins vai ser preenchido por veteranos sem potencial e jogadores novos que não empolgam muito. A rotação, que já teve José Fernandez comandando o show, é a que mais sofre com a falta de potencial e talento para 2018.

***

É muito difícil encontrar um ponto positivo para o que os Marlins estão fazendo. Abrir mão dos melhores jogadores do time por prospectos medianos está longe de ser uma estratégia inteligente, ou planejada a longo prazo. O desespero pelo rebuild resultou em negociações muito rápidas e que renderam péssimos negócios para uma franquia sem dinheiro, sem torcida, com um pacote televisivo pequeno e que agora tem uma montanha gigantesca para escalar.

2018 vai ser um ano deprimente para os Marlins. A temporada ainda está longe de começar, e eles já estão garantidos como um saco de pancadas. Se a lógica acontecer, algo parecido vai se repetir em 2019, e talvez 2020.

Em questão de semanas, a diretoria dos Marlins jogou o time atual na lama e não conseguiu tornar o futuro promissor. Para um time nas circunstâncias dos Marlins, isso é o pior que poderia ter acontecido.


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