Quando você é um gerente geral de alguma equipe da MLB, o pensamento sempre é no objetivo final de vencer a World Series. Isso funciona para todas as equipes, desde o San Diego Padres ao Los Angeles Dodgers. A diferença é que para os contenders, a expectativa é que isso aconteça naquela temporada em questão, enquanto para os times em reconstrução a visão é a longo prazo.

Vencer jogos na temporada regular vem de uma receita. Salvo o Baltimore Orioles dos últimos anos e o Kansas City Royals de 2014 e 2015, as projeções — sejam analíticas ou no feeling — geralmente se concretizam. Ou seja, salvo uma tragédia, temos a certeza de que Cleveland Indians e Washington Nationals vão vencer pelo menos 94 jogos.

Essa previsibilidade, no entanto, passa extremamente longe da pós-temporada. Outubro é uma terra de ninguém, um lugar em que a improbabilidade passa a ser o convencional. Os Royals de 2014 é um exemplo perfeito disso, mas não é necessário ir ao extremo para tal. Chegar ao título é uma combinação desconhecida, não há uma fórmula para tal. Grandes times e jogadores podem sucumbir perante ao improvável, enquanto jogadores medíocres podem tornar-se verdadeiras estrelas em um par de jogos.

O jogo cinco de ontem (29) nos traz mais uma constatação de que quando um time é montado, você não tem a certeza se aquilo vai dar certo ou não em outubro.

Clayton Kershaw vs Dallas Keuchel no montinho. As casas de aposta projetaram esse jogo com a linha em sete corridas — ou seja, a expectativa do mercado sobre esse jogo é que o placar final não passaria das sete corridas com o total acumulado pelos dois lados. Essa projeção nos dá uma noção de como se imaginava uma partida dominada pelos arremessadores.

Kershaw e Keuchel, dois dos três melhores arremessadores do mundo (tem Chris Sale na parada) não completaram sequer cinco entradas cada. O ace do Houston Astros, um jogador extremamente seguro e confiável, cedeu total de quatro corridas. Já Kershaw foi ainda pior, com total de SEIS CORRIDAS MERECIDAS em 4,2 entradas.

Como se não bastasse o jogo terrível dos dois abridores, Kershaw estava no montinho quando o placar apontava 4 a 0 para os Dodgers, ainda na quarta entrada, e Houston empatou em 4 a 4. Depois, o jogo foi se desenrolando com os Dodgers mais no comando após liderar por 7 a 4 e 8 a 7. Aí na nona entrada, os Astros desperdiçaram uma liderança de 12 a 9 quando mais tarde Kenley Jansen (melhor fechador do mundo) permitiu a corrida da vitória dos texanos.

O resumo disso tudo reforça o fato de que não há uma receita para vencer em outubro. Você tem Kershaw no montinho, o melhor e maior arremessador da atual geração no montinho com uma liderança de 4 a 0 na quarta entrada e tudo vai para o ralo. Já nas extras, Jansen, o melhor fechador da liga, estava no controle com dois eliminados quando acertou Brian McCann, caminhou George Springer e cedeu uma simples da derrota para Alex Bregman.

O fato de tudo poder acontecer e a improbabilidade batendo na porta o tempo inteiro torna o beisebol em outubro tão intrigante e mágico. O que teve ontem pode ser colocado em escala parecida de jogos malucos em World Series com David Freese em 2011, Arizona Diamondbacks de 2001 ou Toronto Blue Jays de 1993.

Mas qual o motivo de haver tanta loucura assim em situações de muita pressão em que os stakes estão ao máximo no MLB? Talvez pelo fato do emocional e do aspecto humano entrar em ação como em nenhum outro cenário no beisebol — inflados pela torcida e com a possibilidade do título tão perto. Afinal, por mais que seja um jogo dissecado pelas estatísticas, o emocional tem um peso muito alto. Como Yogi Berra disse uma vez: “90% do jogo é mental e a outra metade é físico”.

Agora os Astros estão a uma partida de vencer a World Series após perder 100 partidas em 2013. Mas será que isso significa muita casa em um oceano de improbabilidades e incertezas em outubro? É impossível prever alguma coisa após esse 13 a 12 com Kershaw e Keuchel no montinho.

Mais uma pós-temporada aloprada no universo das improbabilidades, que já estou me vacinando ao ponto de achar que um playoffs “normal” é algo utópico na MLB. E isso é excelente para o beisebol.

About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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