Barry Bonds foi o segundo melhor jogador da história do beisebol. Atrás só de Babe Ruth, alguns argumentam (com leve razão) que ele jogou até mais que o maior esportista de todos os tempos. O doping, certamente utilizado pelo ex-outfielder do San Francisco Giants, serve como um asteriscos em suas conquistas pessoais, mas não podem de maneira alguma riscar o que ele fez durante cerca de duas décadas. Sete MVPs e uma cacetada de recordes quebrados e que provavelmente nunca mais serão quebrados novamente.

Nesta terça (6), o San Francisco Giants anunciou que no dia 11 de agosto vai aposentar a camisa 25 de Bonds. Agora, ele vai entrar ao lado do rol de jogadores dopados que tiveram a camisa aposentada na franquia. E nisso, você pode adicionar Willie Mays, Mickey Mantle, Hank Aaron e praticamente qualquer jogador que atuou depois da Segunda Guerra Mundial até meados de 2006.

Não se assuste em relação ao parágrafo acima. A MLB, depois da Segunda Guerra, foi uma verdadeira casa da mãe Joana em relação ao doping. Diversos livros, documentários e artigos em jornais apontavam o uso de substâncias ilícitas entre os jogadores. Na época de Mays então, que é tido por muitos como maior ídolo da história dos Giants e que tem uma estátua fora do AT&T Park, ele distribuía anfetamina (uma droga utilizada entre os jogadores para repor energia e evitar fadiga) como “balinhas” no vestiário. Mays, como Jim Bouton, o autor do polêmico livro “Ball Four” aponta, era um verdadeira maestro das greenies.

Mays que, entre tantas outras coisas que conseguiu na carreira, era o maestro das anfetaminas (AP)

Na época que Bonds atuava, o antidoping não existia e só passou a valer de verdade a partir de 2006. Até então, não havia como provar, com teste no papel, se o jogador usava ou não doping. Há milhares de testemunhas que apontavam o uso de drogas por parte de Bonds, mas acredite só: não há um teste sequer que comprove que ele utilizou doping na carreira. Qual a diferença dele com Mays, se ambos utilizavam drogas para aumentar a performance? A repercussão da mídia e a pressão que a MLB teve para achar um bode expiatório.

Bonds foi crucificado, pois jogou na época errada. Em um período em que as drogas sintéticas dominavam o mundo do beisebol, a MLB passou a implementar um sistema antidoping nos meados da década de 2000 e com relatórios investigativos da mídia e até do senado norte-americano tornaram praticamente impossível o escritório do comissário Bud Selig não ir atrás dos jogadores “desonestos”.

O doping teve vista grossa na MLB durante o seu auge, que veio no fim da década de 1990, quando a liga tentava recuperar o prestígio perdido após a greve que parou a temporada regular de 1994. Como resultado daquela greve, o beisebol perdeu muita popularidade (principalmente em Montreal, que anos depois levou a saída dos Expos) e isso resultou em menos faturação por parte da MLB. Como uma saída para o beisebol voltar aos holofotes, a vista grossa às drogas foi feita, e “mutantes”, como Ken Caminiti e Sammy Sosa, mandavam bolas para o outro lado do mundo com frequência absurda. Jogadores com os braços do tamanho do tronco de uma pessoa normal.

Você disse músculos? Sammy Sosa nos tempos do auge do doping (ESPN)

O que aconteceu com Alex Rodriguez anos depois e com Bonds, que foram caçados pela MLB como exemplos de falsa justiça para quem usa doping, é algo frequente em várias outras facetas da sociedade. É como se o sistema judiciário prendesse “chefões” de alguma quadrilha organizada, peixes grandes, para dar uma resposta para a mídia de que a justiça estava sendo feita, enquanto na verdade apenas o superficial fosse coberto.

E que tal falar da epidemia de cocaína que rolava solto durante a MLB na década de 1980? Naquela época, Tim Raines, que inclusive foi incluído em Cooperstown, já foi pego com capsulas de cocaína no meio do jogo. Algumas delas caíam no chão quando ele fazia algum slide na segunda base. A FBI já chegou a investigar quatro jogadores do Kansas City Royals ligados a cocaína e tráfico, incluindo Vida Blue, que já ganhou Cy Young. Willie Wilson, Willie Aiken e Jerry Martin, todos dos Royals, chegaram a ser presos por isso. Ou que tal citar Doc Ellis, que diz com suas próprias palavras que jogou quase todas as suas 345 partidas na MLB sob efeito de LSD.

A história da MLB se confunde com drogas e substâncias que eram usadas exclusivamente para acelerar a performance. O que aconteceu com Bonds, Mark McGwire, Rodriguez, Ryan Braun e tantos outros acabam sendo apenas uma nota no rodapé de uma liga que até hoje aplaude dopados e ex-drogados como Mays e Ellis.

Portanto, não estou aqui defendendo Bonds e nem o fato de que ele estava certo, no lado ético, ao utilizar substâncias irregulares. Mas sim do fato de que, se Mays e tantos outros jogadores estão no Hall da Fama e com camisas aposentadas na MLB, porque diabos o segundo maior jogador da história segue sendo crucificado? Estamos falando de uma liga hipócrita, que tem um passado extremamente manchado por drogas e escândalos racistas.

E o número aposentado de Bonds ainda é muito pouco. Para a justiça ser feita e em coerência ao passado da MLB, ele precisa ter uma estátua na porta do AT&T Park e placa em Cooperstown.


Comentários? Feedback? Siga-nos no twitter em @casadobeisebol e curta-nos no Facebook

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.