Esportes são feitos de ídolos. Uma criança se apaixona por uma equipe esportiva (seja ela qual modalidade for) por meio dos ídolos que moldam as suas primeiras memórias afetivas com o esporte. Imagine como foi a infância/adolescência de um garoto nascido em Pittsburgh no início da década de 2000? Suponhamos que esse garoto tivesse 13 anos quando o Pittsburgh Pirates, em 2013, encerrou uma sequência de 21 anos sem pós-temporada com Andrew McCutchen sendo o MVP e jogando como se fosse Mike Trout no campo central. Para esse garoto, e milhares outros com trajetória similar, McCutchen é um ídolo que ele jamais vai esquecer. Mas, agora, esse ídolo provavelmente nunca mais vai vestir amarelo e preto de novo. E isso não tem como repor.

McCutchen marcou um time como poucos jogadores fizeram nos últimos 20 anos. Numa sociedade desportiva americana que cada vez mais os melhores jogadores saem de times sem tanta grana na free agency, ele foi diferente. Aceitou um contrato “modesto” de seis temporadas/US$ 51 milhões em 2012 e fez juras de amor a uma torcida e uma franquia que carecia de um grande ídolo desde a saída de Barry Bonds em 1992.

A mensagem de despedida que McCutchen realizou no Twitter consegue resumir tudo:

Pittsburgh. Minha casa. Meus torcedores. Minha cidade. O lugar que me criou e me ajudou a ser o homem que eu sou hoje. Você para sempre estará no meu coração. Tiro o boné para todos que tiveram nessa jornada comigo. Com amor e respeito, Cutch.

Um rebatedor com físico de wide receiver, carisma de um astro e técnica de um outfielder refinado, McCutchen escolheu o beisebol quando os familiares e família queriam que ele optasse pelo futebol americano — por ser um caminho mais fácil para firmar um grande contrato. Com uma adolescência muito difícil e cheia de dificuldades, ele seguiu o coração e o amor pelo beisebol falou mais alto quando ele escolheu entrar para o draft em 2005.

Para McCutchen chegar às Majors, ele teve que superar milhares de obstáculos e sair do nada para fazer sucesso. Os esportes, como ele fala nesse mini documentário abaixo, era a única saída da pacata Fort Meade, Florida.

Amor pelo beisebol é o que McCutchen tem de sobra, e ele foi o maestro da torcida mais barulhenta do beisebol. Como um quarterback do campo externo, McCutchen, no auge (entre 2011 a 2015), foi um dos melhores jogadores da liga — provavelmente o mais impactante da Liga Nacional. Ele quem foi o líder da equipe que entre 2013 a 2015 foi para os playoffs todos os anos vencendo 94, 88 e 98 jogos, respectivamente.

Para o torcedor dos Pirates, McCutchen foi a fonte principal do fim do sofrimento de uma equipe que passou 20 anos perdendo e sendo o saco de pancadas na divisão Central da Liga Nacional. Com ele de líder, os torcedores sabiam que os Pirates poderiam muito bem bater de frente contra qualquer um.

Grandes momentos, como o walk-off home run na 14ª entrada diante do maior rival (St Louis Cardinals) jamais serão esquecidos.

As grandes jogadas no campo externo, interação com os fãs, rebatidas decisivas. McCutchen tem uma coletânea de lembranças e momentos marcantes como poucos jogadores conseguiram colecionar nos últimos anos.

Uma camisa a ser aposentada

A franquia dos Pirates é uma das cinco mais tradicionais do beisebol. A história data desde 1882, quando eles foram criados sob o nome de Pittsburgh Alleghenys (que nome horrível, só para constar). Durou pouco, apenas nove anos, e em 1891 eles trocaram o nome para Pirates. Desde então, já se passaram 127 anos com os mesmos dizeres e a franquia deve continuar com esse nome por muitas décadas.

No total, em 136 anos de história, essa franquia teve jogadores lendários como Honus Wagner, Roberto Clemente, Barry Bonds e Willie Stargel e tantos outros. Nesse rol, McCutchen merece ter o nome inserido. Além de representar tanto para uma era que ficou marcada na história do time, ele tem números que sustentam estar entre os maiores. Ele é o 9° maior em WAR (44,4), 11° em wRC (144), 4° em home runs (203) e 11° em RBIs (725).

Sem dúvida nenhuma os Pirates vão aposentar a camisa 22 de McCutchen. Quando isso acontecer, ele vai se juntar ao lado de apenas sete jogadores que tiveram essa honraria na franquia dos Pirates.

A World Series não veio, e é provável que McCutchen não volte a ser um Pirate algum dia (ele já tem 31 anos e será free agent no fim do ano, e ele deve assinar um contrato grande sem os Pirates na briga). No entanto, a falta do título não mancha em nada o legado dele.

Se McCutchen entrar para o Hall da Fama algum dia — uma possibilidade plausível, caso ele siga em alto nível por mais pelo menos três anos —, ele vai estar em Cooperstown com o boné dos Pirates. Outro feito pouquíssimo realizado na história dessa franquia.

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Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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