Em 2000, o St Louis Cardinals tinha um diamante na sua rotação titular. Três anos após receber o bônus de US$ 2,5 milhões (quinto maior da história) e uma passagem de muito sucesso nas ligas menores, Rick Ankiel estava pronto para ter uma carreira de sucesso. O arremessador, com o rótulo de melhor prospecto da franquia, correspondeu na temporada regular daquele ano com ERA de 3,50 e muita promessa no braço esquerdo. Aí veio a pós-temporada de 2000, e tudo mudou na vida daquele garoto de 21 anos.

Ankiel abriu dois jogos da pós-temporada, diante do Atlanta Braves e do New York Mets. Durou apenas quatro entradas, 11 walks, nove wild pitches e sete corridas cedidas. O auge veio na partida contra os Braves, em que Ankiel simplesmente perdeu o controle da zona de strike. Foi um dos momentos mais constrangedores de todos os tempos.

“A bola de curva estava funcionando naquele dia”, relembra Tony La Russa, lendário treinador que comandava os Cardinals em 2000. “Mas a rápida não encontrava a luva do catcher”, completa.

Ankiel estabeleceu um recorde negativo. Desde 1900, ele e só mais dois jogadores lançaram pelo menos cinco wild pitches em uma entrada — Phil Niekro e sua knuckleball e Walter Johnson, um dos melhores da história.

Após a partida, Ankiel não sabia o que estava acontecendo. “É um problema de mecânica, nunca mais vai acontecer”, disse o arremessador na época. No entanto, com o lançamento do livro “The Phenomenon”, ele recorda os momentos mais sombrios da carreira, incluindo esse.

O verdadeiro motivo do apagão de Ankiel naquela pós-temporada se chama ansiedade. “Naquela época, eu era muito novo para entender o que estava acontecendo. Todo mundo achava que era coisa de mecânica, inclusive eu. Só que, ao contrário de um problema de mecânica ou lesão física em que você volta mais forte e há uma fórmula para recuperar, a lesão mental é muito mais complicada. Ninguém quer falar sobre isso”, admitiu o canhoto em entrevista à CBS Sports.

Após os playoffs de 2000 a vida continuou. Ankiel tinha apenas 21 anos, uma carreira completa pela frente e poderia se recuperar daquele apagão. Só que, quanto mais o canhoto trabalhava, pior o cenário ficava. Na pré-temporada, as crises de ansiedade não passavam. “Eu acordava no meio da noite com um pesadelo enorme. Pensava que não poderia mais lançar um strike na vida inteira. Parecia uma maldição. Eu estava enjaulado em uma prisão mental”, comenta o ex-jogador no trailer de um documentário da HBO.

Ankiel seguiu na rotação titular dos Cardinals para o começo da temporada de 2001. Na estreia daquele ano, o canhoto enfrentou o lendário Randy Johnson e venceu. Só que, para tal, teve que recorrer a vodka antes de subir ao montinho para tentar acalmar a ansiedade.

“Não tenho orgulho daquele momento, mas eu estava muito assustado. Lembro que estava me aquecendo para o jogo, e eu fiz isso na batting cage na parte subterrânea do estádio. Nem tentei ir para a sessão de bullpen normal. Eu pensava: ‘Preciso beber alguma coisa para jogar’. É loucura”, relata Ankiel.

Funcionou da primeira vez, e o arremessador continuou bebendo vodka antes do começo das partidas nos outros jogos. Só que, após seis partidas, o resultado era desastroso. Em 2001, após 24 entradas, Ankiel acumulava ERA de 7,13 e FIP de 8,09 com 25 walks. Os Cardinals não poderiam permanecer com o canhoto na rotação.

Em uma das passagens do livro, Ankiel conta como eram os momentos mais agudos da ansiedade.

Você não consegue sentir a bola de beisebol nas mãos. Essa é a parte mais assustadora. Você sabe o que precisa fazer, você fez isso a vida inteira. Sabe como precisa ser a mecânica, exatamente nos detalhes. É engraçado porque, quando você começa o ato da mecânica, tudo está indo certo até o último momento. Aí tem um blackout e tudo sai errado. É tão bizarro. E pensar sobre isso te consome. Você é um big leaguer, está vivendo um sonho e de repente tudo acaba sem explicação. Ninguém quer falar sobre isso; as pessoas que estão perto de você têm vergonha disso. De repente, você está perdido no mundo e sem lugar para ir. Eu tentava recuperar trabalhando mais forte, lidando com isso através de trabalho duro. Mas só que, quanto mais eu trabalhava, pior ficava.

Em 2000, Ankiel ficou em 2° na votação para melhor novato da NL. Ficou atrás apenas de Rafael Furcal (AP)

O problema continuou nas ligas menores. Na Triple-A, em três jogos ele teve a marca inacreditável de 17 walks. Os Cardinals tiveram que mandá-lo para o nível mais inferior da categoria de base da franquia, a Rookie Level. Por lá, Ankiel conseguiu voltar a arremessar com alguma qualidade, mas já dividia tempo como rebatedor.

Em 2002, com uma lesão no ombro, Ankiel não jogou nenhuma entrada ou at bat. Para piorar, um ano depois teve a temida Tommy John. Como se a ansiedade não fosse o bastante, duas lesões graves afastaram o canhoto por praticamente dois anos inteiros.

A volta por cima com o bastão

Recuperado de todas as contusões, Ankiel voltou a arremessar no fim da temporada da MLB em 2004, mais de três anos após o apagão. Como reliever, o problema dos walks tinham acabado, mas não tinha mais a potência de antes.

Naquela época, Ankiel estava com apenas 25 anos e muito chão pela frente. Só que o canhoto resolveu optar pela carreira no bastão, como outfielder. Após muitos jogos nas ligas menores, ele fez a reestreia na MLB em 2007, como jogador de ataque. E, logo no primeiro jogo, mandou a bola para o outro lado do muro. Nessa mesma partida diante do San Diego Padres, ele foi aplaudido de pé pelo Busch Stadium quando teve a primeira ida ao bastão.

Ankiel se sentia mais confortável com o bastão. “Não tinha que lidar mais com a mesma ansiedade no montinho.” relata o ex-jogador. Entre 2007 a 2009, ele foi um jogador importante no campo externo dos Cardinals. Nessas três temporadas, foram 289 jogos com 47 home runs e 148 corridas impulsionadas. Não chegou a atuar em nível All-Star, mas era bom o suficiente para ser titular na MLB.

Em duas temporadas com os Nationals (2011 e 2012), Ankiel rebateu 14 home runs e protagonizou grandes defesas no campo externo (Getty Images)

Após a passagem pelos Cardinals ter acabado, Ankiel teve uma carreira pouco relevante nas Majors. Longas passagens por ligas menores e uma estadia sem muito sucesso no Washington Nationals marcou os últimos dias do canhoto na MLB. Em 2014, aos 35 anos, anunciou a aposentadoria definitiva.

Referência no esporte

Ankiel continua trabalhando na MLB, mas como coordenador dos Nationals — função que ocupa desde 2015. Ele tem a tarefa de acompanhar de perto os jogadores do time pelas ligas menores, servindo como mentor e auxiliar.

A história desse ex-jogador transcende o beisebol. Em entrevista a MLB.com, Ankiel conta que, pelo livro “The Phenomenon”, já recebeu várias mensagens de pessoas que passaram por situações parecidas em trabalhos do cotidiano. “É tão gratificante perceber que a minha história tem ajudado muitas pessoas. É bom que as pessoas estão falando sobre ansiedade.”

O canhoto também lembra que, em esportes de alto nível, isso não acontece só no beisebol. Outro caso famoso é do tenista Mardy Fish, que em entrevista ao Players Tribune contou sua trajetória de como a ansiedade o atrapalhou na vida pessoal e profissional.

Quase 17 anos já se passaram desde aquela fatídica pós-temporada de 2000. Mas Ankiel deu a volta por cima, e bateu uma doença que quase acabou com sua carreira. Muito mais do que uma história de fracasso como arremessador, ele é um exemplo de força de vontade e determinação.


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