Após o título do San Francisco Giants em 2014, o terceiro em cinco temporadas, Ken Rosenthal, repórter da CBS Sports, perguntou para Madison Bumgarner: “Podemos falar em dinastia para os Giants?” Bumgarner, então recém-coroado MVP daquela World Series após uma atuação mitológica no jogo sete, diante do Kansas City Royals, fugiu da pergunta e tomou cuidado para não empolgar naquele momento de euforia. Com uma personalidade intrometida e que pensa antes de responder qualquer pergunta, o ace disse: “Vamos aproveitar essa conquista, o que vier no futuro vai ser consequência do nosso trabalho”.

Uma afirmação genérica de Bumgarner, entrevista pós-jogo esquecida na história após aquela atuação memorável. Mas a pergunta de Rosenthal fazia muito sentido naquela noite fria em Kansas, no Kauffman Stadium, no dia 29 de outubro daquele ano. Não só Rosenthal questionou sobre a possível dinastia estava se formando. Isso foi tópico de vários textos de especialistas nos Estados Unidos, que se deleitaram após a terceira World Series conquistada pelos californianos entre 2010 a 2014.

Todos os ingredientes estavam na mesa para um time extremamente competitivo nos anos seguintes após a conquista de 2015. O núcleo, formado por Bumgarner, Buster Posey e Brandon Crawford, ainda estava jovem. A diretoria e comissão técnica, que esteve presente durante os três títulos da franquia, também continuaram.

Em 26 de junho de 2016, há exato um ano, os Giants prometiam. Ano par, a tradição de poder conquistar mais um anel nessa superstição boba, mas que os torcedores adoram. Naquele momento da temporada, a equipe estava liderando a divisão Oeste da Liga Nacional com 48 jogos e 28 derrotas — incluindo uma campanha recente de oito vitórias nos últimos 10 jogos. A vantagem pra cima do segundo, Los Angeles Dodgers, era de sete partidas.

Só que o bullpen dos Giants desmoronou na segunda metade da temporada, e o resto é história. Eles ainda conseguiram chegar à pós-temporada, só que o encanto terminou contra o Chicago Cubs. Na intertemporada, o núcleo permaneceu, e Mark Melancon — um dos free agents mais cobiçados do mercado — foi parar em San Francisco.

As expectativas eram altas

Antes da temporada começar, não havia motivos para ser muito cético quanto aos Giants de 2017. O maior e único grande problema era o bullpen, mas na MLB não há coisa mais volátil do que reliever. Com a chegada de Melancon e a adição de algumas peças, parecia que o cenário iria se estabilizar.

Não é por acaso que os Giants apareceram com moral em muitas projeções antes do início da temporada começar. Abaixo, os sites especialistas e suas projeções para 2017:

  • Pecota: 88 vitórias – 74 derrotas
  • Sports Insights: 89 vitórias – 73 derrotas
  • MLB.com: Giants no Wild Card
  • CBS Sports: 87 vitórias e 75 derrotas

Exatos um ano após o record dos Giants de 48-28 e das projeções desse ano muito altas, estamos no dia 26 de junho com os californianos na melancólica campanha de 27 vitórias e 51 derrotas — à frente apenas do Philadelphia Phillies na tabela de classificação geral.

Não é como se a campanha atual fosse um indicativo de um ano fora da curva para os Giants. O time está realmente jogando muito mal, e isso fica implícito no segundo pior saldo de corridas da liga (-107, e apenas o San Diego Padres tem saldo pior).

É triste para um time com tantas grandes expectativas. Seja depois da World Series de 2015, no ano passado ou no começo desta temporada, os torcedores sempre colocaram muitas fichas nos Giants para estar nas cabeças. E o que tem acontecido até agora é um colapso total disso.

Parece que tudo foi por água abaixo quando Madison Bumgarner teve uma das lesões mais bizarras dos últimos tempos. Em abril, o ace dos Giants quebrou as costelas em um acidente de moto, e só deve voltar após o All-Star Game. Sem o símbolo da conquista de 2015 no montinho, o time perdeu o rumo. O resto da rotação não se encontrou, e a equipe é nada mais do que um desastre.

Bumgarner nunca ficou tanto tempo afastado (SI)

Um time historicamente ruim

2017 tem revelado o que de pior há nos Gians. O bullpen tem sido trágico. Nem mesmo Melancon, que é um jogador que veio como uma segurança na nona entrada, vem correspondendo. E a falta de segurança entre os arremessadores reservas tem proporcionados jogos frustrantes que pioram ainda mais o psicológico dos jogadores e torcedores — algumas inacreditáveis.

Não é só o bullpen que está aquém do esperado. O ataque figura entre os piores da liga, e apenas Buster Posey vem correspondendo as expectativas inicias. Mais uma vez falta um jogador de responsabilidade, além do catcher, no alinhamento. Alguns brilharecos esporádicos de Brandon Belt, Hunter Pence e o recém-chegado Austin Slater, mas nada que realmente empolgue ou tire o ataque da miséria.

Brandon Crawford é mais um dos que não estão correspondendo (AP)

Estatisticamente, a falta de qualidade ofensiva fica em clara evidência:

  • 29º em WRC+ (80)
  • 28º em aproveitamento em base (30,2%)
  • 30º em home runs (64)

Poucas franquias são mais tradicionais do que os Giants. Eles se mudaram de New York para San Francisco em 1958, e eles existem desde 1883, quando ainda jogavam sob o nome de “New York Gothams”. Lendas como Barry Bonds, Willie Mays, Mel Ott e Christy Matthewson já vestiram a camisa dos Giants numa histórica muito rica.

Portanto, o que os Giants estão fazendo neste ano figura em um lado da história que não condiz em meio a tanta tradição. As 27 vitórias em 78 jogos dão ao time o aproveitamento de vitórias em apenas 34,6%. Isso coloca essa equipe de 2017 como a pior da história da franquia.

Em mais de 130 anos de história, caso o time continue nesse ritmo, vai ser apenas a segunda vez que eles baterão a marca de 100 derrotas em um único ano — a última vez que isso aconteceu foi em 1985.

A defesa é o único setor coletivo que está se saindo bem (Getty Images)

Saída? Não há

A categoria de base dos Giants nunca foi esplendorosa nos últimos anos, e em 2016 isso piorou quando a diretoria resolveu trazer veteranos em troca de alguns prospectos de qualidade. Isso esvaziou o farm system, que atualmente está longe de figurar entre os 10 melhores da liga.

Christian Arroyo, um dos poucos diamantes a serem lapidados da equipe, teve um primeiro gostinho amargo da MLB. Quando subiu neste ano, o infielder ficou aquém do esperado e foi mandado de volta à Triple-A. Arroyo é o único rebatedor da equipe que figura entre os 100 melhores prospectos da MLB.

E o ataque não tem sido terrível com a premissa de que há jogadores vitais entre os machucados — longe disso. Posey, Belt, Eduardo Nuñez, Joe Panik e Brandon Crawford, que são conhecidos como os melhores rebatedores da equipe, jogaram pelo menos 85% dos jogos da equipe no ano.

Posey tem sido uma estrela solitária (AP)

No montinho, a rotação, que é a quinta pior de toda liga em ERA (4,88) também não pode esperar grandes melhorias na segunda metade do ano. Ok, Bumgarner vai retornar, mas carece arremessadores na categoria de base que possam contribuir logo de cara. Tyler Beede, melhor prospecto do time e #76 de toda MLB, está com ERA terrível de 5,40 na Triple-A neste ano. Não dá para confiar que Beede, caso suba, se torne o cara que vai mudar o destino da equipe.

Além disso, entre os oito melhores prospectos de uma categoria de base brochante, apenas Beede e Joan Gregorio são arremessadores.

A temporada nem está na metade e ela já acabou

A divisão oeste da Liga Nacional está muito forte. Os três times de melhor campanha da NL, que são Los Angeles Dodgers, Arizona Diamondbacks e Colorado Rockies, respectivamente, atuam nessa divisão. É, também, a única de toda liga com pelo menos três equipes com 45 vitórias.

Mark Melancon chegou a peso de ouro e vem decepcionando (Getty Images)

Em condições normais, seria muito difícil batalhar contra DBacks, Rockies e Dodgers. Após 78 partidas disputadas, a corrida pelo Wild Card é virtualmente impossível para os Giants. O time está a 20 partidas atrás da repescagem, e uma reviravolta, a esse ponto da equipe, seria o maior da história da MLB.

Para rechaçar ainda mais qualquer possibilidade de sonho, as expectativas de playoffs da equipe é de 0,1%. Ainda falta mais da metade da temporada, e os Giants estão com a missão de cumprir tabela até 2018.

E futuro?

A diretoria pode aproveitar a trade deadline para mudar os rumos da franquia. A divisão oeste não vai enfraquecer tão cedo, pois Rockies e DBacks são times em ascensão que só tendem a melhorar e os Dodgers prometem continuar no topo por muito tempo. Talvez seja a hora de trocar alguns veteranos, como Pence e Belt, em busca de uma revitalização da categoria de base com foco no futuro.

Giants tem sido dominado pelos rivais de divisão neste ano (Getty Images)

Mas a opção do rebuild não seria a mais inteligente. Por mais que 2017 venha sendo um ano deplorável, o núcleo ainda é relativamente jovem. E esse mesmo time que não vai a lugar nenhum é quase o mesmo que quase venceu 90 jogos na última temporada. Ou seja, no pior cenário em que tudo dê errado até o fim do ano, os Giants ainda estão em condições de competir no futuro a médio prazo.

Posey, 30, tem contrato garantido até pelo menos 2021 e há cláusula de não-troca no contrato dele. Bumgarner, 27, tem pelo menos mais duas temporadas de controle da equipe e só vira agente livre no fim de 2019. São dois jogadores que servem como pilares para o time ser remontado ao redor deles.

***

Nem o torcedor mais pessimista dos Giants, ou nem a mais ousada das projeções, esperava um Giants tão ruim após quase metade da temporada jogada em 2017. Um golpe no torcedor que esperava grandes feitos para o time no ano. Agora, com o ano já perdido, os jogadores precisam honrar uma das camisas mais tradicionais do beisebol até o fim da campanha e a diretoria precisa achar uma maneira de reformular — sem fazer loucuras — para o time voltar a ser competitivo em 2018 e adiante.

About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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