Ser um starter na pós-temporada é uma faca de dois gumes. A amostra é muito pequena e a importância é tão grande que não dá para ser comparada com qualquer outra situação no beisebol mundial. Jogue bem e você será colocado no paraíso. Jogue mal e o inferno estará te esperando. Não importa o quão bem você foi na temporada regular.

Isso é algo cultural da pós-temporada e que nunca vai mudar. Mas tem um dilema que ainda é muito discutido: até quando uma amostra pode continuar sendo pequena na pós-temporada? Se na campanha regular, portanto, um abridor joga 200 entradas, é justo julgá-lo por cinco ou seis entradas nos playoffs?

Chris Sale presenciou o gosto amargo de jogar mal em outubro ontem à noite e, consequentemente, as críticas vieram em peso de furacão em cima do ace do Boston Red Sox. Dan Shaugnessy, do Boston Globe, escreveu isso hoje cedo e foi um dos muitos que tiveram visão parecida sobre o canhoto:

Sale was no different than Porcello in 2016. or Price in any playoff start of the last 10 years.

In fact, Sale was worse. His Thursday afternoon outing in Game 1 of the ALDS almost made you long for the golden days of Price and Porcello getting punked by the Tribe in 2016.

Realmente, a atuação de Sale ontem à noite não foi nada além de decepcionante para um jogador desse calibre. Os Astros tiveram um gameplan perfeito contra o canhoto, agredindo as bolas rápidas e deixando as sliders na terra em branco. Ao todo, Sale ficou no jogo por cinco entradas e cedeu um número absurdo (para alguém como ele) de nove rebatidas para sete corridas merecidas (!). Foi uma atuação típica de David Price em outubro.

Ele tem todo peso de liderar a rotação de um dos times mais tradicionais da liga, e os Red Sox trouxeram Sale na expectativa dele vingar em justamente jogos como esse. Mas foi só uma partida, e ao mesmo tempo nada apaga o fato dele ter sido — junto com Corey Kluber — o melhor arremessador da Liga Americana neste ano. Vencer em outubro é o que todos querem, mas isso só há a possibilidade disso acontecer se você chegar lá.

Sale tem todo talento do mundo para dar a volta por cima no jogo quatro e dominar o ataque dos Astros. E mesmo se ele jogar mal mais uma vez, ainda não será o suficiente para taxá-lo de “amarelão” em pós-temporada ou qualquer coisa do tipo. É apenas a primeira vez que ele joga em outubro na carreira, e duas partidas não são amostragens suficientes para quase nada — mesmo para um abridor em outubro.

Além disso, talvez a atuação de hoje nem tenha sido algo ligado ao emocional — como nós, brasileiros, gostamos de falar que o cara “tremeu”. Sale tem um problema na mecânica do arremesso, algo que o ex-arremessador Ryan Dempster brilhantemente notou na análise ao MLB.com. E problemas dessa natureza são facilmente corrigidos, na maioria das vezes.

Nada no âmbito negativo, do que acontecer nesta pós-temporada, vai mudar minha opinião sobre a qualidade de Sale como arremessador. O que houve ontem à noite foi só uma pequena fração da quantidade de arremessos e jogos que ele fez pelos Meias Vermelhas e provavelmente ainda haverá mais dele em outubro.

Fato que os ânimos podem estar um pouco exaltados demais após uma partida decepcionante. Mas antes de condenar Sale como “amarelão” em outubro, algo que só Price tem esse título no elenco dos Red Sox, é bom lembrar que foi apenas uma partida de um jogador extraordinário.


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