Montar um ótimo time de beisebol é um quebra-cabeça quase infinito. Você precisa pensar em tantas possibilidades que a mente humana simplesmente não consegue acompanhar o ritmo de probabilidades e os prós e contras que cada jogador traz para o elenco. Para isso, existem as máquinas, que com seus softwares cada vez mais modernos habitam os escritórios dos times da MLB.

E não basta apenas formar um time ótimo para aquela temporada. Como se não bastasse a missão complicadíssima de tentar encaixar a melhor equipe possível em uma liga extremamente competitiva, os dirigentes precisam ficar de olho nas questões contratuais e nos limites financeiros que cada franquia tem. Com isso, é louvável — e muito raro — quando algumas equipes na história conseguem maximizar todo seu potencial para tudo se encaixar naquele ano em questão. A estrela precisa jogar no seu melhor nível; coadjuvantes precisam aparecer na hora; lesões graves não podem acontecer; um pouco de sorte no processo; fatores externos que favoreçam o time e tantos outros pontos que fecham o puzzle.

É por isso que, na era World Series, ou seja, a partir de 1903, apenas 10 times conseguiram terminar a temporada com aproveitamento de vitórias acima dos 70% na campanha regular. Dentre esses, apenas o Seattle Mariners (2001) aconteceu no atual milênio. Antes daquele time, protagonizado por Ichiro no auge, o New York Yankees (1998) também atingiu tal marca — mas a outra vez tinha acontecido em 1954 (Cleveland Indians).

Sabem qual outra equipe está a caminho de terminar a temporada com pelo menos 70% de aproveitamento de vitórias? O Los Angeles Dodgers, de 2017. Atualmente, são 75 vitórias e 31 derrotas, que colocam a equipe com 70,8% de winning percentage. Se a temporada terminasse hoje, seria de longe a melhor campanha da história de uma franquia que começou em 1884 e que já teve lendas como Jackie Robinson, Fernando Valenzuela, Pee Wee Reese, Don Drysdale e Sandy Koufax.

Entre a porcentagem de vitórias, esse time atual dos Dodgers, na era moderna, fica atrás apenas de seis times — curiosamente apenas dois venceram a World Series.

São marcas e números que assustam. E tudo isso, claro, não vem pelo acaso. Por trás de tantas vitórias e uma temporada regular impecável até agora, esse elenco, liderado por Dave Roberts, é um dos mais completos da história do beisebol e conta com uma versatilidade poucas vezes vista nesse esporte.

Uma rotação quase infinita

Os Dodgers estão com a melhor rotação da MLB em praticamente todos os quesitos — incluindo ERA (3,21) e FIP (3,49). Mas, por incrível que pareça, essa não é a principal virtude dessa rotação espetacular.

Roberts tem, em mãos, um leque muito grande de opções para formar o quinteto titular. Por mais que Clayton Kershaw esteja machucado agora — e ainda sem previsão exata de volta — os Dodgers tem Kenta Maeda, Yu Darvish, Alex Wood, Brandon McCarthy (machucado), Rich Hill, Hyun-Jin Ryu e, recentemente, a chegada de Tony Cingrani que também pode quebrar galho (assim como Ross Stripling, membro do bullpen).

Maeda é mais um dos “coringas” de Roberts (AP)

São, atualmente, sete jogadores que Roberts pode compor a rotação, e todos de boa qualidade — apenas Cingrani e Stripling são abaixo da média. Uma versatilidade que nenhum outro treinador tem na liga, e isso faz com que Roberts, que é excelente manuseando o bullpen, consiga ajustar as melhores peças no lugar certo.

Para a pós-temporada, que os Dodgers estão com 100% de probabilidade de se classificar, a rotação geralmente é diminuída entre três a quatro jogadores. Com Kershaw saudável, um grupo de abridores com ele, Darvish, Wood e Hill seria espetacular — além de vários long relievers que Roberts teria a disposição vindo do banco.

Além disso, é uma rotação muito balanceada. Contando com todo mundo saudável, são cinco canhotos e quatro destros. Até nisso o equilíbrio se faz presente nesse time dos Dodgers.

Fator Kershaw

Ok, Kershaw está machucado, e isso provavelmente vai tirá-lo da corrida pelo quarto Cy Young da carreira. A previsão é que, com essa lesão nas costas, ele só volte a jogar no fim de agosto — e, provavelmente, Roberts não vai desgasta-lo mesmo saudável até o fim da temporada regular.

Outro ano… outra grande temporada de Kershaw (Getty Images)

Mas, caso não aconteça nenhum imprevisto, Kershaw estará ativo na pós-temporada e o que ele já fez em 2017 merece um destaque especial. Mesmo longe do seu extraordinário auge, o melhor arremessador do mundo — que ultimamente tem dividido esse prêmio com Max Scherzer — tem ERA de 2,04 em 2017, que apesar de ser espetacular é apenas o quarto melhor de uma carreira genial.

Cada vez que Kershaw sobe ao montinho ele adiciona ainda mais num legado que já o equipara a grandes jogadores da história do beisebol. Além do Washington Nationals, nenhum outro time conta com um jogador desse calibre para liderar a rotação titular.

Muito de tudo

São três rebatedores elite no ataque dos Dodgers, sendo eles Corey Seager, Cody Bellinger e Justin Turner. Apesar do sistema ofensivo do Houston Astros ser melhor que o dos californianos, e o fato de que o ataque do Washington Nationals se equipara com o dos Dodgers em alguns aspectos, o ataque dos angelinos é muito acima da média e dotado de equilíbrio.

Entre as equipes da Liga Nacional, os Dodgers reinam nas principais estatísticas desta temporada:

Dodgers em 2017 na Liga Nacional (ranking na liga)

Time

wRC+ OPS HR

OBP

Dodgers 111 (1°) 79,7 (2°) 151 (4°)

34,3% (1°)

E, o que era a principal fraqueza do time entrando a temporada (segunda base), logo tornou-se uma força com a ascensão de Chris Taylor. A ótima temporada do jogador de 26 anos, que vem deixando Logan Forsythe no banco (veio para ser titular), foi a principal razão pela qual os Dodgers puderam se livrar do prospecto Willie Calhoun para contratar Darvish na trade deadline. Se Taylor não tivesse esse breakout year, provavelmente eles não poderiam se dar ao luxo de deixar um prospecto da qualidade de Calhoun sair na segunda nase.

Taylor também se encaixa naquela categoria dos coadjuvantes que precisam brilhar para uma equipe atingir níveis históricos. Por mais que ele sempre tenha sido um jogador de qualidade, poucos previam que ele seria um dos líderes da equipe no ataque em meio a tantos bons rebatedores.

Para um time que se destaca mais na força, com a quarta melhor marca da Liga Nacional neste ano, os Dodgers conseguem correr bem e não fazem feio no quesito bases roubadas. É verdade que a equipe não tem nenhum Billy Hamilton, mas o atleticismo desse ataque permite com que alguns jogadores (como o próprio Taylor) sejam saídas interessantes nas bases.

Se trata de um ataque que pode melhorar ainda mais, pois Alex Verdugo, outfielder de 21 anos, tem sido um dos melhores rebatedores nas ligas menores nesta temporada e provavelmente estará com o time principal ainda em 2017. Por mais que Verdugo ainda precise se desenvolver, a presença dele no campo externo, como uma opção a mais, tornaria o ataque mais poderoso.

Além disso, o maior diferencial entre os rebatedores dos Dodgers e dos Astros (principal concorrente da equipe ao título de melhor equipe do ano) é a defesa. Apesar desse setor não ser o melhor da liga, os californianos defendem muito bem — com destaque para o catcher Yasmani Grandal e Seager.

Seager vem consolidando como um dos melhores jogadores do mundo (AP)

Em linhas gerais, se trata de um ataque que rebate para força, tem estrelas (Seager, Turner e Bellinger), defende com qualidade, tem coadjuvante brilhante e um prospecto de muito potencial que pode arrebentar no time principal ainda em 2017. Poderia ser melhor? Talvez se tivesse Bryce Harper ou Mike Trout para incrementar.

Melhor bullpen da liga

Além da rotação ser a mais versátil e competente da MLB, o bullpen não fica atrás. Isso ficou ainda melhor depois da trade deadline, apesar do fato que os Dodgers não conseguiram a contratação de Zach Britton — porém, fisgaram Tony Watson, um releiver canhoto acima da média.

Kenley Jansen mais uma vez tem sido um dos melhores fechadores do mundo — ERA baixíssimo de 1,33 e uma verdadeira segurança na última entrada. Na oitava entrada, Roberts pode utilizar Pedro Baez e Watson como setup — também jogadores de confiança. Como especialista canhoto, Luis Avilan faz o seu trabalho. Entre os outros relievers, Josh Fields e Stripling são competentes.

Jansen com um 2017 fenomenal (AP)

Isso tudo sem contar a possibilidade de que Roberts pode utilizar Maeda, Cingrani ou qualquer outro jogador que também atua como abridor no bullpen. São boas opções que fazem com que Roberts, mais uma vez, esteja numa posição ímpar atualmente.

Tudo se reflete, claro, nos números. O bullpen dos Dodgers está com ERA de 2,87 na temporada, que também é uma marca expressiva.

Melhores bullpens em ERA nos últimos sete anos

2010

Padres 2,81

2011

Braves 3,03

2012

Reds 2,65

2013

Braves

2,46

2014 Mariners

2,59

2015 Pirates

2,67

2016 Dodgers

3,35

2017 Dodgers

2,87

Já são duas temporadas seguidas que o bullpen dos Dodgers é o melhor, e não curiosamente esse era o principal problema quando Don Mattingly era o treinador do time — Roberts é um treinador muito mais competente para mexer nas peças reservas.

E pensar que esse setor poderia ser ainda melhor caso Adam Liberatore estivesse saudável. O canhoto foi um dos maiores destaques da última temporada (FIP de 2,89), mas que só jogou 3,1 entradas neste ano por causa de contusão.

Treinador? Também o melhor

Roberts ainda é novo, não chegou a completar duas temporadas sob o comando dos Dodgers, mas nesse curto espaço período de tempo já é possível coroa-lo como melhor treinador em atividade.

Ex-outfielder, que esteve presente no lendário título do Boston Red Sox de 2004, Roberts tem como principal virtude saber manusear seus relievers muito bem. Na última temporada, nenhum treinador realizou tantas mudanças e a maioria delas fez muito sentido — claro, ele é suscetível a erros e também cometeu alguns.

Mesmo na melhor liga do mundo, a regra geral são os treinadores que reagem ao invés de agir. E, para ser um treinador diferenciado, ele precisa agir ao invés de reagir — isso é o que torna Roberts tão bom no bullpen. Na toada oposta, a omissão em muitos momentos críticos do jogo é o que faz Mike Matheny (St Louis Cardinals) um dos piores da MLB, por exemplo.

Roberts consegue juntar lógica e emoção no dugout (SI)

É bom lembrar, também, o que Roberts fez na última temporada, quando Kershaw passou a maior parte da campanha machucado e mesmo assim o time conseguiu vencer 91 jogos. A maneira como ele conseguiu manusear a rotação titular sem seu principal jogador foi espetacular, e os californianos ainda conseguiram chegar na pós-temporada sem desgaste elevado.

Além disso, na pós-temporada, Roberts brilhou ao trocar o seu estilo de comandar. Passou a fazer menos alterações no bullpen, e tornou Jansen um super reliever capaz de completar três entradas se necessário. Ainda, claro, a obra de arte que Kershaw conseguiu no jogo cinco da série de divisão diante do Washington Nationals, quando veio do bullpen para fechar a porta na cara de um dos melhores ataques da liga — num jogo de eliminação, fora de casa e com descanso reduzido.

Tudo isso torna Roberts um treinador corajoso, sem medo de fazer alterações e muito ativo no banco de reservas. Aliás, não só o treinador principal, mas como boa parte do staff dos Dodgers que se destaca como também um dos melhores da MLB.

***

De acordo com as projeções do Fangraphs, os Dodgers estão a caminho de terminar a temporada com a marca de 109 vitórias e seria a sétima maior da história, apenas sete atrás do recorde.

Claro que uma excelente temporada regular não garante nada além de mando do campo no último jogo da série na pós-temporada. Mas, mesmo se os Dodgers não conseguirem levantar o troféu neste ano (que não vem desde a década de 1980), esse time já entrou para a história como um dos mais fantásticos e equilibrados que o beisebol já viu.


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About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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