Mais da metade da temporada já se foi e não há dúvida quando pensamos em quais são os dois melhores times do ano. Em cada liga, respectivamente, Houston Astros e Los Angeles Dodgers dominam a Americana e Nacional. A diferença entre as campanhas desses times é pequena — os texanos estão com 60 vitórias e 29 derrotas, enquanto os californianos fixam em 61-29.

A diferença na tabela é muito pequena, e isso não é o suficiente para definir qual time tem sido o mais competente em 2017 — e nem mesmo qual equipe é a mais favorita ao título. Portanto, para sanar essa dúvida no All-Star Break, vamos fazer um breakdown completo entre os times para descobrir qual é a melhor equipe do mundo até agora.

Ataque

São dois times adeptos ao que podemos chamar de beisebol moderno. Astros e Dodgers jogam sob uma filosofia ofensiva de muitos walks e potência, o que é uma tradução dos front offices modernos das duas equipes — principalmente os texanos, que sob comando de Jeff Luhnow como gerente geral explora cada métrica disponível a favor do ataque.

O ataque dos Dodgers conta com grandes destaques individuais, como Cody Bellinger, Justin Turner e Corey Seager. Mas o sistema ofensivo dos Astros, além de ter grandes nomes individuais (Carlos Correa, Jose Altuve, George Springer), tem um lineup que é praticamente mortal do começo ao fim.

Carlos Correa é um dos candidatos a MVP que correm por fora (Getty Images)

Em comparação ofensiva, não tem como bater os Astros. O ataque é simplesmente avassalador, e tem colocado grandes atuações praticamente todas as noites. Eles lideram em aproveitamento no bastão (28,9%), aproveitamento em base (35,5%), wRC+ (128) e home runs (148). Mais do que isso, os texanos estão a caminho de ter um dos melhores ataques da história.

É impressionante a consistência ofensiva da equipe entre todas as posições, como poucas vezes foi vista na história da MLB. Esse é o lineup dos Astros (em maior números de jogos pelos jogadores em cada posição) no ano.

Jogador (posição)

wRC+

Brian McCann (C)

105

Yuli Gurriel (1B)

115

Jose Altuve (2B)

161

Carlos Correa (SS)

161
Alex Bregman (3B)

104

Nori Aoki (LF)

75

George Springer (CF)

164

Josh Reddick (RF)

134

Carlos Beltrán (DH)

82

Essa tabela acima é sensacional. Partindo do pressuposto de que o wRC+ padrão da liga é 100, ou seja, a média da MLB, o lineup dos Astros significa que apenas dois jogadores do time titular (Aoki e Beltrán) estão produzindo abaixo do average. É um ataque que tem sete jogadores acima da média, algo que não se replica em nenhuma outra equipe da liga.

Não tem como competir com o ataque dos Astros. Essa conversa, por mais que o dos Dodgers seja bom, acaba sendo injusta. Vitória para os texanos nesse quesito (1 a 0).

Rotação titular

Não é muito justo comparar as duas rotações até agora por causa de um motivo: lesões. Apenas Lance McCullers Jr. e Mike Fiers são abridores que ficaram inteiros durante a maior parte da campanha pelo lado dos texanos até agora. Os outros jogadores do quinteto, como Dallas Keuchel, Charlie Morton e Brad Peacock, sofreram com contusões. Isso tem aberto espaço para outros jogadores, como Joe Musgrove, Francis Martes e David Paulino.

Até agora, após o fim da primeira metade da temporada, Houston já utilizou o total de nove abridores — uma das maiores marcas da liga.

Mas mesmo com tantas contusões a rotação tem feito bonito, e lidera a Liga Americana em ERA (3,82). Muito disso tem a ver com a evolução de McCullers, que vem maximizando seu potencial de maneira espetacular neste ano. Ao lado de Alex Wood, que curiosamente joga nos Dodgers, McCullers tem sido o arremessador mais difícil de fazer contato forte neste ano e isso na Liga Americana é sempre um excelente quesito.

McCullers é um dos possíveis nomes ao Cy Young (AP)

Estatística de vitória-derrota é a pior do beisebol e já sabemos disso, mas no caso gritante como o de Keuchel é bom citar. Em 11 jogos que o canhoto subiu ao montinho para os Astros, a equipe venceu nove vezes. Com o ERA de 1,67, isso mostra como Houston é um time muito difícil de ser batido quando o ace está no montinho e tal vantagem é algo ímpar a se ter na pós-temporada.

O problema para os texanos, no entanto, é a falta de consistência na rotação. Mesmo com todo mundo ali saudável, ainda falta confiança no fim da rotação. Apenas Peacock, Keuchel e McCullers estão jogando muito bem no quinteto dos Astros neste ano.

Jogadores como Fiers e Morton são veteranos nada confiáveis e estão ali para comer entradas com a chance de vencer contando com um ataque avassalador. Já abridores como Musgrove, Martes, Paulino e Dayan Diaz ainda são muito crus e não estão totalmente prontos em 2017.

Essa mesma consistência que falta aos texanos sobra aos californianos. Os Dodgers tem a rotação mais profunda da liga, e isso é um dos motivos que explicam o melhor ERA da liga entre os abridores (3,24). Mais do que isso, Clayton Kershaw e Alex Wood estão praticamente perfeitos em 2017.

Esse é o ano do Kershaw nos playoffs? (Getty Images)

Os Dodgers tem tanta profundidade que podem contar com a variação de alguns abridores. Julio Urias, Hyun-Jin Ryu e Kenta Maeda não estão nos seus melhores níveis neste ano, mas isso não impede Los Angeles de ter a melhor rotação titular da liga. Dave Roberts, treinador da equipe, é um manager muito inteligente que tem manuseado muito bem essa rotação colocando os arremessadores que não estão correspondendo na rotação para o bullpen.

Roberts pode se dar ao luxo de lesões e inconsistências, algo que AJ Hinch, treinador dos Astros, não pode. Além da profundidade, quando analisamos o topo da rotação os californianos também levam a vantagem — afinal, Wood-Kershaw tem sido melhor do que McCullers-Keuchel. Vitória para os Dodgers (1 a 1).

Bullpen

Se você quer medir se o treinador é bom ou não, a primeira coisa que você deve analisar é como ele manuseia o bullpen. Esse é o setor mais volátil do beisebol, em que há poucas certezas e o treinador, numa temporada exaustiva da MLB, precisa ser muito criativo para manter a produtividade em alta durante seis meses de intensa temporada.

E, nesse quesito, ninguém faz um trabalho melhor do que Roberts. Mas isso não é de hoje — vale lembrar o que ele fez com excelência na última pós-temporada, transformando Kenley Jansen em um super reliever e utilizando Kershaw num jogo cinco vindo do banco.

Dave Roberts tem utilizado Jansen com excelência (AP)

Roberts não tem medo de utilizar o bullpen de maneira agressiva. O ditado no beisebol “o bom treinador é o cara que age e não reage a situação” se encaixa muito bem aqui. Roberts é inteligente, ousado e isso, com tantas peças que ele tem a disposição, tem dado certo.

Até agora, 15 jogadores diferentes já foram utilizados no bullpen dos Dodgers. Dentre esses jogadores, cinco são abridores de ofício. Há poucas certezas entre os relievers dos californianos, e é exatamente assim que precisa ser durante uma grande temporada — de fato, apenas Jansen na nona entrada e Pedro Baez na oitava são jogadores com funções pré-definidos.

Tudo é flexível no bullpen dos Dodgers. Junte isso com bons jogadores, e você tem o segundo melhor bullpen em ERA na temporada (2,99), atrás apenas dos mutantes do Cleveland Indians.

Esse bullpen tem tudo que você pede de um corpo de relievers. Fechador confiável, setup seguro, especialista canhoto, long reliever… o que precisar, Roberts tem a disposição — e pensar que o bullpen dos Dodgers era o grande problema do time na era Don Mattingly…

O mesmo privilégio que Roberts tem a disposição, digamos assim, não pode ser aplicado a Hinch com os Astros. O bullpen dos texanos é mais rígido, e muito disso tem a ver com a escassez e algumas vezes urgência para compor a rotação titular neste ano.

Se há alguma área que Houston precisa se reforçar chegando na trade deadline, essa é o bullpen. Há algumas certezas, como Will Harris, Ken Giles e Chris Devenski, mas um time aspirante ao título como esse precisa de um pouco mais de qualidade e profundidade entre os relievers.

Devenski se tornou uma arma no bullpen dos Astros (Getty Images)

Comparando os dois, não há conversa. O bullpen dos Astros tem o ordinário ERA de 4,09 nesta temporada e não lidera a Liga Americana em nenhuma característica importante. Vitória dos Dodgers (2 a 1).

Defesa

Como um bom filho do Oakland Athletics era Billy Beane, Luhnow monta seus times sem tanta importância para defesa. Ele acredita que home runs e walks ganham partidas, algo totalmente contra a filosofia Kansas City Royals, por exemplo.

Isso tem se traduzido nos números defensivos, pois Hinch coloca seu time de acordo com a capacidade que o jogador tem de rebater, não com o que ele pode fazer com a luva. Em DEF, os Astros estão com a terceira pior marca da liga (-25), também com a terceira pior em UZR (-19). Quando seu time está na parte inferior em UZR e DEF, isso significa que a defesa não está nada bem.

Parte disso tem a ver com alguns improvisos que Hinch tem feito para encaixar todo mundo, como por exemplo Bregman na terceira base. Jogador que cresceu como 2B na universidade de LSU, ele ainda está aprendendo em como atuar nessa função. Alguns jogos Beltrán, aos 40 anos, tem jogado no campo esquerdo e Reddick tem sido movido para diferentes partes do campo externo para também se encaixar melhor no ataque.

Bregman ainda está se habituando na defesa (Getty Images)

Não que a defesa ruim dos Astros seja algo que tire o sono de Hinch ou Luhnow. Isso não é uma preocupação quando você tem a melhor campanha da Liga Americana, uma rotação titular diferenciada e ataque que é tido como um dos melhores da década. Mas em comparação aos Dodgers, que tem uma das defesas mais produtivas da temporada, não há conversa.

Muito da boa temporada defensiva dos californianos tem a ver com a evolução defensiva de Corey Seager, o que aumenta ainda mais o valor do shortstop. Mais do que um bom defensor, Seager tem sido um dos cinco melhores da Liga Nacional na posição mais importante do campo interno neste ano.

Além de Seager, outro jogador que brilha com a luva nesse time dos Dodgers é Yasmani Grandal. Mais um reflexo de evolução nesse time, Grandal já está consolidado como um dos grandes catchers defensivos da liga. Outra vitória para os Dodgers (3 a 1).

Afinal, qual é o melhor?

Analisar cuidadosamente os setores como partes separadas pode suar um pouco frio demais, mas os times são formados pelo conjunto dos setores. Por mais que Houston seja um time que tem um ataque espetacular, o sistema ofensivo da equipe não sobrepõe a vantagem que os Dodgers tem como uma equipe em conjunto.

Houston é uma equipe mais explosiva, que com o bullpen descansado e McCullers ou Keuchel no montinho é muito difícil de ser batida — talvez até mais que os californianos. Só que os Dodgers é uma equipe mais sólida e com mais opções no elenco, o que se traduz como um time mais confiável na temporada — tanto é que o Houston passou por mais altos e baixos do que os Dodgers neste ano, por exemplo.

Uma estatística importante que não esteve nas comparações entre os setores é o saldo de corridas. E, nisso, os Dodgers ganham por apenas uma corrida de diferença (163 a 162), ou seja, praticamente um empate técnico.

Roberts é considerado um dos melhores da nova geração (AP)

Com tanto equilíbrio na campanha geral e no saldo de corridas, o que realmente difere Astros e Dodgers é a diferença de profundidade nos elencos. Com os Dodgers sendo uma equipe mais completa, eles ganham essa batalha.

Qual é o maior favorito ao título?

Apontar o favorito ao título na MLB, em julho, é um dos maiores chutes que podem existir nos esportes. Muitas vezes o campeão sai do Wild Card, quando ninguém espera. Equipes ganham moral do nada, e desbancam favoritos com frequência — isso não tem sido raridade nos últimos anos.

Mas sempre é bom ser considerado o time a ser batido, e por mais mais que Astros e Dodgers sejam equipes praticamente empatadas, há um pequeno favoritismo aos californianos.

Muito do que acontece na pós-temporada é decidido através do bullpen, e a vantagem que os Dodgers tem nesse setor é um diferencial em relação aos Astros. Não só entre os relievers que já estão hoje, mas em relação ao que Roberts, sendo um treinador inteligente, pode fazer em outubro — e ele já provou isso na última temporada. Além disso, eles contam com Kershaw, que sempre é um fator extraordinário.

Essa ponta de favoritismo por conta de um bullpen mais flexível e explosivo também é explanada nas estatísticas — mesmo que por pouco. De acordo com as projeções do Fangraphs, Houston tem 18,8% de chance de World Series, enquanto os Dodgers estão com 20,0%.

Os times são parecidos demais, e muito pode acontecer daqui até outubro. Não há muitas certezas até lá, e até mesmo não seria surpresa se Dodgers e Astros não chegassem à World Series — afinal, não dá para subestimar os outros e esses dois não estão a ponto de excluir os outros da disputa.

De qualquer maneira, o torcedor dos Dodgers pode comemorar esse pequeno favoritismo para o resto do ano e o fato de ter a melhor equipe do ano até agora.


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About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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