Sim, a temporada está acabando e agora é impossível começar uma nova liga de fantasy ainda este ano. A opção de escrever este texto ainda no final desta temporada é para, a quem interessar, possa ir estudando as diversas possibilidades e funcionamentos de um fantasy da MLB. De qualquer forma, o texto permanecerá no nosso portal na sessão “cultura e jogos“, para ser consultado a qualquer momento.


Um pouco sobre a história dos fantasys

Atualmente os “fantasys” são um modo de disputa muito popular entre as pessoas fanáticas por esportes. Há fantasys de praticamente todo tipo de esporte, desde futebol, futebol americano, basquete, corrida automotiva e até mesmo golfe. O que talvez nem todos saibam é que a MLB é protagonista na história do surgimento dos fantasys.

A vastidão de estatísticas que permitem quantificar quase todos os aspectos de um jogo de beisebol é um dos fatores que fez com que se desenvolvesse, ao longo do século XX, diversas formas de “jogos de fantasia” entre grupos de pessoas, utilizando as estatísticas reais dos jogos disputados na MLB. Ainda em meados do século XX algumas formas pessoas desenvolveram formas primitivas de fantasy de beisebol, que podiam variar desde a utilização dos tradicionais cards de jogadores, que continham as estatísticas das temporadas passadas, ou na elaboração de ligas de fantasy a partir da catalogação pessoal das estatísticas dos jogos de alguma liga – foram encontrados registros de fantasys até mesmo do escritor Jack Kerouac.

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Acompanhar os box scores das partidas da MLB nos jornais era a forma primordial de coletar dados para os primeiros fantasys

O avanço da computação na década de 1960 permitiu o aprofundamento das estatísticas utilizadas pelas ligas de fantasy, que agora podiam dispor de dados catalogados por computadores. A primeira iniciativa do gênero foi realizada por John Burgeson em 1961, ao registrar e codificar as estatísticas da MLB para produzir a simulação de jogos, numa versão primitiva do que hoje seria o Out of the park baseball.

Contudo, foi o desenvolvimento da Rotisserie scoring league pela Chicago Baseball League que revolucionou a forma que se jogam os fantasys de beisebol – e também o fantasy de outros esportes que viriam no futuro – na virada entre as décadas de 1970 e 1980. Em suma, foi instituído o draft de jogadores reais da MLB para os times fictícios, que seguiriam as estatísticas reais produzidas por estes jogadores e a partir disso os times iriam marcando mais ou menos pontos. Rapidamente o roto foi se tornando popular, caindo no gosto de jornalistas esportivos e amantes do beisebol em geral, que em um primeiro momento utilizavam as estatísticas colhidas das box scores disponibilizados nos jornais. Mais sobre essa história pode ser vista no documentário Silly Little Game, que faz parte da série de filmes da ESPN “30 for 30” (está disponível no Watch ESPN).

Plataformas e formas de jogo

Bem, é óbvio que as disputas de fantasys atualmente ocorrem quase que exclusivamente via internet. São diversos os sites e portais que disponibilizam a disputa de fantasys de MLB pelo mundo, no geral todos muito semelhantes.

Os portais mais populares para disputa de fantasy da MLB são a ESPN, Yahoo e o próprio site da MLB. Não há diferenças significativas no sistema de disputa do fantasy em si entre estes portais, o que muda é o visual e as formas de se encontras as informações, o que pode agradar mais ou menos um determinado usuário. Para quem prefere fantasys valendo dinheiro real, os mais populares são o Fanduel, DraftKings e FantasyDraft.

Quanto aos tipos de liga, há as públicas, onde se cria um time, escolhe o modo de jogo, e cai aleatoriamente em uma liga criada pelo site, neste caso sem possibilidade de personalização na forma de disputa e na pontuação da liga. Ou há também a possibilidade de criação de ligas personalizadas que só podem ser acessadas mediante senhas ou convites, as quais podem-se alterar as pontuações e alguns detalhes na forma de disputa.

As formas mais populares de disputa são Rotisserie, head-to-head categories e head-to-head points. Eis as diferenças entre elas:

Rotisserie

A grosso modo, podemos dizer que são os “pontos corridos” dos fantasys de MLB. No roto a performance do seu time é comparada com o restante dos outros times durante toda a duração da temporada, sem disputas diretas entre os times.

É um modo de jogo que exige mais paciência e estratégia, pois ao contrário do head-to-head onde as boas e más fases dos jogadores são decisivas, na roto é a regularidade geral e o desempenho de um jogador em várias categorias que valem mais. Neste sentido, muitas vezes aqueles jogadores subvalorizados podem ser a resposta ideal para melhorar o desempenho do seu time por ter alta produção, por exemplo, de bases roubadas e corridas anotadas, caso este seja o ponto fraco da equipe.

Na forma mais tradicional de roto todas categorias tem o mesmo peso, e são relativas ao restante da liga. É justamente por isso que é considerada a forma mais justa de disputa, que não depende dos pontos que tenham determinadas categorias, nem de boa ou má fase dos seus jogadores na MLB.

Por exemplo, em uma liga de 12 equipes não há uma pontuação específica para tantas corridas anotadas, bases roubadas, corridas impulsionadas, etc. O que conta é a sua posição entre as equipes que disputam a liga, ou seja, uma equipe pode ser a 2ª em corridas anotadas, 4ª em bases roubadas, 1ª em corridas impulsionadas e assim por diante, cuja média das colocações em cada estatística ditará a colocação geral. 

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Exemplo da classificação de uma liga Rotisserie. Quando uma equipe tem 12 em uma determinada estatística, significa que é o líder entre as equipes que disputam o fantasy nesta categoria, o 11 é o vice-líder e assim por diante, resultando em uma pontuação total.

Head-to-head categories

O H2H categories também se baseia nas estatísticas puras como método de disputa entre as equipes. Porém, ao contrário do rotisserie, no H2H categories são realizadas disputas semanais entre duas equipes, cujo objetivo é vencer o maior número de categorias. O número de vitórias e derrotas nestes confrontos semanais são computados em uma classificação geral, que vai terminar em um playoff entre as equipes classificadas ao longo da temporada.

Assim como no roto, valoriza-se no H2H categories jogadores que contribuam no máximo de categorias possíveis. Porém, ao contrário do roto, aqui as flutuações semanais são cruciais, o que torna mais necessárias as mudanças de jogadores de semana a semana, de acordo com a fase deles, se for o caso.

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Exemplo de um confronto semanal em H2H categories. O objetivo é liderar no máximo de categorias possível

Head-to-head points

Assim como o H2H categories, o H2H points também tem como base de disputa o duelo semanal entre duas equipes. Porém, aqui o que define o vencedor destes duelos é o somatório de pontos que os jogadores de um determinado time faz ao longo da semana. O resultado do duelo semanal é computado na classificação geral, que no final da temporada do fantasy culmina em um playoff entre as equipes classificadas (o número de equipes depende do tamanho da liga).

Ou seja, ao contrário dos dois modos anteriores, aqui pode ser útil um jogador que não pontue em muitas categorias, mas tenha ótimos números em uma determinada categoria que tenha um peso maior em pontos.

Como o H2H no geral está disponível apenas para as ligas particulares, as pessoas que gerenciam as ligas podem alterar o peso da pontuação para cada categoria antes do começo da temporada. Então se uma determinada liga estipula alta pontuação para o home run em relação a outras categorias, jogadores como Joey Gallo e Rougned Odor que têm ótimos números de home run apesar do fraco desempenho em praticamente qualquer outra categoria, acabam se tornando úteis.

Pontuação do duelo semanal em uma liga H2H Points por jogadores, e no geral das equipes

No caso das ligas particulares há também outras formas de disputa, como o Season: Points (semelhante ao rotisserie, mas que estipula um peso de pontos para cada categorias) e o Head-2-Head Most Categories (quase igual ao H2H categories, mas neste caso pode-se escolher quais categorias valerão para a disputa da liga e quais não).

As ligas também podem funcionar através de auctions, onde vale um orçamento fictício para cada equipe escolher seus jogadores. Neste último caso, é como se sua equipe tivesse um uma quantidade de dinheiro fictício, e a escolha dos jogadores acontece mediante um leilão onde, quem oferece mais, fica com o jogador (deve-se tomar cuidado para não torrar todo seu orçamento com o Mike Trout e ficar sem condições de ter outros bons jogadores depois, por exemplo). Nesses casos, as transações no free agency também ocorrem mediante a um “pagamento” por parte da equipe.

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Auction Draft: para selecionar o jogador deve-se participar de um leilão para levá-lo

O fantasy na prática

O fantasy começa sempre com um draft, no qual se pode selecionar os jogadores para as suas equipes. O draft pode ser realizado ao vivo ou então off-line, mediante lista prévia ajustada pelas pessoas que irão jogar o fantasy (mesmo no caso dos drafts ao vivo há a possibilidade de se fazer as listas de autopick caso a pessoa não possa estar presente no dia e horário do draft).

A estratégia do draft é uma das coisas mais importantes do fantasy na MLB. A escolha dos jogadores deve estar de acordo com o sistema de pontuação da liga, e de acordo com o que as outras equipes estiverem draftando. Exemplo 1: em uma liga com maior peso de pontuação para wins, os starters de elite terão ainda mais valor, e devem ser draftados o mais rápido possível. Exemplo 2: caso estejam draftando muitos catchers, talvez você tenha que draftar um catcher antes do que pensava, ou então terá que se contentar com um jogador de qualidade menor nas últimas rodadas do draft. Os jogadores não draftados pelas equipes, assim como os que sobem das ligas menores ao longo da temporada, vão para o free agency da liga (o popular bacião).

O número de times na liga do fantasy é variável. O mais importante a saber é, quanto menor o número de equipes, haverá uma maior quantidade de “jogadores de elite” disponíveis para cada time, favorecendo aos iniciantes no fantasy e pessoas que ainda não conhecem tanto o mundo da MLB. Por outro lado, com um número maior de equipes, haverá maior necessidade de encontrar jogadores no free agency e estar informado sobre as notícias de jogadores se recuperando de lesão e subindo das ligas menores, o que favorece os jogadores mais experientes no fantasy e no conhecimento sobre MLB.

A quantidade de posições existentes nas equipes também é algo variável. Além das posições regulares no beisebol, C, 1B, 2B, 3B, SS e 3OFs (pode-se estipular de forma específica entre LF/CF/RF, ou então genericamente apenas como OF), também há as posições UTIL em que se pode colocar rebatedor de qualquer posição (se for estipulado a posição de DH, só valerão os jogadores que atual como DH de fato na AL), e posições mistas como SS/2B ou 1B/3B. No caso das ligas particulares também é permitido alterar a quantidade e as posições nas equipes para, por exemplo, simular as 9 posições reais de um lineup da MLB.

No caso dos arremessadores estipula-se um número de starters e relievers que cada time pode escalar por dia. No caso específico dos starters, pode haver também um limite de starts máximos em uma semana, nas ligas de H2H categories ou points.


Este texto serve apenas como pontapé inicial no verdadeiro mundo que é o fantasy de MLB. São apenas dicas que podem auxiliar aqueles especialmente aqueles que já tiveram curiosidade mas acabaram não entrando no fantasy com receio por não ter experiência e achar as regras e modo de jogos muito difíceis.

Quando começarem a jogar muitas outras dúvidas podem surgir, até porque muitos fatores do fantasy podem ser personalizados em cada liga. O mais importante é entender o funcionamento geral, a estrutura de draft e escalação dos jogadores da MLB, e as diferenças entre as ligas rotisserie e os head-to-head points categories. Depois vai se pegando o jeito da coisa, e o fantasy se tornando cada vez mais divertido, com aqueles confrontos semanais apertados, a briga pelas últimas vagas dos playoffs, ou então aquelas tentativas de “roubo” nas trocas propostas aos amigos.


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About The Author

Torcedor do Philadelphia Phillies, mostra que a paixão pelo beisebol não é uma escolha racional. Cada dia mais viciado pelo esporte, passa metade do dia assistindo aos jogos, lendo textos sobre beisebol ou discutindo as trades no fantasy.

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