Vários estudos já foram feitos sobre a dificuldade que um rebatedor tem para rebater uma bola de beisebol em nível profissional. Se uma reta vem a 95 milhas por hora, o homem com o bastão nas mãos tem apenas 125 milissegundos para decidir se vai para o swing ou não — três vezes menos tempo do que uma piscada (que leva entre 300 a 400 milissegundos). A coordenação entre visão e músculo precisa ser perfeita e uma piscada de delay pode ser a diferença entre um home run ou strikeout.

No beisebol, visão é tudo para um rebatedor e também para o outfielder, que precisa correr atrás de foguetes no campo externo que implicam em vários desafios. Se para um jogador normal, essas tarefas são complicadas e exigem treinamentos exaustivos na ambição de chegar a um bom nível, para Tommy Pham, do St Louis Cardinals, a dificuldade é muito maior.

Pham foi escolhido pelos Cardinals num draft bem distante, ainda em 2006, na 16ª rodada. Naquele, que foi o mesmo recrutamento em que Clayton Kershaw e Evan Longoria foram escolhidos, Pham era um jogador de 18 anos saindo do ensino médio que projetava ser um shortstop com boa força no bastão. As expectativas, porém, nunca foram muito altas para o nativo de Las Vegas.

O diagnóstico e o risco de encerrar a carreira com 20 anos

Após um começo difícil nas ligas menores, Pham despontou para o primeiro grande ano na carreira em 2008, quando jogava na classe A dos Cardinals. Naquela temporada, o já outfielder marcou 17 home runs, mas o aproveitamento no bastão de apenas 21,8% era um problema. Com então 20 anos, Pham foi direto para a Flórida no fim da temporada para tentar melhorar no bastão.

Tentando descobrir maneiras de incrementar habilidades, Pham se encontrou com Jeff Luhnow (atual gerente geral do Houston Astros), que na época fazia um trabalho brilhante como chefe das categorias de base dos Red Birds. Pham, então, explanou para Luhnow as dificuldades no swing e acreditava fielmente que se tratava de um problema na mecânica. Só que o diretor dos Cardinals tinha uma opinião diferente e disse para o jovem prospecto: “Seu problema está na visão e na identificação dos arremessos”.

Luhnow acertou na mosca. Pham voltou para St Louis e realizou exames na vista que constataram ceratocone, uma doença que para muitos jogadores de beisebol significam a aposentadoria. Com o diagnóstico da doença, Pham sabia que sua trajetória teria que ser diferente de todo resto. O ceratocone é uma doença que afeta apenas uma a cada 500 pessoas e dificulta demais o trabalho do jogador de beisebol.

(O Ceratocone é uma doença ocular não inflamatória que afeta o formato e a espessura da córnea, provocando a percepção de imagens distorcidas. A evolução do ceratocone é quase sempre progressiva com o aumento do astigmatismo, mas pode estacionar em determinados casos — definição pela clínica Lotten Eyes)

Dr. Edward S. Bennett, em entrevista ao site STL Today, explicou os desafios que Pham tem com essa doença: “O que ele enxerga e diferente do que nós enxergamos. É como olhar através de uma janela clara, mas com uma mancha que atrapalha na nitidez da imagem. Se alguém me falasse que é possível ser um jogador de beisebol com ceratocone, eu diria que a chance é zero. Apenas Tommy Pham é possível. Eu diria que ele é 1 em 1 milhão”, finaliza o doutor.

Por ser um jogador jovem e que nunca perdeu o objetivo de atuar nas Majors, Pham não desistiu do sonho quando foi diagnosticado em 2008 e muito menos cogitou tratamentos agressivos para cuidar do ceratocone. Havia possibilidades de tratamentos via laser ou até mesmo o transplante de córnea, mas ele seguiu e ainda segue remediando a doença através das lentes de contato e leves paliativos.

Mesmo após o diagnóstico e com as devidas lentes de cuidado, Pham sofreu nas ligas menores menores. O problema sempre era rebater as bolas de curva, por causa do efeito e da dificuldade que o jogador tem de localizar os arremessos certos.

Após cinco anos de ligas menores, em 2011, Pham encontrou um tratamento alternativa que deu uma injeção de ânimo na carreira do outfielder. Naquele ano, ele ainda estava na Double-A dos Cardinals e longe de ser um jogador de potencial para o futuro. “Durante a offseason (de 2011), visitei o médico Boxer Wachler que me apresentou um tratamento hoje chamado de Holcomb C3-R Cross Linking System. O tratamento persiste em aplicar um raio de luz ultravioleta para fortalecer as córneas e para mim funcionou muito bem”, relata Pham.

Esse tratamento mudou a carreira de Pham. “Se eu não tivesse aquilo em 2011, não sei aonde eu estaria hoje”, conclui o jogador para o STL Today.

Tommy Pham comemorando o primeiro home run nas Majors (Getty Images)

Pham despontou após um excelente 2013 na Triple-A e no ano seguinte finalmente conseguiu fazer sua estreia na MLB. Entre as temporadas de 2014 a 2016, no entanto, apenas 136 jogos para o outfielder e passagens esporádicas no Show. “Guardei todo meu melhor para 2017”, brinca Pham, que 11 anos após ter sido draftado teve a sensação de ser considerado um dos melhores jogadores da franquia ao liderar a equipe principal em muitos quesitos.

“Eu teria ficado muito decepcionado comigo mesmo se minha carreira acabasse sem eu aparecer nas Majors. Enquanto eu estava nas ligas menores, vi outros jogadores indo para a MLB e eu sabia que eu era melhor do que muitos”, desabafa Pham.

Uma rotina pesada

Beisebol é um jogo em que há muitas pausas. Seja entre as entradas, uma troca de arremessador ou simplesmente um delay aleatório, o jogador tem vários momentos de inação. Para Pham, essas oportunidades são ideais para ele testar se a visão está boa ou não.

“Eu aproveito qualquer oportunidade para isso (testar a visão). Olho os letreiros do Busch Stadium, vejo se estou enxergando na mesma nitidez do que em entradas anteriores. Leio qualquer publicidade aleatória no estádio, tendo ler cada letra que está no placar. Isso vira rotina”, afirma o jogador.

Como Pham sofre de ceratocone nos dois olhos, ele precisa fazer esses testes fechando um olho e enxergando com o outro. “Se alguma lente não está boa, aí fica complicado”, reforça.

Pham conta um caso que teve no meio desta temporada em que precisou trocar de lente as pressas antes de uma partida. “Era uma série de jogos contra os Marlins, em Miami. No dia em que a série iria começar, tive que voar até Las Vegas para conseguir novas lentes, pois as minhas reservas não estavam funcionando bem. Qualquer dia off considero a possibilidade de tentar afiar minhas lentes”.

Mesmo com a rotina pesada, Pham consegue os desafios (AP)

Toda essa rotina tende a fica ainda mais pesada com o tempo, visto que a doença de Pham é degenerativa. Os exames de rotina, que para jogadores sem histórico de doença ocular acontecem de tempos em tempos, para o outfielder é uma questão semanal.

Rumo ao estrelato?

Nenhum jogador dos Cardinals foi tão produtivo quanto Pham nesta temporada. A temporada do outfielder foi simplesmente brilhante, tanto no bastão quanto na defesa. Ofensivamente, conseguiu rebater para ótimos 30,6%, com direito a 23 home runs e 25 bases roubadas.

Aos 29 anos, Pham se encontrou na MLB como um jogador five-tool, capaz de fazer de tudo dentro do campo. “A flexibilidade que ele nos dá é incrível. É um jogador que pode jogar nos três lugares do campo externo e que faz você se sentir confortável contra qualquer tipo de arremessador”, afirma Mike Matheny, treinador do time, ao site STL Today.

O WAR de 5,9 foi disparado o melhor entre os rebatedores da equipe, quase o dobro do segundo colocado no quesito — Paul DeJong, com 3,0. Ganhando apenas um salário de novato (US$ 535 mil), os Cardinals ainda terão muito tempo de controle sob Pham e isso torna o jogador ainda mais valioso para a franquia. A projeção é que ele se torne agente livre apenas em 2022, quando terá 34 anos.

A temporada do outfielder poderia ter sido ainda melhor, pois ele jogou apenas 128 jogos. Se ele conseguisse 160, por exemplo, o WAR teria ficado na casa de 7.0 — que seria o melhor da Liga Nacional e o colocaria na briga direta pelo MVP. De qualquer maneira, o WAR de 5,9 o colocou em sexto, atrás apenas de Charlie Blackmon, Joey Votto, Kris Bryant, Giancarlo Stanton e Anthony Rendon. Uma companhia e tanto.

Pham entra para 2018 como melhor OF dos Cardinals (Getty Images)

Quando afunilamos a lista apenas para os outfielders, Pham foi mais produtivo do que jogadores como Andrew McCutchen, Mookie Betts, George Springer e Lorenzo Cain.

A idade ainda não é um fator para ele. Pham completará 30 anos em 2018, o que ainda está na faixa do auge entre os rebatedores da MLB. Segundo projeções do Fangraphs, ele ainda tem mais duas temporadas em altíssimo nível antes de começar a decair por causa do fator idade.

Claro que para Pham ele não se encaixa no padrão convencional de carreira por causa da doença e isso torna o futuro do jogador um pouco imprevisível. Porém, as projeções para o futuro são as animadores. E se nada der certo daqui pra frente, Pham já conseguiu completar o sonho de estar nas Majors e de ser considerado um jogador elite.

Um feito para poucos, ou como diz o dr. Bennett, de 1 em 1 milhão. Pham é mais do que especial.

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Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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