Independente de quem você acha que deve ser o MVP da Liga Americana, é impossível negar que a temporada de Aaron Judge foi histórica em vários sentidos. Primeiramente, foi um dos melhores anos de um novato da história da beisebol americano. Judge bateu o recorde de home runs de um novato com 52 — ninguém sequer tinha chegado em 50 em mais de 100 anos —, terminou com o quinto maior WAR com 7.6, o segundo melhor wRC+ de 173, quebrou o recorde de walks de um novato com 127 bases por bola e pode vir a se tornar apenas o terceiro jogador a vencer prêmio de MVP e Rookie of The Year na mesma temporada (o último foi Ichiro Suzuki, lá em 2001).

Sendo a principal razão da temporada positiva do New York Yankees, Judge iniciou os playoffs como grande esperança dos Bombers para outubro, mas o que tem se visto é um show de horrores. Apenas 4 rebatidas, 5 walks e bisonhos 19 strikeouts sofridos em 8 jogos. Para se ter uma noção, o recorde de K’s sofridos numa única pós-temporada é de Alfonso Soriano — também Yankee — com 26, só que em 17 jogos, mais que o dobro que os disputados por Judge. Má fases em playoffs acontecem com grandes jogadores todo ano, mas esse é o tipo de coisa que não pode acontecer.

Bem, eu tinha dito que o slugger teve um ano histórico em múltiplos sentidos, e um deles é em sua taxa de strikeouts. O rebatedor de 25 anos quebrou o recorde de jogos consecutivos sofrendo K’s com 36, e somou no total 208 strikeouts — empatado em 6º como maior marca na história — em 678 idas ao bastão dão absurdos 30.7% de média de eliminações por strike. Se estabelecermos um mínimo de 550 at bats para ter como base apenas temporadas completas e fugir da amostra pequena (small sample size), 2017 de Judge teve a 20º maior média de strikeouts sofridos na história.

Na lista dos maiores K%,  há vários jogadores que fizeram temporadas boas, alguns que fizeram grandes temporadas. Strikeouts são um problema quando te impedem de chegar em base durante um jogo, exatamente como tem acontecido com Judge nesses playoffs, mas não foi o caso na temporada regular. Essa parte do texto não é para falar mal do slugger nova iorquino — essa parte ainda vai chegar —, mas sim mostrar que seu ano foi uma anomalia beisebolística.

Primeiramente, strikeouts em média estão crescendo constantemente. Das 30 temporadas com mais strikeouts sofridos, a única que não aconteceu nesse século foi a de Bobby Bonds em 1969, quando ele somou 187 eliminações por strike — um ”feito” incrível na época.

Home runs ficam cada vez mais importantes no jogo e isso naturalmente aumenta a quantidade média de eliminações por strike. Como disse, obviamente esses números de Judge não são bons, mas não são horrendos a ponto de desmerecer a grande temporada do rebatedor, mas o que chama a atenção foi que mesmo sofrendo tantos strikeouts, ele teve o segundo melhor percentual de walks da liga, com 18.7%, atrás apenas de Joey Votto com 19%. Seu wRC+ foi o melhor de toda a MLB em 2017, o maior entre todos os rebatedores com 200 K’s sofridos ou mais e o melhor entre jogadores que tomaram 150 ou mais desde Mark McGwire em 1998. Pode-se dizer que Judge é o reflexo perfeito do beisebol atual.

Power hitters tendem a ter taxas altas tanto de walks quanto de strikeouts, sempre foi assim, mas nenhum na história foi tão extremo quanto o Baby Bomber. Como isso é possível?

Para explicar a quantidade enorme de K’s, a melhor estatística que podemos usar é a média de contato feito em bolas foras da zona de strike (O-contact%). Judge postou para bisonhos 44.8%, isso é, de todas as bolas que o rebatedor recebeu fora da zona, ele conseguiu tocar em apenas 44%, isso foi pior até que os 47.9% de Chris Davis, que liderou a liga em K% com 37.2%. Para se ter uma ideia, a média da MLB em 2017 foi 62.9% no quesito. Mas isso surpreendentemente não quer dizer que ele é um rebatedor impaciente, pelo contrário. Sua taxa de swing em arremessos fora da zona (O-swing%) é de ótimos 24.7%, a 25º melhor marca no quesito na temporada. Então por que tanto strikeout?

A explicação tem nome: breaking balls. Slurve, curveball e principalmente slider. Esse tipo de arremesso tem sido um completo pesadelo para o Bomber, veja abaixo mapas de calor da strike zone contra cutter, curveball e slider:

O primeiro é a média de vezes em que ele gira o bastão e o segundo a média de contatos que consegue (por arremesso). Breaking balls obviamente tendem a quebrar pra parte interna da zona, e esse tem sido um pesadelo para Judge. Números horríveis na parte esquerda – direita na imagem -, e que foram principais culpados por tantos strikeouts.

Em contra partida, observe o heatmap contra bolas rápidas, em especial 4-seam e sinker:

Agora, olhe uma tabela com os números por cada arremesso:

Arremesso Vistos Strikeouts   Hrs BAA BABIP
4-Seam 1107 74   24 .294 . .340
Sinker 488 22   11 .326 .321
Changeup 287 16    7 .367 .423
Slider 758 66    4 .156 .276
Curveball 311 31    5 .283 .500
Cutter 208 14    2 .297 .426
Splitter 41 6    0 .100 .250

Judge simplesmente obliterou bolas rápidas – 24 home runs –  e teve sucesso em colocar changeups em jogo. Alias, colocar bolas em jogo também foi parte do sucesso do calouro em 2017. O slugger nova-iorquino postou para um absurdo .426 de bolas colocadas em jogo na primeira metade da temporada, números que nem Babe Ruth seria capaz de manter. Um .266 na segunda parte do ano normalizou seus números, mas assim se manteve acima da média em .326. Bem, números altos nessa estatística normalmente significam sorte, mas talvez não seja só isso no caso do outfielder.

Judge liderou a MLB em média da velocidade das rebatidas. Mesmo quando ele não consegue necessariamente um um home run ou uma rebatida extra bases, como consegue realizar um contato sólido e forte. Veja no vídeo abaixo:

Isso obviamente o ajuda a conseguir colocar mais bolas em jogo, já que é mais difícil dos defensores realizarem a defesa.

A temporada foi histórica, mas o que está acontecendo nos playoffs?

Bem, os Yankees enfrentaram nada mais nada menos que um dos melhores times da história no quesito arremesso na ALDS. A taxa de strikeouts por nove entradas e o WAR dos arremessadores do Cleveland Indians foram os mais altos já registrado na MLB, então Judge não rebateu contra qualquer um. O pitching staff da Tribo sabia o que estava fazendo e em 5 jogos, arremessou um total absurdo de 61 sliders, o principal inimigo de Judge, muito mais que qualquer outro arremesso. 41 bolas rápidas — a maioria na parte interna da zona, 34 curveballs aniquilaram e 19 cutters aniquilaram o rebatedor que foi limitado a apenas uma rebatida e sofreu insanos 16 strikeouts.

Na ALCS, o Houston Astros continuou a fazer a mesma coisa, lançando 22 sliders em 2 jogos, a má fase do novato continua e até agora foram três strikeouts e apenas uma rebatida.

Judge vai vencer o prêmio de novato do ano na Liga Americana com sobras e é discutivelmente, o MVP, postou para uma das temporadas mais divertidas e estranhas de um rebatedor, mas mostra defeitos grandes e que precisam ser trabalhos na inter temporada. Ele é novo ainda, com 25 anos ainda existe espaço para muita evolução para um jogador que já colocou seu nome na historia centenária do beisebol. O céu é o limite para o gigante.


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