Ser um arremessador profissional de beisebol é uma profissão dificílima. Jogar na MLB, para um pitcher exige titular, exige um esforço que quase ultrapassa níveis humanos durante oito meses por ano. Um arremessador que joga 200 entradas numa temporada, por exemplo, que é uma marca um pouco acima do padrão, lança de média 3.4 mil bolas só na campanha regular. Entre aquecimento, Spring Training e, eventualmente, pós-temporada, esse cara ultrapassa fácil as 5 mil beisebolas.

Como você e eu sabemos, não é só simplesmente lançar a bola. O pitcher na MLB que atinge 200 entradas num ano precisa ser um mestre no montinho. Localização, estudo do adversário e alta velocidade são quesitos primordiais para um workhorse. Desgaste físico e mental que dispensam mais comentários.

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Esse esforço descomunal no braço do arremessador pode, claro, acarretar em problemas físicos. Na história da MLB, por exemplo, há centenas de arremessadores talentosos que poderiam ter grandes carreiras se não fossem as temíveis lesões no ombro ou cotovelo. Kerry Wood, Mark Fidrych, Mark Prior, Brandon Webb e tantos outros encabeçam a lista. Arremessadores que tiveram períodos geniais e que não materializaram esse talento. Nessa lista, podemos adicionar Matt Cain, o mais novo aposentado da turma que vai parar de jogar com apenas 32 anos.

Se você é da turma recente da MLB, provavelmente terá a visão fresca de um pitcher ruim quando lê ou escuta o nome de Cain. E não há vergonha em pensar assim, pois nas últimas quatro temporadas ele teve ERA combinado de 5,30 em uma amostra gigante de 359,2 entradas. Desde 2014, Cain foi um problema na rotação dos Giants, que não conseguiu trocá-lo pelo gigantesco contrato.

É justamente nesse período, dos últimos três anos, que Cain passou a ter problemas crônicos de contusão. Em 2013, precisou passar por um procedimento para retirar fragmentos de ossos no cotovelo direito (o mesmo que arremessa) após jogar 10 anos com isso instalado dentro do braço. No mesmo ano, problema parecido no tornozelo direito. Ainda em 2013, uma rebatida atingiu o braço direito e o forçou a lista dos contundidos pela primeira vez em então oito anos de carreira.

É bom contextualizar a carreira de Cain e nada vai apagar a história que ele escreveu nos seus melhores anos. Ele foi um arremessador completamente diferente antes da contusão — ou seja, entre 2005 a 2013.

Cain, desde cedo, se consolidou como um jogador importante na rotação (AP)

Com uma característica clássica, Cain, nos seus melhores tempos, era um jogador super resistente que simbolizava um verdadeiro workhorse. Era um estilo de jogo muito parecido com John Lackey, só que melhor. Durante seis temporadas seguidas (2007-2012) ele conseguiu pelo menos 200 entradas. Além disso, era, ao lado de Tim Lincecum, o líder de uma rotação super vitoriosa. Nesse mesmo período de cinco anos, Cain teve ERA de 3,18 e foi para o All-Star Game três vezes.

Para se ter uma ideia do quão dominante Cain foi no montinho durante os seus tempos áureos, essa tabela dá um ótimo indicativo.

Melhores arremessadores da liga entre 2007 a 2013

Nome

ERA FIP Entradas WAR

Clayton Kershaw

2,80 3,01 941 23,6

Roy Halladay

3,00 3,05 1.348 35,6

Chris Carpenter

3,05 3,22 702 14,3
Felix Hernandez 3,06 3,25 1.345

29,8

CC Sabathia 3,13 3,19 1.399

35,8

Adam Wainwright 3,14 3,30 996

21,8

Matt Cain 3,18 3,58 1.299

23,9

Cliff Lee 3,16 3,06 1.202

31,9

Mais do que os números, que já falam por si só, o que Cain fez dentro do campo de beisebol nos fez guardar memórias que jamais serão esquecidas. A temporada de 2012, por exemplo, é recheada disso.

No dia 13 de junho, ele lançou um jogo perfeito de muito respeito contra o Houston Astros. Foram 14 strikeouts no processo em uma das atuações mais espetaculares da história do beisebol. Esse que foi o último bom ano da carreira de Cain.

Ainda em 2012, Cain teve um duelo épico contra Cliff Lee em um jogo contra o Philadelphia Phillies quando, no início da temporada regular, os dois batalharam em um jogo em que ambos foram para a entrada extra. Naquela ocasião, o pitcher dos Giants levou a vantagem.

E também, claro, a World Series daquele ano em que Cain fechou o quarto e último jogo da finalíssima diante do Detroit Tigers. Em casa, jogo quatro, foram sete entradas sem ceder sequer uma corrida para selar a segunda conquista da carreira do arremessador.

Cain ainda conquistaria outro anel, dois anos mais tarde, porém, como um jogador pouco relevante no elenco. De qualquer maneira, ele deixa um histórico invejável na pós-temporada: oito jogos e ERA de 2,10 em dois anos (2010 e 2012).

Cain comemorando o título de 2012 com a família (Getty Images)

Além de tudo isso, a ligação que Cain construiu com a comunidade de San Francisco e a franquia dos Giants é impressionante. As suas 12 temporadas no time (2005 a 2017) marcam o maior período da história por uma arremessador do time desde a mudança da franquia para San Francisco (1958). “Eu não consigo me ver jogando por outro uniforme”, afirmou na entrevista após anunciar a aposentadoria.

Na história da franquia, que já teve lendas como Christy Matthewson, Juan Marichal e Amos Rusie, Cain é o quinto em strikeouts (1.690) e 11° em entradas arremessadas (2.080), além de ocupar alguns recordes por lá — como único jogador da franquia a ter jogo perfeito.

Lesões acontecem e os arremessadores não conseguem controlar essa parte que infelizmente nunca vai deixar de existir. Então na hora de lembrar sobre quem foi Matt Cain no montinho, o justo é ter em mente aquele grande arremessador que entre seis temporadas chegou a ser um dos melhores da Liga Nacional. E que, claro, conseguiu um raríssimo jogo perfeito.

Cain deve fechar a carreira com uma sensação de dever cumprido. No próximo sábado (30), diante do San Diego Padres, o AT&T Park vai homenagear o seu arremessador em um último jogo que promete ser emocionante.


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About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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