Softwares, departamentos analíticos e zilhões de dados sendo processados e analisados diariamente. A offseason de um time na MLB é mais conturbada e recheada de possibilidades do que de qualquer outro grande esporte nos Estados Unidos. Se você é um gerente geral, precisa lidar com um elenco principal de 25 jogadores e pelo menos mais 70 em outros níveis menores nas ligas inferiores. Assim como em uma partida de beisebol, as possibilidades e movimentos são quase infinitos.

Desde a revolução estatística feita pelo Oakland Athletics de Billy Beane há duas décadas, a offseason (ou intertemporada, como queira), é pautada por muitas simulações, números e decisões pensadas não só no agora, mas a longo prazo. São pouquíssimas equipes que ainda pensam no modo tradicional e old fashion de como gerir as contratações — talvez o Miami Marlins, numa diretoria que parece tomar as decisões através dos instintos.

Em meio a essa racionalização dos contratos e da lógica e estudo por trás de cada um assinado, o Toronto Blue Jays vem tornando-se uma exceção justificável e perfeitamente compreensível. E para entender o que Ross Atkins (gerente geral deles) e o restante da diretoria precisam lidar com uma mentalidade que tem se provado cada vez mais baseada no coração e não no cérebro, é preciso voltar um pouco ao tempo e contextualizar a situação em que o único time canadense na MLB está situado.

Um caso singular de todo resto

Desde a saída do Montreal Expos, Toronto, como único time canadense na MLB, carrega a simpatia de um país que, por mais que seja apaixonado pelo hóquei, também dá o seu espaço para o beisebol. Os Expos, com uma das torcidas mais fanáticas dos anos de 1980 e 1990, é um exemplo disso e o que os Blue Jays estão passando nos últimos três anos revive um pouco do amor que o povo canadense tem com a pelota.

Em 1992 e 1993, os Jays conquistaram a World Series duas vezes seguidas, tornando-se, ao lado do New York Yankees anos depois, as únicas equipes que conseguiram conquistar mais do que um título na década de 1990. Aquela equipe era muito forte, tinha estrelas como John Olerud, Roberto Alomar, Joe Carter o finalzinho de Paul Molitor. Para coroar aqueles dois títulos, a conquista na World Series de 1993 foi uma das mais fantásticas da história e foi decidida num walk-off de jogo seis.

Os canadenses que viveram aquela emoção total no início da penúltima década sentiram o gosto de como o beisebol pode ser especial e extremamente prazeroso para uma fanbase. Isso criou uma geração de torcedores apaixonados pelos Jays, que nunca largaram pé do time e carregam esse amor até hoje.

Após aquela equipe campeã, a base do elenco vencedor ficou velha e os Jays passaram por incontáveis períodos de rebuild. Até mesmo quando Roy Halladay — um gênio que deixou saudades — estava no auge esse time não conseguia estar entre os principais de uma divisão que sempre teve Boston Red Sox e New York Yankees incomodando — para “piorar”, no tempo de Doc, o Tampa Bay Rays também era uma força.

Entre 1994 a 2014, os Jays não conseguiram ir aos playoffs sequer uma vez e isso mesmo numa MLB em que já tinha implementado o sistema de Wild Card. Mesmo assim, a base da torcida fanática formada no início da penúltima década não abandonou o time.

Toronto, por ter uma cultura diferente da frieza de algumas fanbase da MLB nos Estados Unidos, torce com paixão e faz questão de mostrar isso. É assim com o time na MLS e também com o Toronto Maple Leafs na NHL. Isso também ajudou a inflar a moral dessa torcida quando os Jays finalmente voltaram à pós-temporada. Isso veio em 2015, com um elenco que parecida moldado para ser campeão com estrelas como Josh Donaldson, Troy Tulowitzki, José Bautista e David Price.

A vividez da torcida dos Jays veio acompanhada com uma diretoria sedenta por vencer. Em 2015, os Jays tornaram-se um dos principais pagadores da MLB, ultrapassando recordes na folha salarial da equipe e assinando com veteranos para maximizar as chances de vitória. Tais fatos animaram uma torcida explosiva, e naquela temporada os Jays situaram como oitavo na lista das maiores torcidas.

Também cenas como essa, do bat flip de Bautista, fizeram todo esforço feito pela diretoria em 2015 valer a pena. São por momentos como esse que a torcida dos canadenses esperou por 20 anos.

A tendência carregou para 2016 e 2017, com os Jays figurando no top quatro em público — ambos os anos à frente de torcidas como a do Chicago Cubs e New York Yankees, por exemplo. Mesmo com o título não vindo e a aparição nos playoffs passou longe na última temporada.

O motivo de tanta empolgação da torcida vai além dos resultados

Os playoffs foram só uma faísca para ascender a torcida dos Jays, mas chegar lá em 2015 e 2016 não foram os únicos resultados. Durante muito tempo os Jays foram uma equipe de mercado mediano e que não tinha muito dinheiro para disputar free agents e contratos expirantes. Tanto é que na época de Halladay a torcida reclamava a falta de competência da diretoria em contratar jogadores à altura de um dos maiores arremessadores de todos os tempos.

Isso mudou na gestão do ex-GM Alex Anthopoulos, e uma mentalidade que seguiu-se com Atkins. Ok, os Jays perderam alguns grandes prospectos para adicionar veteranos como RA Dickey (Noah Syndergaard saiu nessa troca, por exemplo), mas “queimar” a categoria de base para competir agora e sair da sombra dos grandes da AL East sempre foi algo que teve um fundo de razão para os Jays, mesmo com a diretoria sabendo dos movimentos arriscados.

Além da torcida finalmente ter sentido novamente a áurea grande em 2015 e 2016, o que traz tanta animação para essa fase recente dos Jays são os atuais ídolos da equipe. Bautista é um dos cinco maiores jogadores da história da franquia, enquanto Donaldson ainda é um dos melhores terceira base da liga, Marcus Strooman um Cy Young em potencial e Roberto Osuna tem talento e futuro para ser Hall da Fama.

Torcida dos Jays é fanática com Bautista (Getty Images)

Mas esse elenco atual, de figuras carismáticas e que já trouxe tantas alegrias para a torcida dos Jays, está próximo de ser remodelado — pelo menos assim seria caso os Jays estivessem sediados em algum lugar convencional dos Estados Unidos.

Parece que os Jays estão decididos a não tirar o pé do acelerador

A diretoria dos Jays teve muitas chances de “puxar o gatilho da reconstrução” na última temporada. Era o ano ideal para tal, pois Donaldson ainda teria mais um ano de contrato garantido para o time que o contratasse (será free agent no fim de 2018), Bautista tinha algum valor e Strooman seria uma fantástica moeda de troca. Só que a diretoria resolveu esperar e tentar competir com um time que começou a temporada muito mal.

Os Jays chegaram na deadline sem chances reais de irem para a pós-temporada, e o fato da diretoria não ter desistido de competir mostra claramente que eles não querem saber de reconstrução no momento. Isso, claro, implica na ainda permanência de Donaldson, que tem muito valor de mercado e pode sair no fim do ano sem dar nada para os Jays em retorno além de uma pick compensatória no draft.

Enquanto há especulação sobre jogadores dos Jays saindo nesta intertemporada, também no mesmo pé estão as especulações da equipe se reestruturando para competir novamente. O nome de JD Martinez ainda é possível no outfield dos canadenses, e Bautista pode retornar a equipe. Jay Bruce, que recentemente assinou como New York Mets, também era uma possibilidade.

Ao que tudo indica, com uma folha salarial mediana, os Jays estão querendo se reestruturar para voltar aos bons tempos. Na realidade, as chances são complicadas para 2018, pois a rotação é falha, precisa de muitos reforços e a divisão extremamente forte com as potências de Red Sox e Yankees — além do Baltimore Orioles que atualmente está um pouco à frente dos canadenses.

Toronto tem buracos demais para preencher se quiser competir forte, e parece inviável que a diretoria vai conseguir montar um time forte o suficiente para eles competirem em alto nível agora. Portanto, caso o rebuild realmente não chegue, será claro a estratégia da diretoria de aproveitar esse momento de otimismo da diretoria para seguir com o estádio lotado e manter as esperanças acessas — mesmo sendo poucas.

No momento, esse é o lineup projetado dos Jays para 2018:

(Via Rotochamp)

Quinteto titular planejado:

(Via Rotochamp)

O racional seria?

A categoria de base não é muito potente, mas há dois jogadores que dão muito otimismo para o futuro dos Jays: Vladimir Guerrero Jr. e Bo Bichette. Ambos tiveram espetaculares temporadas em 2017 e estão com grandes expectativas. Só que Guerrero ainda tem 18 anos, enquanto Bichette, que jogou a qualificatória do WBC de 2016 pelo Brasil, ainda tem 19 anos. Os dois estão bem longe da MLB.

Guerrero já é um dos principais prospectos da MLB (AP)

Com os Jays ainda estão com alguns contratos longos pela frente, como de Tulowitzki (2012), Russell Martin (2020), Stroman (2021) e Osuna (2021), faz mais sentido tirar um ano sabático em 2018, trocar Donaldson e alguns outros veteranos para reconstruir o próximo bom time — que pode perfeitamente chegar em 2019 — sob a batuta de Tulo, Martin, Stroman e Osuna. Principalmente os dois últimos citados, que são jogadores jovens e com ainda muito potencial pela frente.

Assim, conseguindo alguns prospectos agora na troca de veteranos e tirando uma temporada sabática enquanto Sox e Yankees brilham na divisão, os Jays podem recarregar mais a categoria de base e esperar como que Guerrero e Bichette possam chegar ao time principal já na temporada de 2019. Dessa maneira, os Jays conseguiriam dar um passo atrás agora para dar dois na frente no futuro próximo.

Essa é uma possibilidade que pode acontecer com a temporada em andamento, caso os Jays comecem mal e a diretoria decida trocar Donaldson antes da deadline. No entanto, parece que antes do ano letivo da MLB começar, o front office dos Jays vai continuar com a mesma mentalidade de 2017.

No frigir dos ovos…

Não dá para condenar nem um pouco a atitude dos Jays de seguir martelando num time competitivo mesmo quando a chance é baixa. E isso não exclusividade deles, pois o Kansas City Royals do ano passado passou por algo passado — também de time pequeno, ficou muito tempo sem aparecer aos playoffs e resolveu tentar um shot nos playoffs mesmo com as possibilidades sendo mínimas.

Times como Jays, Royals e nesse rol é possível incluir o Pittsburgh Pirates, vivem numa realidade paralela do restante da liga — Milwaukee Brewers também pode ser incluído, se forçar um pouco a barra. Equipes de mercado não grande, muito tempo sem o gosto da vitória e que estão cansados de rebuild.

É hora de continuar surfando na onda do contending e mesmo o torcedor dos mais cético e analítico dos Jays deve estar gostando dessa atitude da diretoria dos canadenses.

About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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