CENA 1: Primeiro passeio caminhando pelas ruas “calientes” de Centro Habana e logo na segunda quadra, ao atravessar uma grande praça impermeabilizada lotada de pessoas das mais variadas idades e estilos, já se ouve um grito infantil e alegre de “jonron”. Virando o olhar está a cena esperada; uma criança que, poucos segundos após deixar seu taco de beisebol no solo, corre feliz no percurso improvisado que seriam as quatro bases que conformam o objetivo máximo do esporte, enquanto a outra criança a mira com um olhar que tem ao mesmo tempo decepção por ter cedido um home run e admiração pela alegria esbanjada pelo amigo.

CENA 2: Nas andanças pelo interior da “maior ilha das Antilhas”, depara-se com a cena que melhor poderia expressar a paixão popular pelo esporte, duas crianças se divertindo ao “jugar la pelota” da maneira mais improvisada possível, um pedaço de pau fazendo as vezes de taco e um pedaço de plástico retorcido simulando uma bola. Jogo improvisado, mas a diversão é a mesma. Nesse caso o objetivo era rebater a bola de forma que o arremessador não a conseguisse pegar antes que tocasse no solo (não haviam bases a percorrer, muito menos uma zona de strike nesse caso). Caso isso ocorresse, trocava-se entre si quem estava rebatendo e arremessando.

Adolescentes jogando na rua (Anderson Proença)


Estas duas cenas exemplificam a intensidade da paixão pelo esporte em Cuba. Crianças jogando beisebol da maneira que lhes é possível, seja de forma improvisada nas praças da cidade, ou então com todos os equipamentos corretos e em equipes com o número completo de jogadores, o sonho é o mesmo. Ao rebater um “jonron” ou consegui um “strikeout”, já se estampa aquele sorriso da criança que se imagina sendo aquela sua estrela favorita da “pelota” nacional ou internacional.

Esta paixão “pura e ingênua” pelo esporte, que ao menos na infância está mais relacionada a diversão que à “formação profissional” não nos é estranha a todos nós latino-americanos. É o que vemos nas ruas das cidades brasileiras — como poderíamos ver também nas ruas argentinas, paraguaias, colombianas, etc. — com o futebol sendo jogado das formas e regras mais criativas e divertidas possíveis.

O beisebol está tão imbrincado na formação histórica cultural dos países caribenhos que o esporte é referido como “pelota” nestes países em que é o esporte mais popular da nação, como Cuba, República Dominicana, Porto Rico e Venezuela. É o esporte que tem as ligas profissionais mais populares e tradicionais nestes países – e não é à toa que vemos tantos jogadores oriundos destes países na MLB.

O futebol como principal “rival”

Porém, não nos enganemos. O efeito globalizador do futebol também já se faz presente em Cuba. E aqui mais uma vez a globalização fala mais alto, e — já que a prática de futebol profissional é quase inexistente — o país é divido entre a metade que torce para o Real Madrid e a outra metade que é fanática pelo Barcelona. A paixão pelas duas gigantes equipes espanholas é tão grande que quase todos seus jogos são transmitidos ao vivo em rede aberta para todo o país pelo canal nacional de esportes, e Cuba é o país no mundo com mais sócios do Barcelona fora da Espanha.

Segundo muitos aficionados por esportes, o futebol vem ganhando muitos adeptos pelo país nos últimos anos — o que já se vê por um número também grande de pessoas jogando futebol tanto nas ruas como em instalações esportivas —, e já está rivalizando com o beisebol como principal paixão esportiva dos cubanos. Em boa parte, isso se deve ao êxodo dos melhores jogadores nacionais que vão jogar em outras ligas de maior expressão internacional, como a japonesa, coreana, venezuelana e, claro, a MLB. Este seria um dos fatores que desestimulam os amantes do esporte a acompanhar as equipes de suas cidades in loco nos estádios, que com raras exceções estão cheios como estariam na década de 1970 ou 1980.

Se o futebol é cada vez mais um “rival à altura” no número de fãs que acompanham suas equipes nos mais diversos meios de comunicação, não há qualquer comparação possível quando o assunto é esporte profissional. O futebol no país é disputado apenas em nível amador, e não atrai quase nenhuma atenção da população ou da mídia local.

Futebol sendo praticado por crianças nas ruas de Cuba (Reprodução)

Já com a “pelota” a história é outra. O beisebol é, via de regra, o assunto esportivo principal dos noticiários — escritos e televisionados — e há um grande número de jogos da serie nacional (nome do torneio de primeira divisão) transmitidas pelo canal de esportes do país. A importância do esporte já se nota com o bom estado de manutenção e tamanhos dos estádios construídos (o que significa um significativo investimento), que geralmente se constituem em um dos pontos de maior referência em suas cidades.

Ao todo são 16 equipes que disputam o campeonato nacional de beisebol profissional, distribuídas em 16 cidades distintas que representam suas respectivas províncias ao longo do país. Como, ao contrário da maioria dos países, os esportes em Cuba são considerados amadores, as equipes não se constituem como clubes ou franquias que “contratam” jogadores. As equipes são responsáveis pelo descobrimento e desenvolvimento de jogadores que vivem em suas próprias províncias (e da mesma forma, os jogadores representam sempre as equipes das províncias em que nasceram ou cresceram). Daí as equipes seguiram algumas características peculiares que se mantém historicamente; mais qualidade no montinho, equipes com jogadores mais rápidos ou com mais potência no bastão.

Atualmente se disputa a 57ª Série Nacional, que vem mobilizando a atenção dos apaixonados pelo esporte no país. O grande assunto discutido é a possibilidade da equipe da equipe dos Tigres da província de Ciego de Ávila — caracterizada historicamente pela qualidade no montinho — ser apenas a terceira equipe na história a ser campeã nacional pela terceira vez consecutiva, ampliando ainda mais o jejum da equipe com mais títulos na Série Nacional de Béisbol, os Industriales de La Habana, com 12 dos 45 títulos já disputados.

Uma tradição já muito antiga, mas o nível não é mais o mesmo

A atual popularidade do esporte remonta a uma história bastante antiga. O beisebol chegou à ilha cubana há mais de um século e meio atrás, trazido por marinheiros norte-americanos na década de 1850. Logo foi um esporte abraçado pelas classes populares, em um ato de rebeldia contra os espanhóis que ainda ocupavam a ilha. Apesar da resistência espanhola, o crescimento de popularidade do esporte em Cuba foi vertiginoso, o que fez com que em 1872 um jogador cubano já fosse chamado para jogar beisebol nos Estados Unidos — foi o primeiro latino-americano no geral, sendo que o segundo seria apenas em 1902, um colombiano.

Porém, o nível atual do beisebol cubano vem caindo nos últimos anos, o que tem preocupado muito os críticos e apaixonados pelo esporte. A última decepção da pelota foi a não classificação para o mundial sub-23 após um pífio desempenho no classificatório americano para o Campeonato Mundial disputado entre o fim de novembro e início de dezembro no Panamá. A classificação na primeira fase veio apenas com uma boa exibição contra a Argentina, vitórias apertadas contra Brasil e Colômbia (nos três casos países com muito menos tradição no beisebol que Cuba), e duas derrotas contra Venezuela (que viria a ser campeã do torneio, reafirmando a boa fase do beisebol venezuelano) e Porto Rico. Na segunda e decisiva fase todos os jogos terminaram em derrota, contra República Dominicana, Panamá, México, além de novamente Venezuela e Porto Rico.

O que mais preocupa é que este não é um fato isolado. Uma seleção nacional que durante muito tempo era vista como uma das mais fortes — senão até a mais forte —, cada vez mais tem demonstrado sinais de fraquezas perante crescentes equipes do continente, como Venezuela e República Dominicana. Lembrando que, das 5 Olimpíadas com disputa de beisebol, a seleção cubana teve três ouros (1992, 1996 e 2004) e duas medalhas de prata (2000 e 2008), além da ampla vantagem de 25 títulos no campeonato mundial (o segundo lugar, Estados Unidos, tem apenas 4). E no caso cubano há o agravante de, além da queda de qualidade na formação de jogadores, ainda ter os poucos bons talentos que surgem irem logo “desertando” para jogar na MLB. O pior, segundo os jornalistas do beisebol no país, é que cada vez mais a população “não sinta as derrotas”, e que o beisebol vá deixando de ser a grande paixão nacional para se tornar um esporte comum.

Liga cubana segue forte, apesar do nível não ser mais o mesmo de outras eras (Getty Images)

Como já sabemos, a preocupação com a queda de popularidade do esporte não é apenas uma questão cubana. Este ponto vem sendo discutido no beisebol em diversas partes do mundo, sendo a pátria-mãe do esporte, os Estados Unidos, o caso mais claro. O esporte, que até a primeira metade do século passado era sem dúvidas o de maior popularidade do país, há um bom tempo já foi ultrapassado pelo futebol americano, comprovado pelos índices de audiência televisiva, pelo número de espectadores nos estádios e nas vendas de produtos e publicidades relacionadas aos respectivos esportes. Mais recentemente se discute se até mesmo a NBA já não se tornou mais popular que a MLB, em uma crescente de popularidade liderada por seguidas gerações de astros como Magic Johnson, Michael Jordan e LeBron James (tal questão relacionada à maior atração da MLB, em especial ao público jovem, vem sendo discutida nos últimos anos, com muitos defendendo um tempo menor para as partidas e uma maior flexibilidade às “regras não escritas” da liga que permita atitudes mais extrovertidas por parte dos principais astros, como o caso de Bryce Harper).

Tentativa de modernização da pelota

Uma alternativa que a federação cubana de beisebol — junto com de outros países — tem planteado é a popularização de “formas mais simples” e dinâmicas de jogo, para tentar atrair a atenção de mais jovens para futuramente entrarem no mundo do beisebol. As duas principais alternativas são o “cuatro esquinas”, e o “béisbol 5”, duas variantes nascidas nas ruas de Cuba.

Ambas versões são semelhantes, são jogadas em campo reduzido, sem campo externo. No caso do “cuatro esquinas” joga-se apenas com quatro defensores em cada uma das bases, e no “béisbol 5” com mais um defensor interbases. O rebatedor joga sem bastão, devendo acertar uma bola macia de borracha com os braços. A duração do jogo é de cinco entradas, com um tempo médio de apenas meia hora de duração. O restante das regras é bem semelhante ao beisebol.

Crianças jogando beisebol na rua (USA Today)

O “béisbol 5” foi criado por várias federações internacionais de beisebol a partir do cubano “cuatro esquinas”, sendo adotado por ser um jogo rápido, dinâmico e sem necessidade de materiais caros. Tendo-se realizado testes na Índia, países da África e na Itália, foi oficializado como esporte em Havana neste 23 de novembro, promovido com o slogan #playeverywhere. Com planos para ser profissionalizado no início do próximo ano, a modalidade é uma resposta das federações de beisebol tanto as inconstâncias em relação à sua inclusão como esporte olímpico (após ser disputado entre as olimpíadas de 1992 e 2008, foi retirado dos jogos de 2012 em Londres e 2016 no Rio de Janeiro, e voltará como um esporte de testes em Tóquio-2020).

Seria uma resposta à principal crítica do COI em relação aos altos custos com equipamentos necessários para a prática do beisebol, em relação à uma abrangência não tão grande em relação a todas as partes do globo. É uma crítica que vem acompanhando outros esportes coletivos que, apesar de muitas vezes serem a “paixão nacional” onde são disputados, acabam por não ter uma disputa não tão difundida internacionalmente, como o críquete ou o rúgbi.

Ainda é muito cedo para avaliar o potencial desta prática, porém, é uma maneira possível para atrair a atenção de muitos lugares nos quais o beisebol é um esporte inexistente ou ainda marginal, como no caso do Brasil. Apesar das críticas que com certeza irão surgir — desde os que poderão dizer que é uma prática que foge à “pureza” do esporte, até os que irão ponderar as possibilidades de lesões das crianças que jogam sem equipamentos — é sem dúvidas uma maneira de popularizar mais a prática do beisebol às pessoas que em um primeiro momento poderiam pensar que o esporte é “lento” ou “difícil de se praticar”. Quem sabe é o primeiro passo para que daqui algumas décadas, em lugares em lugares como o Brasil, tenhamos uma verdadeira prática popular do beisebol, desde o beisebol 5 nas ruas e praças, até uma liga de beisebol bem desenvolvida e atraindo bastante fãs.

About The Author

Torcedor do Philadelphia Phillies, mostra que a paixão pelo beisebol não é uma escolha racional. Cada dia mais viciado pelo esporte, passa metade do dia assistindo aos jogos, lendo textos sobre beisebol ou discutindo as trades no fantasy.

Related Posts