Em uma de suas brilhantes colunas na internet, Ben Lindbergh, um dos melhores colunistas de beisebol do mundo, uma vez disse que o Oakland Athletics é o único time da liga que você nunca sabe se está no modo contender ou rebuild. Parece que Billy Beane e sua trupe, nos últimos sete anos (salvo 2014, você verá adiante), arrumou uma maneira de manter a categoria de base abastecida (ou nunca entre as piores) e nunca “desistir” do presente. Mas isso mudou, e agora Oakland tem uma mentalidade clara.

Só que o balanço que Beane encontrou na maneira como administrar o time é louvável em um mercado pequeno como Oakland. Vale lembrar que essa franquia desde a metade da década de 1990 — ainda quando Sandy Alderson, hoje nos Mets, era gerente geral da equipe — figura entre as piores folhas de pagamento da liga. Ser “pobre” é algo que já está no DNA dos Athletics.

Mas ser “pobre” na MLB significa muito mais do que apenas ter um orçamento limitado para trazer jogadores e renovar com os atletas do elenco. Isso também representa que rebuilds nunca são bem vistos pelo lado financeiro — afinal, equipes de menor orçamento, como próprio Oakland, Tampa Bay Rays e Milwaukee Brewers precisam muito das audiências de TV e estádios lotados.

Na grande maioria das vezes, rebuild significa estádios vazios após a metade da temporada e audiências que beiram a zero — Houston Astros é a grande prova disso (sim, a audiência deles chegou a bater a zero algumas vezes em 2013, no auge da reconstrução).

Por esse motivo financeiro e também pelo fato de Beane ter uma personalidade extremamente competitiva — inclusive já criticou publicamente equipes que fazem rebuilds agressivos —, a possibilidade de rebuild nunca pareceu muito real para Oakland.

Beane sempre foi muito agressivo e sem medo nas suas atitudes como executivo (Getty Images)

Além disso, os A’s também precisam ser conservadores quanto a atacar com tudo no mercado em busca do título. Na era Beane, isso só aconteceu pra valer em 2014, quando ótimos prospectos foram embora em troca de alguns meses de Yoenis Céspedes e Jon Lester.

Em quase 20 anos dirigindo os A’s, finalmente chegou o momento em que Beane precisa e já acionou o modo rebuild completo no time. E até ele tem admitido isso: “Precisamos ter a consciência da posição que estamos. Somos o lanterna da divisão, e precisamos pensar no futuro. Para um novo estádio ser aberto, precisamos de um time jovem para estreá-lo. É um processo”.

Mas dá para ilustrar ainda mais essa declaração de Beane, e entender que realmente o rebuild completo é a melhor opção para os A’s. São duas temporadas seguidas com menos de 70 vitórias (68 e 69, respectivamente). A campanha atual de 42-51 não vai levar o time a lugar nenhum, e mais do que isso o elenco não apresenta muitas alternativas dentro dele. Para completar, alguns jogadores importantes estão prestes a ficar sem contrato.

Não dá para culpar Beane pela falta de tentativa

2014 mostrou uma agressividade que até então nunca tinha sido vista em Beane. Um gerente geral considerado até certo ponto conservador que trocou seu principal prospecto em Addison Russell em busca do título. Mas esse não foi a única vez que Beane tentou ser competitivo com os A’s nos últimos três anos.

Aliás, não dá para classificar a troca de Josh Donaldson para o Toronto Blue Jays como uma indicação de que os A’s estavam em rebuild no começo de 2015. O terceira base saiu para o Canadá muito mais por conta de brigas internas e contrato se aproximando do fim do que necessariamente uma estratégia de Beane pensando para o futuro.

Claro que a saída do melhor jogador do time há dois anos dificultou muito as coisas, e os A’s não conseguiram vencer depois disso. Mas Beane mesmo assim foi no mercado de transferências para tentar consertar as lacunas que ficaram depois das saídas de Donaldson, Lester e Céspedes.

Após o título do Kansas City Royals de 2015, criou-se uma nova tendência na MLB: valorização extrema dos relievers. Afinal, aquele trio formado por Kelvin Herrera, Wade Davis e Greg Holland mostrou para o mundo que um bullpen letal é essencial para a pós-temporada e pode ser o divisor de águas entre um título ou não.

Os A’s foram agressivos ao contratar Ryan Madson, ex-Royals, no mercado de transferências em um longo e nada normal contrato de três anos/US$ 22 milhões para um jogador com grande histórico de lesão e que não é nada de extraordinário. Além disso, contratações de jogadores como Brett Lawrie, Billy Butler, Jed Lowrie e Khris Davis mostravam que esse time estava a fim de ser competitivo — os dois primeiros passaram longe de vingar, mas a tentativa existiu.

Billy Butler foi um dos piores negócios dos últimos anos. Chegou a ganhar US$ 10 milhões por ano e acabou dispensado (AP)

Nesse hiato de duas temporadas entre 2015 a 2016 em que nada funcionou para os A’s, a franquia ainda teve o azar de ter Sonny Gray, melhor jogador do time e franchise player, fora por um tempo por causa de lesão. Tudo conspirou contra Oakland após aquela fatídica pós-temporada de 2014, e a diretoria foi aceitando a nova realidade aos poucos.

No começo dessa temporada Beane ainda tentou mais um suspiro com veteranos em contratos curtos que pudessem contribuir para o time. Santiago Casilla veio, assim como Trevor Plouffe e Rajai Davis. Jogadores de escalão inferior no mercado de transferências, mas que chegaram com objetivo de levar esse time a pelo menos os 50% de aproveitamento de vitórias.

Ainda há muito o que vender

Sendo uma equipe de orçamento limitado, Oakland nunca concretiza contratos malucos e isso gera um elenco muito flexível para negociação. O maior contrato da equipe agora, em vigência, é o de Jed Lowrie com US$ 6,5 milhões por ano. Isso torna os A’s o centro das atenções pelas próximas semanas até a trade deadline.

Alonso é o primeiro na lista dos jogadores procurados em Oakland (AP)

E a liquidação já começou. Na última semana, os relievers Sean Doolittle e Ryan Madson foram negociados para o Washington Nationals e a expectativa é que mais jogadores saiam nos próximos dias e semanas.

Abaixo, estão a lista dos jogadores que serão agentes livres no fim desta temporada e a ideia de um time rebuild é não deixar ninguém sair de graça no último ano de contrato. Portanto, provavelmente todos desses serão negociados por prospectos — ou pelo menos haverá a intenção da diretoria disso. E isso inclui Yonder Alonso, que de uma hora para outra passou de um primeira base completamente sem graça para uma máquina de home runs que foi para o All-Star Game.

Free agents dos A’s após o fim de 2017

Jogador (posição)

Salário em 2017

Jed Lowrie (2B)

US$ 6,5M

Rajai Davis (CF)

US$ 6M
John Axford (RHP)

US$ 5,5M

Yonder Alonso (1B)

US$ 4M

Adam Rosales (2B)

US$ 1,2M

Também há o eterno-para-ser-trocado Gray, que está há pelo menos dois anos na lista dos principais jogadores que podem ser negociados e ainda não saiu. 2017 tem sido um ano de altos e baixos para o arremessador, que ainda não encontrou o seu melhor ritmo, mas o destro ainda vale muito no mercado de transferências e pode render bons prospectos aos A’s.

E o que Beane quer para o futuro é ter um time que ele pode contar, sem precisar essa rotina de negociação em todas as deadlines:

Realmente, o que tem faltado nesses 20 anos é manter os jogadores. A frustração não é falta de sucesso, mas sim a frustração vem após o sucesso, pois não conseguimos manter a pegada. E nós precisamos mudar a narrativa criando um bom time que se traduza em manter os melhores jogadores por perto. Quando o torcedor comprar o ingresso, ele precisa saber que o bom time ficará ali por anos.

Categoria de base precisa ser mais forte

Por conta das trocas do passado que visaram o título em 2014, a categoria de base do Oakland ficou em farelos e precisou ser recomposta a partir de 2015 — isso começou com as chegadas de Franklin Barreto e Sean Manaea, hoje os dois principais jogadores jovens da equipe. E reformular uma categoria de base é algo que geralmente demanda tempo, por isso os A’s figuram apenas entre os 15 melhores em farm system.

O principal prospecto da equipe é Barreto, mas que ainda assim não é nada de explosivo — #42 na lista da MLB para este ano. A rotação é nova, com jogadores de potencial como Manaea, Jharell Cotton e Andrew Triggs, mas Oakland precisa de mais para o futuro e por isso que negociar esses jogadores com contrato expirando faz muito sentido.

Sean Manaea tem vingado neste ano (SI)

Outro indício de que os A’s visam o futuro a longo prazo é o resultado do último draft. A equipe selecionou, na primeira escolha que eles tiveram, o outfielder Austin Beck, vindo do ensino médio. Lembra aquela máxima do filme Moneyball de que os jogadores que saem do ensino médio não são nada confiáveis? Pois é, para esse Oakland que está em reconstrução, isso não é tão mais regra, e Beck é um prospecto ainda muito cru que deve ficar pelo menos três anos nas ligas menores.

Além disso, para Oakland não precisa apenas voltar a ser time mediano a longo prazo. Eles estão numa divisão que tem Mike Trout e um Houston Astros que promete ficar no topo por muito tempo. Recuperar o posto de melhor equipe da AL West vai precisar de muito talento.

***

Essa fase marca um desafio que Beane nunca enfrentou antes como gerente geral dos A’s. Ele vem para uma reconstrução completa, e após dois anos de fracasso na coluna de vitórias e derrotas, o mestre do Moneyball precisa de recuperar o prestígio de um legado que chegou a ser intocável.

Se antes os A’s eram especialistas em sobrepor as expectativas de vitórias com um beisebol extremamente inteligente e analítico, 2018 provavelmente será um ano em que Oakland vai abraçar a rotina de um time ordinário em reconstrução que pensa no futuro. E por mais que a atual temporada esteja perdida dentro de campo, o que acontecer nas trocas das próximas semanas vai ser importantíssimo para o destino dessa franquia a longo prazo.


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