Em 2011, quando Daniel Norris foi escolhido pelo Toronto Blue Jays na rodada do draft, o time canadense concretizou um contratou que rendeu US$ 2 milhões ao arremessador que acabara de sair do ensino médio. Para um garoto de então 18 anos, uma oportunidade e tanto para começar uma vida de alto padrão. Apartamento de luxo, carros potentes, noitadas e férias exuberantes. É o que você espera nesse caso. Afinal, poucos na sociedade podem se orgulhar de ser milionário aos 18 anos por meio do próprio suor. Mas para Norris, o dinheiro não o fez mudar o estilo de vida.

Norris, atualmente no Detroit Tigers, é um católico devoto e que coloca o beisebol como principal amor da vida. Aos 24 anos, ele tem uma tradição peculiar: desde 2015 dirige do Tennessee até a Flórida para o Spring Training com uma Volkswagen Westfalia 1968, vulgo Kombi antiga. Numa viagem que dura semanas, a Shaggy, nome da Kombi, torna a sua melhor e única amiga. Tem até uma conta no Instagram, @shaggynorris.

Por que Norris dedica tanto tempo do ano viajando numa Kombi velha rumo ao sul dos Estados Unidos quando ele poderia estar aproveitando as férias de outra maneira? O motivo é simples: paz.

Para o arremessador, a viagem na Shaggy significa muito mais do que simplesmente cumprir o trajeto de Tennesse até a Flórida. “Eu durmo em paz, acordo no outro dia e não sei como aquele dia vai ser”, diz o canhoto. Longe dos holofotes, das baladas e do centro urbano, Norris encontra nesse estilo de vida uma maneira de se abster da busca por cumprir horários numa sociedade automatizada. Ele, ao contrário da grande maioria, não leva os dias na pressa.

Um fã de fotografia, skate e surfe, Norris aproveita cada oportunidade que tem na viagem ao sul para aproveitar as praias e os momentos em que tem contato com a natureza.

Nessa época do ano, no inverno, Norris adora escalar montanhas e admirar o tempo (Reprodução)

Viajar na Shaggy me dá uma sensação de solidão que eu quero. Estar na estrada e sozinho você pode sentar e pensar e não precisa falar com ninguém. Encontrar a paz através da natureza.

Norris faz da Kombi também a sua casa. Nada de dormir em hotéis durante a viagem. Na parte de traz do veículo, ele tem uma cama improvisada. Ao lado, mantimentos, como café, água e o básico para alimentação. Uma vida simples, exatamente o que ele quer.

Você não consegue andar rápido com essas Volkswagens. Não tem como ir rápido. Todas essas pessoas estão indo a 75 ou 80 milhas, enquanto eu estou a 40 e não me importando na hora que eu chego ao meu destino.

O diagnóstico de câncer

Em abril de 2015, logo no início da temporada, Norris foi diagnosticado com câncer na tireoide. O diagnóstico foi feito bem cedo, e a vida do canhoto não esteve em risco — os médicos diziam que Norris tinha 99% de chance de sobreviver ao tratamento. Com a notícia, no entanto, o canhoto continuou jogando com consenso dos médicos. Ele queria adiar o tratamento o máximo possível, e o fez até o fim da temporada daquele ano.

Norris e sua paixão pelo mar, mesmo no inverno (Reprodução)

Norris não quis assustar ninguém e nem que o problema na tireoide tornasse uma distração para o time e a mídia. Ele só anunciou a doença após o fim da temporada regular, no dia 19 de outubro. Um mês depois, após uma cirurgia, ele estava livre do mal.

A doença foi um ponto de virada na vida de Norris. “Eu senti que era Deus falando comigo para eu não pegar tão duro comigo mesmo. Eu colocava muita pressão em mim para conseguir resultados. A partir dali, passei a relaxar mais e a aproveitar a vida dentro do campo”.

Norris, que na época já estava jogando pelos Tigers (foi trocado na trade deadline de 2015 na negociação que levou David Price aos Blue Jays), era o principal prospecto arremessador dos Tigers.

Não importa se é MLB, Triple-A ou Little League. Há algo que eu preciso me dedicar, e isso é a minha fé através do beisebol.

O talento e amor ao beisebol

Norris é um arremessador muito precoce. Em 2014, quando tinha apenas 21 anos, jé era um big leaguer pelos Blue Jays. Com um mix de bola rápida, changeup e slider, ele tem como Clayton Kershaw uma grande inspiração na carreira: “Adoro assistir vídeos dele jogando. O jeito como ele coloca a bola rápida é surreal”.

Com muito beisebol pela frente, Norris teve um 2017 para esquecer. Ele admite que apressou o retorno da lista dos contundidos, e que deveria ter dado mais tempo para o corpo se recuperar do problema na virilha.

Daniel Norris em treinamento pelos Jays (Reprodução)

Alguns lapsos de grandeza já foram vistos pelo arremessador nas Grandes Ligas. Ainda em 2015, num dos primeiros jogos com os Tigers, ele conseguiu cinco entradas perfeitas antes de sair da partida contra o Chicago White Sox, enquanto em 2016, como membro fixo da rotação dos Tigers, terminou o ano com o bom ERA de 3,38.

Para 2018, no entanto, o objetivo é colocar o ERA de 5,31 da última temporada para trás. Ele tem tudo para finalmente potencializar o talento que uma vez o colocou como um dos melhores prospectos da MLB. Norris, inclusive, será peça importante de uma rotação dos Tigers que está em plena reconstrução. De acordo com o site Rotochamp, ele começa o Spring Training como terceiro abridor no quinteto titular dos Tigers — atrás apenas de Michael Fulmer e Matt Boyd, respectivamente.

Com talento, treino duro e dedicação pelo beisebol, Norris não torna a sua vida alternativa uma distração. Os companheiros de equipe entendem que o que acontece na offseason não interfere o foco durante a temporada regular.

Sim, eu amo surfar e eu amo a Kombi e todas essas coisas, mas isso não é o que eu sou. Beisebol sempre foi o principal amor para mim.

Norris também é uma personalidade que gosta de retribuir o que conquistou com o beisebol. Neste mês, ele realizou pelo quarto ano seguido um pitching camp na cidade natal, Johnson City. Ao treinar com crianças e adolescentes entre 8 a 13 anos, Norris passou algumas horas ensinando mecânica de lançamento e dicas valiosas para futuros jogadores.

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2018 é uma temporada de reconstrução para os Tigers, o que significa que o time terá muita paciência com Norris e ele tem tudo para estabelecer-se de vez como um abridor nas Grandes Ligas. O que não vai faltar é torcida para o personagem mais folclórico da MLB vingar todo seu potencial.


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