O que presenciamos nesta quarta-feira (23/08) é um dos exemplos mais claros de como o beisebol — e o esporte, no geral — pode ser tão encantador e cruel ao mesmo tempo.

Rich Hill fez o que de mais perfeito se pode esperar de um arremessador abridor na partida do Los Angeles Dodgers contra o Pittsburgh Pirates. O starter do Dodgers iniciou a nona entrada com um jogo perfeito, e a décima com um no-hitter na partida realizada no PNC Park, em Pittsburgh. Hill não apenas não conseguiu completar estes raríssimos feitos no beisebol, como ainda saiu de campo com a derrota no jogo.

O que faz o perfect game (PG) e o no-hitter (NH) serem tão especiais é a raridade com que tais feitos ocorrem. O jogo perfeito, partida em que o arremessador realiza uma partida completa sem que nenhum rebatedor do time adversário chegue em base (seja cedendo rebatidas ou walks ou por erro defensivo), é um dos fatos mais raros que há na MLB, tendo acontecido apenas 23 vezes em 148 anos de liga, o que dá uma média de um PG a quase seis anos e meio — o último aconteceu em 2012, por Félix Hernández.

Já o no-hitter, quando o arremessador completa uma partida sem ceder nenhuma rebatida, é um feito bem mais comum, tendo acontecido em ao menos uma ocasião por temporada da MLB desde 2006.

A própria história de Hill, em si, já é feita daquelas narrativas especiais que o beisebol as vezes nos proporciona. O abridor foi considerado um prospecto talentoso em meados da década de 2000, mas seguidas lesões minaram do jogador.

Em 2009, foram 13 starts e um terrível ERA de 7.80 em 57.2 entradas com o Baltimore Orioles e desde então até 2015 foi um jogador de bullpen sem nenhuma relevância na MLB, na maior parte dos anos sem nem chegar a 10 entradas jogadas na temporada. E eis que veio o renascimento no ano de 2016, já com 36 anos de idade, jogando no Oakland Athletics e, depois de uma troca, no Los Angeles Dodgers (conseguindo, respectivamente, ERAs de 2.25 e 1.83, tendo um total de 34 starts na temporada) graças a uma reinventada bola de curva com uma das maiores taxas de spin da MLB.

Desde então, Hill vem conseguindo se manter como um ótimo starter mesmo tendo apenas dois arremessos (a já citada bola de curva, muitas vezes sendo até seu arremesso principal, e uma 4-seam fastball) e vivendo sempre à sombra de possíveis lesões — lida diariamente com problema de bolhas no dedo indicador da mão esquerda, a mesma que ele usa para arremessar.

Não faltam números e fatos que comprovam o quanto a partida de Hill nesta quarta-feira foi especial. É extremamente raro que um starter jogue uma entrada extra, e ainda mais levando o jogo com um no-hitter. A dominação de Hill foi tão extrema que terminou as nove entradas regulares com apenas 98 arremessos, o que significa que o arremessador precisou apenas de, em média, 3.6 arremessos para cada eliminação. O controle dos arremessos foi incrível com 10 strikeouts e tendo chegado a marca de três balls em apenas dois dos 28 at-bats da partida. Claro que também houveram boas jogadas defensivas que salvaram o perfect-game de Hill, especialmente esta bela defesa de Chase Utley.

Hill flertou com o que seria o 24º perfect-game da história da MLB até o início da nona entrada, quando um erro de Logan Forsythe permitiu a Jordan Mercer chegar a primeira base. Não é a primeira vez que Hill sente o gostinho de um jogo perfeito. Em setembro da temporada passada ele foi retirado de um jogo após ter completado sete entradas perfeitas contra o Miami Marlins (com 89 arremessos), devido ao receio de Dave Roberts, técnico do Dodgers, de que o excesso de arremessos pudesse causar uma nova lesão ao abridor e impactasse na campanha da equipe que iria aos playoffs no mês seguinte.

E eis que o walk-off home run de Josh Harrison chegou no início da décima entrada. Foi apenas a segunda vez que um abridor arremessou uma entrada extra de uma partida nos últimos dez anos, e o primeiro a perder a chance de ter um no-hitter na décima entrada desde Pedro Martinez, ainda no Montreal Expos, em 1995.

Foi a segunda vez na história que um arremessador perdeu um no-hitter em uma rebatida de walk-off (a primeira a constar na lista foi um no-hitter perdido por Harvey Haddix na 13ª entrada, em 1959). É a primeira vez em mais de 100 anos que um starter arremessa nove entradas sem ceder nenhuma rebatida e nenhum walk e mesmo assim sai com a derrota na partida.

Talvez tão impressionante quanto o quase jogo perfeito de Hill foi a forma com que o ataque do Dodgers foi silenciado na noite de ontem. E não estamos falando de um ataque qualquer, estamos falando do terceiro melhor ataque da Liga Nacional com 635 corridas anotadas até o presente momento (e é sempre preciso ponderar que o melhor ataque da NL é do Colorado Rockies que manda suas partidas nas alturas de Denver tão benéficas a produção ofensiva). Ataque do Dodgers que havia anotado seis e oito corridas nas duas primeiras partidas da atual série contra o Pirates, tendo enfrentado starters considerados até mais confiáveis que o desta quarta-feira, respectivamente Jameson Taillon e Gerrit Cole.

Não que Trevor Williams esteja fazendo uma temporada propriamente ruim. Com um ERA de 4.40 e WHIP de 1.32 nesta temporada, o abridor dos Pirates teve momentos de altos e baixos neste ano. Antes do jogo desta quarta, Williams teve um péssimo start com oito corridas merecidas em apenas três entradas jogadas na partida contra o St. Louis Cardinals no dia 18 de agosto, depois de dois quality starts seguidos, um jogo de três earned runs em seis innings contra os Toronto Blue Jays e outro com nenhuma corrida cedida em sete entradas contra o Detroit Tigers.

O que poucos esperavam é que Williams pudesse silenciar o ataque do Dodgers em ótima fase, sem ceder nenhuma corrida na oito entradas em que esteve no montinho. O starter dos Pirates foi decisivo pois, apesar de ter cedido sete rebatidas e quatro walks, garantiu que nos momentos mais cruciais o ataque do Dodgers passasse em branco sem conseguir impulsionar corridas de seus homens em base.

Hill à beira do jogo perfeito (Getty Images)

Hill à beira do jogo perfeito (Getty Images)

O que houve no jogo de ontem — ou melhor, o que não houve — sem dúvidas ficará marcado como uma das principais histórias da temporada. Isto mostra o quanto o esporte é feito de histórias, de narrativas que não apenas relatam o jogo, mas que também transmitem emoção. Em uma era na qual o esporte é invadido pelos números e por uma ciência regimentada que busca organizar e prever todos os aspectos do jogo, e o beisebol talvez seja o principal expoente dessa tendência (e não se está questionando aqui a importantíssima contribuição da ciência na evolução do esporte em diversas frentes), o walk-off home run de Josh Harrison mostra o quanto o esporte é mágico.

A rebatida de Harrison, que acabou com o sonho de Hill, nem foi tão impressionante assim. A bola rebatida pelo jogador dos Pirates teve uma velocidade de saída de 94 milhas por hora em um ângulo de 33º o que, segundo os dados da MLB, menos de 10% das rebatidas com características semelhantes são convertidas em home runs.

As improbabilidades não param por aí; a bola rebatida por Harrison viajou uma trajetória de apenas 347 pés, e apenas 2,5% dos home runs da MLB percorrem menos de 350 pés. A impressão que fica é que em um “jogo comum”, a bola teria terminado tranquilamente na luva de Curtis Granderson.

Harrison comemorando o walk-off (AP)

Harrison comemorando o walk-off (AP)

Se as exceções confirmam as regras, é porque as regras também confirmam as exceções. Quando a bola rebatida por Harrison ultrapassou o muro do campo esquerdo do PNC Park, apesar de um esforço descomunal de Granderson para agarrar a bola, milhões de espectadores que acompanhavam ansiosamente o ponto final de mais uma bela história a ser escrita na MLB, tiveram suas expectativas frustradas. E, uma vez mais, a “magia da MLB” opera suas “coincidências mágicas” (a história do beisebol bem poderia ser confundida com uma história de Gabriel García Márquez), já que o mesmo Harrison já havia terminado com a possibilidade de um no-hitter de Justin Verlander com uma rebatida simples na nona entrada de uma partida em 2012.

Algumas coisas sempre serão imprevisíveis, e é daí que surgem as emoções. A bola rebatida por Harrison ultrapassou o muro e chegou em um lugar que nos escancara como as emoções podem se transformar em apenas uma fração de segundo no beisebol. 

Em um momento de poucos segundos, a história de um jogo beirando a perfeição que vinha sendo construído ao longo de um par de horas — para não dizer de anos de uma carreira marcada pela superação — é transformado da água para o vinho. Em um erro defensivo um jogo perfeito se esvai nos últimos momentos. Em apenas uma rebatida, um no-hitter se transforma no acréscimo de uma unidade no seu record de derrotas em relação às vitórias na temporada. O jogo da sua vida pode se transformar pode se transformar na maior frustração, em um grande “e se”.


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