Texto postado originalmente no Spinball Net, em 2015.


Em abril, a MLB homenageia, justamente, um ídolo que é um dos mais relevantes da história do esporte. O homem que mostrou que, em sua época, um negro também pode ser excelente numa determinada área da sociedade, que enfrentou o preconceito para se tornar um jogador espetacular e que ajudou — e ainda ajuda — a integrar pessoas de diferentes etnias. Jackie Robinson merece todas as homenagens possíveis, mas é injusto dizer que ele foi o primeiro negro a atuar na Major League Baseball.

Pelo menos três jogadores atuaram em nível profissional antes de Jackie Robinson estrear pelo Brooklyn Dodgers em 1947. O primeiro aconteceu muito antes dele, em 1879. Naquele ano, um primeira base chamado Joe Start, do Providence Grays, time que pertencia a Liga Nacional, quebrou o dedo e o time ficou desfalcado de jogadores legíveis. No século XIX, não havia elenco de 25 jogadores ou ligas menores e muitas vezes as equipes atuavam com elenco curto. Com isso, os Grays fizeram o que muitos times naquele tempo tinham como necessidade para preencher o time, que em caso de lesões assim assinavam com jogadores amadores na região.

Nesse caso, no campus da Universidade de Brown, em Providence, encontraram um garoto de 18 anos chamado William Edward White. E ele era negro. No dia 21 de junho de 1879, White jogou por um time da Liga Nacional e foi o primeiro cidadão na história do beisebol que quebrou a barreira racial e ninguém ficou sabendo desse caso por mais de um século.

William White (Arquivo Google)

Acontece é que o pai de White era dono de industria ferroviária na Georgia, branco, e a mãe era uma das escravas que pertencia ao pai do homem que quebrou a barreira racial. Além do mais, a mãe dele era de etnia miscigenada, assim White (foto à esquerda) era um jovem pardo e não se reconhecia como afro-americano. Ele passou toda sua vida se colocando como branco, o que de fato não era tendo em conta suas raízes africanas e a cor de sua pele era escura.

Quando ele morreu, em 1937, a sua certidão de óbito estava listado como branco. Nunca se reconheceu como negro, e depois de evidências encontradas muito tempo depois chegou-se a conclusão de sua genética afro-americana. Ele poderia se considerar como branco, ou se aproveitou da oportunidade de se achar dessa maneira em uma sociedade racista e segregada que, naquele tempo, estava longe de ter direitos iguais para os negros.

Ele atuou apenas um dia, pois depois de sua atuação os Grays tiveram três dias de descanso e arrumaram outro jogador para atuar na equipe. De qualquer maneira, ele integrou a equipe e por um tempo um National Leaguer era negro ainda no século retrasado.

Se você não acha o caso de White suficiente o bastante para considerar que Robinson não foi o primeiro negro da história da liga, cinco anos depois do jogador dos Grays uma evidência ainda maior e clara surgiu no Toledo Blue Stockings. Em 1884, o time passou das ligas menores para a American Association, que era a rival da Liga Nacional e que depois serviu de base para a Liga Americana.

Logo no Opening Day de 1884, Moses Fleetwood Walker, catcher e reconhecidamente negro, era o titular da equipe de Toledo. Durante aquele tempo, a liga era formada por times em cidades que eram muito segregadas, como é o caso em regiões como Kentucky e St. Louis. Ele sobreviveu a vários insultos sofridos enquanto jogava, algo ainda mais feroz percebido no filme 42, de Jackie Robinson.

Fleet Walker, o segundo afro-americano a atuar nas ligas profissionais (Arquivo Google)

Durante aquela temporada de 1884, Fleet Walker atuou por 42 jogos e rebateu 26,3% de aproveitamento no bastão, algo acima da média da época. Até mesmo um dos arremessadores de sua equipe, Tony Mullane, branco, claro, disse que Walker foi o melhor catcher com quem jogou durante sua carreira.

Ainda naquele mesmo time e ano, Welday Walker, jogador de campo esquerdo, irmão de Fleet e também negro, atuou por cinco partidas com o Toledo Blue Stocking.

O Toledo Blue Stocking fechou depois de apenas uma temporada, assim os Walker’s ficaram sem time e Fleet atuou nas ligas menores até 1889, período em que não recebeu mais oportunidades em equipes profissionais.

Além dos Walker’s e White, outros afro-americanos se juntaram à equipes profissionais — e a lista não é pequena. Em 1901, Charlie Grant, segunda base, se juntou para o Spring Training do Baltimore Orioles. Quatro anos depois, William Clarence Matthews quase assinou com o Boston Beaneaters, mas ao invés disso complicações raciais fizeram com que ele fosse para uma equipe de ligas menores em Vermont. Em 1916, Jimmy Claxton, arremessador, atuou por duas partidas pelo Oakland Oaks, da Pacific Coast League (AAA), antes de ser dispensado seis dias depois.

Charlie Grant, William Clarence Matthews, Jimmy Claxton e, principalmente, os irmãos Walkers e William Edward White. Todos escondidos na história do beisebol e também na história da sociedade dos esportes e Estados Unidos. Enquanto lembramos de Jackie Robinson e todos seus espetaculares feitos, esquecemos dos outros que foram os primeiros negros na MLB e em ligas afiliadas.

About The Author

Editor-chefe da Casa do Beisebol, entre 2015-2017 ocupei a mesma função no Segunda Base, além de ter trabalhado como administrador e fundador do Spinball Net entre 2011 a 2016. Ainda com passagem pelo ExtraTime. Respiro beisebol 24 horas por dia, também sou tipster e apostador profissional no Quero Apostar.

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